090704 * Edição # 1068

 04JULHO2009

  SÁBADO

Novamente em Porto Alegre para o primeiro fim de semana julino

Ano 3

#1066

Depois da extensa e produtiva jornada de ontem em Santo Ângelo sou trazido a Porto Alegre em uma viagem entrecortada por sonos, sonhos e reflexões viajoras. Foram 31 horas de ausência. Destas: 6 horas (16h às 22) em sala de aula em um muito denso e bem valorizado seminário e mais 13 horas em viagem de mais de mil quilômetros. Houve um bom saldo para duas refeições com colegas da URI (das quais a janta incluiu uma equipe de avaliação do MEC no intervalo de 1 hora entre deixar a sala de aula, passar no hotel e estar a bordo do ônibus) e estada em hotel para trabalho e descanso.Agora, ainda antes de fazer-se dia, cumpro um ritual já inserto em meu cotidiano: a blogada de casa dia e depois um sábado presente em um assim chamado ‘fim de semana julino’ para curtir um frio de 6ºC anunciado quando do desembarque, há não muito.

Esta edição sabatina é de dica de leitura, por sugestão do Marcos Bastos, que ostenta o título de mais assíduo comentarista aqui. A de hoje ainda está imersa nas emoções do nascimento do Pedro na última segunda-feira, que determina a eleição. Na foto daquele memorável dia 28: três gerações.

Os livros de história de amor são usualmente lindos. O Sorriso Etrusco é uma lindíssima epopéia dedicada ao amor de um avô ao seu neto. É particularmente um verdadeiro hino ao avonado, isso é a vivência dos dulçores de ser avô. [SAMPEDRO, José Luís ‘O Sorriso Etrusco’. (Original espanhol: La sonrisa etrusca). Tradução: Monica Stael. São Paulo: Martins Fonte, 1996, 363p. ISBN 85-336-523-4]

José Luis Sampedro nascido em Barcelona em 1917, como economista foi catedrático de Estrutura Econômica na Universidade Complutense de Madrid. Foi também professor de Economia na Universidade de Liverpool. Na área econômica tem uma extensa produção de livros e artigos. Hoje mora em Madrid onde continua escrevendo, sendo um lúcido crítico da decadência do Ocidente, especialmente marcada pelo capitalismo selvagem. No último dia internacional do livro (abril de 2007) participou de manifestações contra a possibilidade de se introduzir o pagamento pela retirada de livros nas bibliotecas.

É um novelista com extensa produção onde se destacam – além do livro de 1985, aqui resenhado –: Congreso en Estocolmo (1951), El río que nos lleva (1961), El caballo desnudo (1970), Octubre, octubre (1981), La vieja sirena (1990), Real sitio (1993), El amante lesbiano (2000) y La senda del Drago (2006).

O Sorriso Etrusco conta com muita poesia a história de um campônio, transplantado de sua pequena comunidade rural da Calábria, no Sul da Itália para Milão. Vem morar na casa do filho para tratamento de grave doença. Então conhece o neto, que para sua surpresa não é um nenê como imaginava, pois já tem 13 meses e inicia a caminhar. O choque cultural com filho e com a nora é algo descrito maravilhosamente. 

As dificuldades vão além: o convívio com a cidade grande. Os milaneses, segundo o velho, não sabem viver e falam um italiano de rádio que ninguém entende. Renato e Andréia não sabem educar o neto dentro da sabedoria calabresa. Além de fazerem Brunettino dormir sozinho no quarto, têm restrições aos mimos que lhe dá ao avô. Só fazem com o menino o que diz o livro ou as tábuas da lei pediátrica. Lá na Calábria mulheres não sabem ler, portanto não consultam livro, mas criam melhor as crianças. “Maldito livro que diz quando as crianças devem acordar e quando devem ter fome!”. Maldito seja também esse pediatra marica de bigodinho que poderá até comprometer a masculinidade do neto. Mas de tudo isso o avô – que com muita dificuldade aprendeu abotoar os botões de pressão da roupinha – procura proteger o neto, quando às escondidas, na madrugada, se esgueira para o quarto onde o menino dorme sozinho. Então ele desfia-lhe as melhores evocações de sua juventude, sonhando em transformá-lo em um autêntico calabrês, que há de suceder-lhe em bravura e também no amor às mulheres. E, então, afloram as continuadas evocações das mulheres calabresas com quais ele fez amor.

O neto, por coincidência leva nome de guerra do avô – Bruno – quando lutava com seus camaradas partigiani contra os invasores alemães. Só isso já é um presságio da bravura que terá o menino. O ‘nono’ tem muitas implicância com a nora. Mesmo que ela tenha feito o avô do Brunettino, ela não tem bunda e não tem peitos e não sabe educar o neto de um calabrês. Ele não consegue imaginar em que Renato se encantou nessa filha de um Senador aliado ao fascismo. 

Entre as várias nem sempre bem sucedidas tentativas de contatos com a cidade grande, o velho termina por descobrir o amor de uma mulher. Isso o transforma. Claro que Hortência não é uma destas milanesas. Estas parecem que são todas de plástico ou retocadas como as mulheres de capas de revistas que ele olha nos jornaleiros. 

Outra novidade que embasbaca a nora, professora universitária iniciante, que julga o sogro um tosco. Ele está colaborando em seminários na Universidade com as maiores autoridades em etnologia, às quais ela não tem acesso, onde vai contar antigas lendas calabresas. 

 Este texto é talvez uma das mais lindas histórias de amor da literatura moderna, que oferece um profundo conhecimento da alma de um homem que fala com a cobra, figura do câncer que lhe devora interiormente. Mas antes do desfecho acontece algo muito sonhado pelo avô. O neto diz ‘nono’ e com sotaque calabrês.

O sorriso etrusco é um daqueles romances que merecem ser relidos. O texto, que a tradução de Monica Stahel permite apreciar muito bem, é preciso, flui, prende o leitor. Traz um tema raro e difícil de abordar: a ternura masculina. De um homem por seu neto, por uma mulher, por um companheiro de lutas. E Sampedro trata do assunto com rara maestria, criando uma personagem tão real que quase a podemos tocar, que nos comove e nos instiga. No silêncio da leitura, no intervalo entre o afã do dia e o repouso que nosso corpo e nosso espírito reclamam, nos humaniza e, talvez por isso, nos conforta.

Não é sem razão que na Espanha esse livro já teve mais de 40 edições, desde a primeira em 1985. Aos leitores deste blogue que não conhecem “O sorriso do etrusco” auguro possam um dia se deleitar com esta linda história de amor. Daqueles que já o conhecem, espero uma ratificação ou talvez uma retificação.

Um muito bom fim de semana julino com gostosa curtida do frio. Eu, junto com meus familiares, curto a esperada do próximo, quando teremos o tríduo de celebração do centenário de minha mãe.

 

090703 * Edição # 1065

 

  03JULHO2009

     SEXTA-FEIRA

Uma vez mais desde Santo Ângelo

Ano 3

#1067

 

Mais uma vez este blogue é postado desde a Capital Missioneira, como já o fora em maio e algumas outras vezes, nos seus quase quatro anos de existência. Em mais de uma oportunidade, então, ofereci a meus leitores informações históricas da região. Meus comentários hoje se alicerçam em outra dimensão, mas também conectados com minha presença na terra onde floresceu uma (quase) utópica ‘colonização’ indígena, porém anterior a presença europeia.

Escrevo depois de uma noite fria, onde em um pouco mais de seis horas viajei 516 km de ônibus. Vale destacar a amabilidade e competência do motorista José Luís e as amenidades proporcionadas pela Ouro & Prata: lanche,fone de ouvido, senha para internet a borda, tomadas para carregar celular e notebook.

 Esta tarde e esta noite tenho um seminário desafiador: “História e Filosofia da Ciência: possibilidades na Escola de Educação Básica". Ele ocorre no Curso de Mestrado em Ensino Cientifico e Tecnológico da URI, Campus de Santo Ângelo. A proposta partiu da Professora Dra. Neusa Maria John Scheid, coordenadora do Programa de Pós-Graduação  em Ensino Cientifico e Tecnológico. Como envolvida com História da Ciência ela deseja ver ampliada essa discussão com os mestrandos e docentes do Programa de Pós-Graduação. Devo dizer que a preparação foi algo exigente, pois sobre o assunto já fiz palestras, mas ainda não dedicara-me uma discussão mais extensa como será a desta sexta-feira.

Quando estou mais uma vez nesta região, tão prenhe de história ligada a povos que habitaram as regiões que hoje chamamos Américas, antes da dita ‘colonização’, há evocações fortes, relacionadas com minhas discussões de  História e Filosofia da Ciência.

Isso me remete para meu livro A ciência através dos tempos e exige um Confiteor. Reconheço o quanto fui reducionista e simplista. Em um livro de quase 200 páginas, onde busco fazer uma mirada panorâmica na História da Ciência, eu, latino-americano, escrevia sobre as civilizações que existiram nas Américas antes da chegada dos “colonizadores” apenas este parágrafo muito pouco elucidativo: “Há informações sobre práticas de tratamentos de doenças, pois foram encontrados crânios trepanados e cicatrizados, o que indica cirurgias realizadas em homens vivos.  Na América, achados idênticos indicam que entre os homens  pré-colombianos haviam hábeis cirurgiões. Ao fazer referências a civilizações na América, é preciso acrescentar que os primeiros dados da civilização maia datam do século III a.C., quando se iniciava a maior e mais florescente civilização do Novo Mundo, que durou até o século IX d.C." (p. 16).

Depois de 14 edições (a primeira foi em 1994; 20ª em 2008) em 2004 o livro ganha outra formatação, agora com 280 páginas, tem um novo capítulo: “Uma história da Ciência latino-americana determina outro marco zero

A recordação de civilizações que viveram nas Américas antes das chamadas descobertas foram quase literalmente eliminadas. Hoje não sabemos o nome de um homem e de uma mulher que viveu aqui antes de 1.500. Tal leva esta blogada para outra reflexão. Esta implica, inclusive, em revisão de alguns de nossos conceitos de Ciência.

Observemos quanto cabe discutir a afirmação: “A Ciência Moderna nasceu no século 16” e acrescentar pelo menos uma localização “na Europa”. Se olharmos, por exemplo, o chamado mundo andino e observarmos a civilização, que foi destruída por gananciosos e traidores conquistadores brancos a partir do século 16, vamos nos surpreender com uma excepcional Arquitetura e Engenharia; com uma sofisticada Agronomia; com uma Medicina que protegia a saúde e curava doenças até com cirurgias cranianas; uma Matemática engenhosa; com quipus [Quipu ou quipo (do quíchua quipu, 'nó') Escrita mnemotécnica usada pelos indígenas peruanos para fins aritméticos ou registro de fatos importantes, e que consiste em um grupo de cordas de comprimentos, grossuras e cores diferentes, pendentes de corda principal, e contendo, os mais curtos, nós representativos de números.], ainda indecifráveis, fontes de registros que talvez nos obriguem a revisar paradigmas; uma Metalurgia que tinha na ourivesaria e na artesania fazeres muito elaborados; uma Astronomia determinando calendários muito mais precisos que os do mundo cristão, e aqui se inclui a precisão dos atuais calendários e essa Astronomia estava fortemente associada uma Astrologia e uma Religião.

Apenas, como ilustração, um breve comentário do que foi esta fabulosa civilização – talvez o melhor adjetivo fosse fantástica – e com esta descrição convida-se ao leitor ou à leitora para fazer algumas inferências do que poderiam ter sido o desenvolvimento dos tópicos antes citados e com isto revisar alguns (pré)conceitos sobre Ciência e não Ciência.

 Os incas foram uma cultura, uma civilização e um império com um território que se estendia por mais de 4.000 km de norte a sul e de leste a oeste o Império cobria distâncias de cerca de 800 km. Estudiosos estimam entre 3,5 a 16 milhões de habitantes (há alguns que referem 30 milhões) que viviam nesta região. Talvez com uma população superior a Europa de então. É fácil avaliar as exigências, por exemplo, de um sistema de comunicações, para governar tão vasto e populoso império. O alto desenvolvimento tecnológico na agricultura é conseqüência das grandes necessidades de alimentos para uma grande população que vivia em regiões áridas e íngremes. Pode-se referir a existência de cultivares com cerca de 80 espécies de milho e de variedades de algodão de diferentes cores, que os espanhóis acreditavam ser tingido.

Mesmo que tenham desconhecido o uso da roda, de animais de tração  e estas duas ausências foram decisivas no confronto contra os brancos  e de um sistema formal de escrita (pelo menos que hoje possa ser fonte de informações históricas, mas esta é afirmação que talvez devamos revisar, se considerarmos as informações ainda não codificadas feitas em quipus) os incas constituiriam uma civilização que alcançou um alto desenvolvimento cultural, que pode ser creditado as peculiaridades de sua organização social.

Podemos considerar que os incas praticavam um socialismo, quando considerarmos que entre eles não havia propriedade privada dos meios de produção. Os produtos das colheitas e das manufaturas têxteis eram distribuídos segundos as necessidades das famílias e em função das atividades desenvolvidas nas produções coletivas. Por outro lado – ou em oposição – havia três classes sociais bem caracterizados e rigidamente estratificadas: o povo, o clero e a nobreza. Os incas eram autocratas por direito divino e governavam com sistema absolutista, comparada, por exemplo, com a França antes da Revolução Francesa. 

Em Cusco – mais populosa que Paris ou Londres na mesma época – antes das chegada dos espanhóis, havia um colégio destinado a aristocracia cusquenha e aos nobres das províncias, onde os jovens, durante quatro anos estudavam a língua quíchua, o uso dos quipus, os fundamentos de seus cálculos e de seus cômputos, como também a história e a mitologia oficial incaica. Havia também nesta próspera capital uma Escola de Engenharia Hidráulica. Estas considerações demandariam que se escrevesse livros para que pudéssemos oferecer às professoras e aos professores mais subsídios para novas leituras de tempos que foram magníficos nesta parte do planeta que hoje chamamos de Américas. 

Quando os incas irrigaram vales e planalto áridos tornando-os lugares ubérrimos, estavam resolvendo um problema de produção de alimentos. Quem determina a perspectiva para considerarmos isso ciência ou não ciência?

Talvez as dificuldades em responder a esta questão podem ser minimizadas com a resposta de Prigogine, prêmio Nobel de Química em 1977 "Acho que a Ciência seja um fenômeno cultural e que ela está intimamente ligada às outras manifestações culturais. Frequentemente os problemas realmente novos da Ciência nascem fora dela e são colocadas em uma perspectiva científica somente em um estágio mais avançado...." (Entrevista publicada na Gazeta Mercantil, São Paulo, em 12JUN98).

É também sobre isso que falo nesta sexta-feira aqui em Santo Ângelo. Na expectativa que esse dia seja muito bom para cada uma e cada um. Desejo o advento de fim de semana muito pleno dos melhores fluídos. Para amanhã, de novo em  Porto Alegre, prometo uma saborosa dica de leitura.


 

090702 * Edição # 1064

  02JULHO2009

   QUINTA-FEIRA

Segundo semestre, nova AGENDA em www.attticochassot.com.br

Ano 3

#1066

A temperatura na Morada dos Afagos é 7ºC, nesta hora mais tardia em que posto o blogue, quando uma tosse mais resistente me aconselhou faltar à Academia. Há que antecipar cuidado quando as duas próximas noites serão a bordo viajando mais de 1.000 km. Ontem contava aqui de um super atabalhoamento que ocorreu com minha agenda, quando – inesperadamente – dois velórios se fazem presentes na mesma. Posterguei em cinco dias a minha esperada segunda consulta (para mostrar resultados da audiometria) que me faz expectante no resolver meu ‘misterioso’ problema de zumbido, Então, estive presente em dois atos fúnebres. 

No primeiro velório pude fazer uma homenagem ao falar na despedida de meu ex-professor e amigo Thomaz Both. Primeiro homenageei o Irmão Teofânio que em 1955/56 foi meu professor no Ginásio Marista São João Batista em Montenegro e depois o Thomaz que junto com a Eneida, sua esposa, foi meu companheiro de tempos de militância católica no Movimento Familiar Cristão, quando nos envolvíamos com curso para noivos. Foi oportuno poder dizer para a Eneida e também para os filhos Flávio e Carmen o quanto o Thomaz foi uma pessoa importante em minha história. Foi muito bom encontrar – e esse é lado bom desses atos fúnebres – Edi, a Maria Tereza e o Sanseverino.

Quase atravessei Porto Alegre para do Cemitério São Miguel e Almas chegar ao Cemitério São João. Então me deparo com algo que evoca as ‘Pietás’. Foi pungente ver a dor da Naldi, que se despedia do Renato, ainda assemelhado a um bebe depois de 47 anos de vida (quase) vegetativa. Ela era a encarnação da ‘Mater dolorosa’ da ladainha mariana. Mais uma vez muitos reencontros de matar saudades: o Rogério, o Ricardo, a Enilda, o Luiz, o Carlinhos, o Luiz Augusto.

Algo comum dos dois velórios: o cântico ‘Com minha Mãe’starei na santa glória, um dia, junto à Virgem Maria, no céu triunfarei! No céu, no céu, com minha Mãe’starei! No céu, no céu, com minha Mãe’starei!’ Esse canto mariano trouxe-me evocações. Recordo que a última vez que eu o ouvira fora a 11 de setembro de 2001, no sepultamento de minha mãe. Claro que então tinha um simbolismo muito denso, pois para mim parecia então estar ouvindo a promessa de estar com minha mãe no céu. Mas esse canto traz outras reminiscências: primeiro, me remete as missões que eram pregadas pelos missionários redentoristas onde esse era muito cantado e lembro de minha perplexidade com a elisão da letra e, para o apóstrofo ligar o ‘starei com letra e de Mãe.

Na última segunda-feira, dia 29 de junho, trouxe aqui a primeira parte de uma entrevista onde Maria Rita Kehl, nome de referência da psicanálise no Brasil narra o trabalho de psicanálise que realiza na Escola Nacional Florestan Fernandes (ENFF) ligada ao MST. Trago hoje a parte final. Detalhes preambulares desta entrevista, que foi publicada no sábado, dia 27 de junho, no caderno Cultura de Zero Hora, podem ser visto na edição de segunda-feira deste blogie, antes referida.

Cultura – Os movimentos sociais se fundam na noção do coletivo. Esta questão transparece de alguma forma quando um membro do MST está no divã?

Maria Rita – Aparece, sim, nas queixas frequentes de que o trabalho grupal, muito exigente, deixa pouca margem para os chamados “cuidados de si” – lazer, namoro, leituras, passeios, descanso. Mas não é difícil fazer com que eles percebam que o excesso de dedicação à “causa” coletiva pode ser um meio de escapar das questões singulares de cada um. Claro que estou generalizando, alguns permanecem muito mais aferrados a cumprir “o que o Outro quer de mim” do que outros etc. Ao longo de algumas análises, emergem muitos conflitos com as normas coletivas da Escola – o sujeito, ao entrar em sintonia com o desejo, torna-se rebelde. Mas essa rebeldia raramente é da ordem do individualismo, mais frequente nas classes média e alta urbanas. Eles se rebelam contra a rigidez das normas coletivas, mas não perdem de vista o fato de que estão no movimento por escolha política e têm uma responsabilidade para com ele.

Cultura – A senhora sempre teve uma posição de esquerda, uma postura crítica acerca da sociedade de consumo e seus valores. Como isso se reflete na realização deste projeto junto ao MST e até mesmo em sua atividade como psicanalista?

Maria Rita – Posso te dizer que, sempre que saio de lá, penso que sou uma privilegiada por ter encontrado o MST e ter sido acolhida por eles como pessoa de confiança. Também me acho uma pessoa de sorte por ter sido convidada a exercer a psicanálise, sem nenhuma concessão, em meio a este que é hoje o maior movimento social do mundo, com 600 mil militantes e 2 milhões de pessoas afiliadas a ele (incluindo famílias já assentadas, que às vezes não militam mais, mas reconhecem sua filiação ao MST). Não é preciso fazer concessões para exercer a psicanálise entre eles porque, apesar da origem católica e rural, o movimento é legitimamente progressista – assim como a psicanálise, aliás.

Cultura – Ao frequentar um universo marcado por bandeiras de luta e o sentido coletivo, em algum momento a senhora temeu a possibilidade de idealizar o movimento ou seus membros? Ou se sentiu cobrada a agir de forma militante?

Maria Rita – Nunca fui cobrada a agir como eles, seja isso o que for; mesmo porque entre eles as diferenças de modos de agir também são muito grandes. Sinto-me respeitada, inclusive em meu estilo mais aburguesado de ser: vou de carro, volto para São Paulo depois dos atendimentos porque quero aproveitar o sábado, raramente fico lá para dormir etc. Agora, não há dúvidas de que, para mim, é fácil idealizar o movimento. Não tanto pelo modo como eles conduzem suas lutas – tenho sérias divergências sobre algumas estratégias e falo sobre elas com pessoas que não são meus pacientes, quando os encontro no almoço, ou nos debates de que ainda participo. O que eu sinto que idealizo, no MST, é a formação humana que eles conseguem obter. A maior parte dos militantes veio de meios sociais violentos, com pouca escolarização, pouca noção de dignidade e respeito, tanto do sujeito quanto na relação com o outro. No movimento, o valor da leitura, do conhecimento, da lealdade e da solidariedade são imensos. Mesmo na clínica, onde os problemas mais profundos vêm à tona, não deixo de sentir admiração pela maioria de meus pacientes da ENFF. Para você ter uma ideia, sabe qual é a maior demanda de “ascensão social” entre eles? Não é ganhar mais ou subir para uma posição de poder: é ser incluído entre os que podem estudar mais, entre os que têm direito a frequentar os cursos etc. Eles são seriíssimos quanto a este aspecto; e quanto à solidariedade também, apesar de todos os defeitos humanos, que são os mesmos que os de todos nós.

Mas isto não significa que eu não tenha admiração pelas pessoas que atendo em minha clínica particular. Tenho, sim, por quase todos eles, pela coragem em enfrentar seus fantasmas, em buscar sua via. Talvez a diferença não se coloque em relação ao valor de cada sujeito, um por um, mas em relação ao “caldo de cultura” em que se vive, lá e cá.

Cultura – E como a psicanálise compreende os movimentos sociais?

Maria Rita – Não sei grande coisa as respeito. Só aponto que existe, entre alguns psicanalistas, um preconceito de que a participação num movimento social seria uma forma de alienação. Como se a adesão quase religiosa à psicanálise e às instituições psicanalíticas não fosse!!!

Cultura – Como avalia a posição das mulheres e as relações entre os sexos dentro do MST?

Maria Rita – É uma posição muito interessante, a das mulheres. Até agora não encontrei, entre as mulheres que atendo no MST, nenhuma que não seja autenticamente feminista, no sentido mais profundo do termo. Ou seja: são mulheres livres em suas escolhas sexuais e amorosas – até mesmo as que vieram de movimentos da Igreja, mas que, na análise, lutam para superar os entraves da moral católica. Ao mesmo tempo, são tão decididas e dedicadas quanto os homens. É interessante a posição das mulheres no movimento: muitas delas, por exemplo, têm cargos mais altos do que seus maridos. Provavelmente, nos acampamentos, entre pessoas que vieram de outros lugares e acabam de ingressar no MST, deve haver muito machismo; este é o perfil da sociedade brasileira. Mas não o encontrei entre os “compas”, como eles se chamam, que transitam no nível da ENFF. O outro detalhe interessante é que as mulheres que atendo lá nunca submeteram a vida da militância às conveniências do casamento. Viajam para lá e para cá, estudam nos cursos em módulos que o MST oferece em convênios com universidades – três meses na faculdade, três meses no movimento, durante a duração do curso – e os maridos seguram a onda, cuidam das crianças quando elas estão fora. O amor não é o centro da vida delas, o que é muito difícil de encontrar. E também não medem seu valor pelo olhar de um homem; nunca ouvi uma moça que não namora dizer que se sente inferior por isso.

Cultura – A escolha de objetos e temas de trabalho sempre revela algo do pesquisador. Na sua trajetória acadêmica, a senhora já passou pela televisão, questões do feminino, juvenilização, ética, depressão – além deste projeto no MST. O que este percurso revela a seu respeito?

Maria Rita – Se eu soubesse, não continuaria buscando. Deixo essa resposta para depois da minha morte.

Adito uma foto do Pedro, ainda do dia de seu nascimento, nesta segunda-feira, Ontem ele deixou o hospital, indo para a casa. Com votos de uma excelente quinta-feira, anuncio que a blogada de amanhã, provavelmente será de Santo Ângelo, pois na sexta-feira à tarde e à noite dou um seminário na URI. Falo dele amanhã. Julho quase se inicia com duas noites consecutivas em ônibus, mas como se pode ver na ‘Agenda’ em www.attticochassot.com.br atualizada, esse mês será quase férias em termos de viagem. 


090701 * Edição # 1063

 

  01JULHO2009

   QUARTA-FEIRA

E, JÁ ESTAMOS NO SEGUNDO SEMESTRE

Ano 3

#1063

Inaugura-se o 2009/2. Agora estamos a nove dias da festa familiar que faremos para celebrar o centenário do nascimento de minha mãe. Mas não só frio (em vários lugares do Rio Grande do Sul há temperaturas abaixo de zero) e a expectativa de confraternização que faz diferente essa estreia do segundo semestre. 

De repente, mal despertava, minha agenda de hoje se faz atabalhoada. Dois velórios – usualmente compromissos imprevistos – entram num dia que tenho mais uma esperada consulta para tentar resolver minha situação de tinittus. Esta parece me atordoar mais pedido solução. À tarde tenho a banca de qualificação de Letícia Britto de Albuquerque do Mestrado Profissional de Reabilitação e Inclusão do IPA que apresenta a proposta de dissertação “Imagem corporal em pacientes com amputação bilateral dos membros inferiores”. É assunto que para mim se faz exigente.

Vejo nos jornais que faleceu o Professor Thomaz Both. É o meu ex-professor Irmão Teofânio, de quando fui aluno marista no Ginásio São João Batista e meu companheiro dos meus tempos de militância católica no Movimento Familiar Cristão quando nos envolvíamos com curso para noivos. Tentando achar espaço para este velório, telefona-me meu irmão Pedro Paulo para dizer que faleceu o Renato, filho da Naldi. A Naldi é minha prima-irmã, na casa de quem morei no meu primeiro ano de Porto Alegre em 1958 e de quem sempre fui próximo especialmente nos anos que trabalhei com meu tio Arnaldo,seu pai, no Bar Caçula e no Restaurante da Reitoria.não posso deixar de ir ao Cemintério São João de pois de ir ao São Miguel e Almas em pontos distantes um do outro.

Como velórios se superpõem nas agendas, ainda defino-me como gerir essa manhã, onde também há o esperado retorno da Ana Paula, voltando de licença maternidade, para os trabalhos do cotidiano de minha Morada dos Afagos. Há permeando tudo uma gripe misturada achaques de tosse que precisa ser vencida para extensa jornada que tenho nesta sexta-feira na URI de Santo Ângelo. O paradoxo inexplicável e como os deuses Cronos e Cairós em certos dias são cruéis na gestão do tempo calendário e no tempo vivido. Todavia, há dias que eles nos premiam com adições de vida inesperadas.

Merece nesse relato, um comentário panorâmico acerca das aulas de encerramento na Licenciatura em Filosofia do Centro Universitário Metodista - IPA. Na hora da rodinha o assunto mais forte foi Michael Jackson, com posturas radicalmente opostas que motivaram grandes polêmicas: o ídolo venerado e o insignificante artista se bateram polêmicos. Comentei também um pouco minha estada em Veranópolis, especialmente acerca do filme “O vento será a tua herança”. O assunto de pesquisa ‘As marcas da(s) Igrejas(s) n(o ensino d)a Filosofia’ foi dos temas de pesquisa mais densamente apresentados, com excelentes evidenciações do quando mesmo em um mundo laico estivemos /estamos imerso em um mundo religioso e o quanto especialmente na Filosofia os limites com a Religião são muito tênues. Na última sessão, por problemas de agenda, tivemos duas mini-aulas. Na primeira o Sergio Antonio da Luz Backes apresentou uma atividade para o ensino médio marcada pela discussão acerca do que é ser livre. Na segunda, Danisa Vieira, a partir de uma muito bem posta encenação de um diálogo entre adolescentes apresentou uma aula para uma oitava série do ensino fundamental. Um e outra trouxeram a seu modo, bons motivos de reflexões; Fizemos ao final ainda uma avaliação do semestre que foi marcada por comentários acerca da excelência da proposta desenvolvida.

Peço aos meus queridos leitores que, conhecendo as justificativas que apresento acima, especialmente aquela da inclemência dos deuses, quando inauguro o segundo semestre, que  aceitem postergar a trazida da segunda parte da entrevista de Rita Maria Kehl. Acolho também a complacência de todos por ontem e hoje minhas blogadas não passarem de um diário de bordo, sem a trazida de algo mais substancioso. Desejo a cada uma e cada um o melhor 2009/2 e nisso se inclua também a concretização da transformação em realidade dos sonhos há muito sonhados.


 

090630 * Edição #1062

 

30JUNHO2009

TERÇA-FEIRA

Uma despedida junina ainda celebrando o PEDRO

Ano 3

#1062

Uma manhã invernosa, aonde ir a Academia (leia-se fazer exercícios fisioterápicos) foi difícil quando ainda era escuro, devido a extensão da noite de ontem. Mas, não me dei por vencido.

Acerca de que vou falar nesse blogue hoje? Parece que nada mais a não ser a ratificação do fato que mereceu, pela primeira vez, em quase três anos, uma edição extraordinária deste blogue; então anunciava: “Nesta, segunda feira o PEDRO nasceu às 12h54min com 2685g. Ele, Tatiana e André estão muito bem. Junto com as vibrações de um avô muito feliz, estão duas fotos tomada com celular pela exultante tia Clarissa. Na segunda o André, um pai radiante de alegria, vibra com seu filho”. Essa blogada que postei aditando aquela que torcia pela chegada de mais um neto.

O que contar deste dia de São Pedro, quando agora o 29 de junho muda para o dia do Pedro? Primeiro – e para mim isso é muito denso – a mudança de significante operada ontem no Hospital Divina Providência. Ele não tem mais como significado mais forte ser o hospital onde minha mãe morreu no dia 10 de setembro de 2001 com 92 anos. Já contei aqui que ela foi sepultada no bucólico cemitério do Faxinal em Montenegro no momento em que se esboroavam as torres do World Trade Center em Nova York. Agora o Hospital da Gruta da Glória é o Hospital onde nasceu o Pedro. Assim, a chegada do Pedro muito provavelmente empane o sentimento de tristeza do ‘antigo’ hospital dos padres e passe a ser o local onde a partida de uma ancestra renasce em nova vida.

Ontem, quando via o André acarinhar aquele menino ainda completamente desnudo, com alguns poucos minutos de vida extra-uterina lembrava-me que, há quase 40 anos, fruía de um menino que antecipava a chegada da primavera em 1970. 

Realmente é uma emoção muito forte ter essa percepção: aquele menino pequenino, que que faz o André pai, comove-me nas doçuras do avonado.

Ontem no IPA tive uma Reunião da Comissão de Seminários, com o Marcelo e a Maristela. Este registro ocorre apara contar que ele trouxe-me dos Estados Unidos adesivos e um boton com a inscrição “Teach Evolution, learn Science’. É muito significativo como se precise naquele país fazer campanhas para ensinar evolução (e assim aprender Ciência). Há uma Federação de sociedades estadunidenses para uma Biologia experimental, que patrocina essa campanha para o ensino de Evolucionismo. Vale visitar www.evolution.faseb.org 

Ainda, à noite participei uma sessão de banca de avaliação de estágio no Curso de Licenciatura em Música. Tomei parte na avaliação de três excelente trabalhos: Juliano Carvalho, Guilherme Huff e Paulo Cesar da Silva. O melhor dessa sessão foi a maneira querida como me receberam aqueles e aquelas que foram meus alunos em 2008/2. Comovi-me.

Amanhã, quando será julho, inaugurando 2009/2 pretendo editar a segunda parte da entrevista com Maria Rita Kehl, iniciada ontem, onde ela narra o trabalho de psicanálise que realiza na Escola Nacional Florestan Fernandes (ENFF) ligada ao MST. Até então.

Uma muito boa terça-feira. Para mim ela se encerra com as últimas aulas no Curso de Licenciatura em Filosofia. Na próxima terça-feira recebo o grupo aqui na Morada dos Afagos para assistirmos o filme ‘Wittgenstein’ com comentários da Gelsa e depois uma confraternização, que já será julina.


 

29JUNHO2009

SEGUNDA-FEIRA

PEDRO nasceu neste dia de São Pedro

Edição suplementar

Ano 3

#1061B





Nesta, segunda feira o PEDRO nasceu às 12h54min com 2685g. Ele, Tatiana e André estão muito bem. Junto com as vibrações de um avô muito feliz, estão duas fotos tomada com celular pela exultante tia Clarissa. Na segunda o André, um pai radiante de alegria, vibra com seu filho.

090629 * Edição # 1061

29JUNHO2009

SEGUNDA-FEIRA

¿Nascerá o PEDRO neste dia de São Pedro?

Ano 3

#1061

Esta postagem que abre semana onde despedimos junho e recebemos julho ocorre em madrugada ainda escura. A chuva já se inicia na região metropolitana. Dentro de mais um pouco cumpro minha hora na Academia Treinar, para então iniciar uma jornada, que se conclui à noite com bancas no Curso de Licenciatura em Música no Centro Universitário Metodista - IPA.

 Desde a minha experiência nas passadas quarta e quinta feiras com o MST já disse, especialmente para mim, o quanto aqueles dois dias foram gratificantes e o quanto gostaria de repeti-los o mais breve possível. Parece desnecessário dizer aqui, mesmo que alguém me inquirisse acerca disso, que não há um centavo de ganho pecuniário.

Ontem nas leituras de jornais – gostosa prática dominical que no inverno tem sabor especial, quando junto a lareira – a Gelsa leu-me algo do caderno de Cultura da Zero Hora de sábado que merece socializar aqui.

Há três anos, um integrante do Movimento dos Trabalhadores Rurais Sem Terra (MST) perguntou à psicanalista Maria Rita Kehl (na foto) como a psicanálise poderia ajudar a militância. Não era a primeira vez que Maria Rita estava palestrando para uma turma de alunos da Escola Nacional Florestan Fernandes (ENFF), centro de formação e ensino idealizado pelo MST. Ela respondeu que a psicanálise não é uma prática militante, mas que muitos militantes precisariam fazer análise por razões particulares. E explicou:

– A neurose interfere na relação dos sujeitos com o laço social, o que vale para a militância.

Ao contar o episódio, Maria Rita, nome de referência da psicanálise no Brasil, diz que eles entenderam imediatamente o que estava implícito naquelas palavras. E, na saída, dois administradores da escola perguntaram:

– Quando você pode começar?

Na semana seguinte, Maria Rita deu início à experiência . A cada 15 dias, Maria Rita deixa São Paulo, onde mora, e percorre 60 quilômetros até a ENFF, em Guararema, e lá atende pacientes fixos e outros que estão de passagem. Não cobra pelas sessões, e, se alguém precisar de uma consulta extra em seu consultório, pede somente R$ 15,00.

– Eles sabem que meu trabalho lá não é por caridade nem por amor pessoal a cada um deles – é a “minha militância”. Este é o valor que eles me dão em troca do trabalho. Levam suas análises muito a sério, como quase todas as escolhas que fizeram.

Doutora em Psicanálise, a campineira Maria Rita trilhou uma trajetória singular. Cursou Psicologia na USP em tempos de ditadura, trabalhou sete anos como jornalista, fez mestrado sobre televisão, teve um filho quando morava em uma comunidade e só em 1981 começou a atuar como psicanalista – e logo mais poeta e ensaísta. Suas palestras e seus livros transitam por diferentes temas – TV, juvenilização, ressentimento, feminino, ética na psicanálise... – o lançamento mais recente, ‘O Tempo e o Cão – Atualidade das Depressões’, teve início a partir de um pequeno incidente a caminho da ENFF, quando, premida pelo tráfego na Via Dutra, Maria Rita viu um cão atravessar a pista mas não pôde evitar bater no animal (que sobreviveu) – travestido de metáfora, o episódio a fez refletir sobre a aceleração da vida e seus efeitos subjetivos.

Neste longo percurso, analisar integrantes do MST e transitar no seio do movimento surge como a oportunidade de descobrir um universo fundado no coletivo e, como ela conta na entrevista a seguir, um privilégio.

Por razões técnicas secciono a entrevista em duas partes. Prometo, ainda esta semana, talvez amanhã, editar a segunda parte

Cultura – Para alguém que chega de fora, o que mais lhe chamou atenção no MST como movimento e no trato com seus membros, individualmente? É possível comparar questões que predominam entre os pacientes de seu consultório particular, em São Paulo, e os pacientes que atende na ENFF?

Maria Rita Kehl – As formações do inconsciente não variam muito; lá existem neuróticos como em toda parte. Recebi alguns alcoólatras também, pois este é um dos sintomas mais frequentes, sobretudo entre homens, na sociedade brasileira – e nas classes pobres, mais ainda. O que é muito diverso da minha clínica em São Paulo são as histórias de vida, evidentemente. 100% dos analisandos do MST têm origem pobre, a maioria do meio rural; alguns, os mais jovens sobretudo, já vieram das periferias das cidades, onde, além da pobreza, conheceram muita violência. São histórias de vida que implicam maior sofrimento real, mas os sintomas que se formam a partir da experiência traumática não variam muito. Trata-se, sempre, de tentar escutar as pistas que indiquem o que está recalcado e fazer com que a pessoa também se escute e questione o que diz, de modo a encontrar pistas que a orientem na via de seu desejo.

O que mais diverge da minha experiência com a clínica em São Paulo é que no MST não percebo, entre as queixas e indagações dos sujeitos, a prevalência do imaginário romântico-sentimental (inclusive no que diz respeito à demanda de amor, na transferência). Não é no amor que eles buscam indicadores de seu valor para o Outro – é na “luta”. As histórias de sofrimento familiar, ou conjugal, raramente se centram nas demandas de amor não-correspondidas, endereçadas ao pai, mãe, esposa/esposo. Não escuto essa queixa de que o pai ou a mãe gostava mais do irmão/da irmã/ se me ama/ se não me ama etc. Não que a questão do valor do sujeito para o Outro não exista, mas, curiosamente, não passa tanto pelas relações amorosas e familiares nem pela demanda de amor ao analista.

Com votos de uma muito boa semana, amanhã, provavelmente nos encontramos aqui. O muito provável nascimento do Pedro torna emocionante a semana.


28JUNHO2009

DOMINGO

¿A Internet veicula mentiras? ou exige que sejamos cada vez mais críticos!

Ano 3

#1060

Uma edição dominical com sol, mas com frio que merece lareira. A manhã de domingo é ainda impregnada no sábado. Em Estrela – onde ainda curti o desjejum com a Ana Lúcia que além de muito carinho, brindou-me com nozes pecan da produção farta de suas nogueiras. Em Lajeado, com a densa participação no Seminário do Instituto PalavrAções, na UNIVATES. 

É ancorado na segunda parte de minha fala “Blogues como artefatos culturais pós-modernos para fazer alfabetização científica” que trago um comentário hoje. A maior crítica que se faz hoje a internet é que ela veicula mentiras. Contraponho dizendo que o problema maior talvez seja a nossa falta de crítica.

Trago um exemplo muito atual. Circula por esses dias fotos e vídeos dos ‘momentos finais’ dos passageiros e tripulantes que morreram tragicamente no voo da Air France Rio de Janeiro/Paris. Eis duas destas fotos.


Eis a mensagem que acompanha as fotos.

Isto é surpreendente e triste: Eu sinto uma grande tristeza para todos os passageiros, incluindo o extraordinário fotógrafo, que manteve a calma mesmo nos últimos momentos de sua vida e tirou essas fotos. O mundo acompanhou o desaparecimento de um avião da Air France durante um vôo transatlântico entre Paris e Rio. As duas incríveis fotos tomadas no interior do avião antes de ele cair. As duas fotografias anexas foram aparentemente tomadas por um dos passageiros do avião, logo depois da colisão e antes de o avião cair. As fotos foram baixadas a partir do "Memory Stick" da câmera. Você jamais verá fotos como estas. Na primeira foto há um buraco na fuselagem através do qual você pode ver a cauda do avião com o seu leme vertical. Na segunda foto, um dos passageiros está para ser sugado para o exterior através do orifício. Estas imagens foram encontradas em uma câmara Casio Z750 entre os restos na Serra do Cachimbo. Embora a câmera estivesse destruída, a ‘Memory Stick’ da câmara foi recuperado. Investigando o número de série da câmera, o proprietário foi identificado como Paulo G. Muller, um ator conhecido do teatro para crianças da periferia de Porto Alegre. É possível imaginar que ele estava parado durante a turbulência, e conseguiu tomar estas fotos, segundos após a perda da cauda da aeronave que colidiu em espiral. A tração estrutural provavelmente desgarrou os motores diminuindo a velocidade de queda, protegendo os equipamentos eletrônicos, mas infelizmente não as vítimas. Paulo Muller deixa duas filhas, Bruna e Beatriz.

As inverdades que acompanham as fotos são tantas, que nos levam logo a desconfiar. Mas há outro dado que deveria fazer-nos críticos. Quando se acompanha busca e identificação das vítimas, ¿como não se soube do tal achado? 

Qual a consequência de mensagens como esta? Descrédito a tudo que veicula a internet. Claro que não podemos ser ingênuos. Todavia, também não apóstolos do apocalipse.

Respeito opiniões como as de Andrew Keen, um escritor britânico que se notabilizou por suas críticas aos “erros que poluem a rede”, especialmente às iniciativas, como a Wikipédia, administradas por amadores. No livro O culto ao amador, Keen (2009) apresenta argumentos contrários ao domínio das ferramentas internéticas por neófitos, além de apontar graves prejuízos ao pensamento preestabelecido e corrente à maioria da população. Para Keen, blogues, MySpace, YouTube e a pirataria digital estão destruindo nossa economia, cultura e valores. Num meio onde toda a gente tem uma voz, a verdade não se faz por discussão racional; mas, por consenso. Os motores de busca que todos usamos são a prova de que “verdade” é tudo aquilo que os internautas elegem como verdade. É assim que a Wikipédia tem mais sucesso e autoridade do que, por exemplo, a vetusta Encyclopaedia Britannica. E acrescenta em uma cultura on-line em que a propriedade intelectual é livremente trocada, baixada e recombinada, a proteção aos direitos autorais está em perigo: artistas, autores, jornalistas, músicos, editores e produtores têm os frutos de seu trabalho criativo usurpados. Além disso, o anonimato da rede cria um ambiente em que pedófilos e ladrões de identidade, por exemplo, podem agir livremente.

Repito, aceito estas análises. Todavia, elas lembram-me o luddismo – é o nome do movimento contrário à mecanização do trabalho trazida pela Revolução Industrial. Adaptado aos dias de hoje, o termo luddita (este nome deriva de Ned Ludd, um dos líderes do movimento) identifica toda a pessoa que se opõe à industrialização intensa ou a novas tecnologias. Os ludditas ficaram lembrados como “os quebradores de máquinas”. Não será Andrew Keen uma reencarnação de Ned Ludd?

Com votos de um bom saldo de fim de semana. Para mim ele se faz bi-podado. Começou na sua dimensão de descanso já quando sábado ia adiantado e termina antecipado, pois hoje meia tarde, a Gelsa viaja a Belo Horizonte para uma Banca na UFMG. Mas essa despedida junina deve ainda reservar as emoções fortes da chegada do Pedro, filho do André e da Tatiana. É a curtição do avonado em expansão.


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