090627 * Ediçã0 # 1059

27JUNHO2009

SÁBADO

Desde a casa da Ana Lúcia em Estrela

Ano 3

#1059

Estou desde o começo da noite de ontem na casa da Ana Lúcia, Eduardo e Guilherme. Foi muito bom passar com eles a fria noite do shabath. Cheguei à rodoviária Estrela, às 19h45min, depois de deixar Porto Alegre às 18h. Era amorosamente esperado por minha filha. Depois de uma circulada pela cidade, já pacatamente recolhida pelo frio, encontramos o Guilherme e o Eduardo curtindo uma lareira.  Foi bom conversar com o Eduardo enquanto a Ana e o Guilherme se esmeravam na cozinha. Daí resultou gostoso estrogonofe. Também assisti o Guilherme dar um sonoro e harmônico show em sua bateria. Mas o momento mais emocionante foi quando o Guilherme e eu jogamos pebolim, que eu conhecia por fla-flu. Não devia colocar o resultado, mas é preciso ser imparcial no relato: perdi pelo aplastante  placar de 17 X 3. Devo dizer que me esforcei, mas meu neto foi muito mais hábil que eu. Uma foto que registra minha vibração em um dos meus raros golos.

Ainda em termos familiares alegra-me dizer que o tradicional almoço das sextas-feiras com o trio ABC foi expandido. Estiveram, além do André, Bernardo e Clarissa, a Tatiana, a Carla, a Maria Antônia e a Gelsa. A razão foi a celebração do nascimento do Pedro, filho do André e da Tatiana, ainda nesse junho. Tenho chance de acertar a aposta que será depois de amanhã: dia de são Pedro. Foi muito bom estarmos juntos neste almoço de expectativa de uma nova vida.
Ainda um comentário de ontem: O ‘formador de opinião’ que proferiu a blasfêmia: ”O maior feito de Michael Jackson foi libertar-se de ser negro!”, senhor Paulo Santana é negro. Ele, que ainda nesta semana recebeu as maiores homenagens pelo seu aniversário de 70 anos, poderia ter poupado sua legião de admiradores desta preconceituosa afirmação.
Hoje é dia de São Cirilo, patriarca de Alexandria. Aqueles que leram meu livro ‘A Ciência é masculina’ ou assistiram-me falar sobre o assunto, hão de lembrar sua responsabilidade no assassinato de Hipácia.
Dentro de mais um pouco deixo a casa da Ana Lúcia e vou à Lajeado (do outro lado do rio Taquari) para na UNIVATES, numa promoção do Instituto PalavrAção durante a manhã discutir "A leitura e a escrita e desafios curriculares- Um compromisso de todas as áreas". Vou falar para professoras e professores da área de Ciências. Na primeira parte vou apresentar uma fala que tenho feito mais recentemente: ‘Das disciplinas à in-disciplina’. Na segunda parte, parto de artigo em vias de publicação pela revista Competência:  ‘Blogues como artefatos culturais pós-modernos para fazer alfabetização científica’ para tentar responder três perguntas: O que escrevo? Como escrevo? Por que escrevo?
Mas sábado é dia de dica de leitura. A de hoje é uma evocação a ter substituído um dos maiores pensadores da atualidade em Belém do Pará na fala de encerramento do Colóquio Brasil-França. Assim, a sugestão é Um ponto no holograma - A história de Vidal, meu pai um dos mais reconhecidos sociólogos pós-moderno faz uma admirável tessitura de mais de quatro séculos da historia de sua família, para nos narrar a densa história de Vidal, seu pai.
Eis os dados bibliográficos da obra: MORIN, Edgar. Um ponto no holograma - A história de Vidal, meu pai. São Paulo: A Girafa Editora, 2006, 448p. ISBN 85-89876-97-7
Não deve ser muito usual que um muito reconhecido sociólogo, antropólogo, historiador e filósofo se proponha a oferecer um livro acerca de sua família, mais especialmente de seu pai e também muito da sua, que não tem sempre as marcas da ortodoxia. Edgar Morin, nascido em Paris em 1921, é Diretor emérito de pesquisas do Centro Nacional de Pesquisa Científica e fundador do Centro de Estudos Transdisciplinares da Escola de Altos Estudos em Ciências Sociais, ambos situados em Paris, onde reside. Sua obra mais conhecida ‘O método’, teve seus seis volumes traduzidos e publicados no Brasil, pela editora Sulina de Porto Alegre. Esta obra tem sido referência para seminários em várias universidades brasileiras.
Talvez pudesse iniciar perguntando aos leitores deste blogue o que conhecem acerca de Salônica ou qual a identidade de salonicense. Se houve evocação às epístolas de Paulo aos tessalonicenses, a ligação está certa. Salônica (ou Tessalônica) hoje é a segunda maior cidade da Grécia; foi importante há pelo menos 20 séculos. Ela é central em A história de Vidal, meu pai a partir do século 15. Em 1492, depois da queda da Granada, o Islã é rechaçado da Europa ocidental e a Espanha, então governada pelos reis católicos, Isabel e Fernando, impõe a judeus e muçulmanos o exílio ou a conversão. As dezenas de milhares de judeus que recusam a conversão ao cristianismo se espalharam pelo mundo. Com a diáspora dos sefarditas os judeus da Espanha espalham-se em pequenas comunidades rumo à Holanda, à Provença, mais amplamente rumo à África do Norte e sobretudo ao Oriente, Império Otomano adentro. Alguns se instalam nas cidades portuárias de Istambul, de Izmir e, principalmente, de Salônica, onde 20 mil deles desembarcam.
Esses judeus formam uma pujante comunidade, que por mais de quatro séculos conserva não apenas a fé judaica, mas a o uso do ladino – língua ibérica semelhante ao castelhano falada por comunidades judaicas originárias da península Ibérica, também chamada de judeu-espanhol ou dijio –. Salônica foi, há um tempo turca, macedônia, italiana, grega e seus habitantes que usava como identidade ‘judeu salonicence’ ou ‘israelita do Levante’, e trocavam de nacionalidade com freqüência.
Em 1894, Vidal Nahoum – um judeu sefardita –, pai de Morin, nasceu em Salônica, e atravessou as guerras balcânicas, a derrocada do Império Otomano, e as duas guerras mundiais. E é a partir de Vidal Nahoum e de Salônica que o historiador traça um panorama dos judeus sefarditas.
Permito-me um parêntesis [Numa simplificação: entre nós (e me refiro ao Rio Grande do Sul) os judeus se dividem em a.- asquenazis – são judeus originados da Europa Central (o chamado judeu-alemão), cuja língua é o iídiche {já referido na resenha de “O Peregrino”} idioma baseado no alto-alemão do século 14, acrescido de elementos hebraicos e eslavos; e b.- sefarditas ou sefaradins – judeu descendentes dos primeiros israelitas de Portugal e da Espanha, que falam o ladino. No RS, a comunidade asquenazi é mais numerosa que a sefaradim]
Acompanhamos na trajetória do biografado a história da Europa do Século 20, onde as duas guerras, a holocausto dos judeus e as alterações de fronteiras dão o tom a uma narrativa emocionante. Acompanhar o pai em duas guerras e depois o filho como ativista na 2ª Guerra Mundial, quando a família já vive na França é muito envolvente.
O livro é uma primorosa edição de A Girafa Editora. Há pequenas imprecisões do tipo ‘31 de novembro’ que parecem não comprometer o texto. A leitura de A história de Vidal, meu pai é facilitada por árvores genealógicas de duas famílias judias salonicenses: Nahum (ramo paterno de Edgar Morin) e Beressi (materno) e de uma cronologia detalhada de seis séculos (1391-1986). Esses dois anexos são bons facilitadores para balizamentos da narrativa, especialmente quando não se tem a desejada condição de fazê-lo por muitas horas seguidas.
É com entusiasmo que recomendo às leitoras e aos leitores do deste blogue  essa obra mais recente de Edgar Morim. A oportunidade de conhecermos como se deu e como se dá construções de identidades – e as lutas de dos homens e das mulheres para consegui-las, escondê-las, mantê-las – é provavelmente um dos pontos mais significativos desse livro. Também por isso vale lê-lo.
Agora apenas votos de muito bons sábado e domingo. Na expectativa de lermos amanhã de Porto Alegre mais uma vez, pois retorno depois da fala direto de Lajeado.

090626 * Edição # 1058

 

26JUNHO2009

SEXTA-FEIRA

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Ano 3

#1058

Uma manhã muito fria no Rio Grande do Sul. Com várias cidades com temperaturas negativas. Aqui Porto Alegre há temperaturas de 4ºC. Não vou comentar a morte de Michael Jackson aos 50 anos, que desde a noite de ontem abala o ocidente. Todavia, não posso deixar comentar blasfêmia proferida por aquele que é tido como o mais lido cronista gaúcho:” O maior feito de Michael Jackson foi libertar-se de ser negro!”. Um horror. Sem comentários.

Parece-me natural que essa blogada ainda se marcada pelas intensas experiências vividas ontem no Instituto de Educação Josué de Castro no ITerra em Veranópolis. Deixei a ‘terra da longevidade’ toldada de espessa neblina, que me assustou ante a necessidade de descer a serra, às 13h45min; depois de uma circulada por Bento Gonçalves e Garibaldi, entremeadas de gostosas dormidas, às 17h estava em casa. 

Ontem, encerrei pela manhã um ciclo de quatro turnos para educandas e educandos do curso de Técnico de Saúde Comunitária. Este educador referiu neste blogue, na quarta-feira que no contexto do MST não é usual referir a alunas e alunos, pois se diz que etimologicamente aluno, significa sem luz. Quero dizer que, uma única vez, fui referido como professor, com imediata retificação para educador. E entre os estudantes as referências foram sempre a educanda e educando. Observei que, pelo menos três comentaristas distinguidos este blogue tenham aderido a essa maneira de referir-se corrente no grupo.

Retornado à Morada dos Afagos fiz uma busca da etimologia em dois dicionários. Não encontrei em nenhum a possível alusão de que aluno signifique: ‘sem luz’. Todavia etimologia encontrada confere ao Setor de Educação do MST, desrrecomendar o uso de alunas e alunos. Eis o que coloca o Houaiss: Etimologia latim alumnus,i 'criança de peito, lactente, menino, aluno, discípulo', derivado do verbo alère 'fazer aumentar, crescer, desenvolver, nutrir, alimentar, criar, sustentar, produzir, fortalecer etc.'; ver alt-; formação histórica: 1572 aluno, 1572 alumno;

Além dessa descrição etimológica há acepções que contra-indicam usar aluno: como esta do Houaiss: 3. pessoa de parco saber em determinada matéria, ciência ou arte e que precisa de orientação e ensino. O Aurélio tem uma acepção similar: 2. Aquele que tem escassos conhecimentos em certa matéria, ciência ou arte; aprendiz.

Lateralmente devo dizer que, ao concordar com o não uso de alunas e alunos, acredito que o abandono do termo ‘professor’ que para mim é muito grato, se deve, segundo infiro, apenas por uma isonomia entre Educador e Educando.

A manhã de quinta-feira, nas suas 4,5 horas foi pequena. Por problemas técnicos no hotel, só cheguei ao ITerra para as aulas. Deixei de assistir um dos momentos matinais que mais me encanta: a mística. Primeiro fizemos uma retomada do filme O Vento Será Tua Herança que víramos. Ouvi encantados alguns comentários bem postos. Em seguida retomamos o assunto combustão hoje aditado de estudos acerca da fotossíntese, na busca de entender do equilíbrio oxigênio gás carbônico. A discussão acerca do abandono do paradigma flogístico foi antecedida da olhada panorâmica de revoluções paradigmáticas anteriores e posteriores a revolução lavosierana. Nisso fomos coadjuvados por Thomas Kuhn e Paul Feyerabend. 

Ainda fizemos uma breve preparação do filme Marie Curie. Trata-se de um filme estadunidense de 1943 do gênero drama biográfico, dirigido por Mervyn LeRoy. A produção retrata a vida da célebre física franco-polonesa e ganhadora de dois Prêmios Nobel (Fisica 1903) e Química (1811). O produtor foi Sidney Franklin para o Estúdio MGM. Roteiro de Paul Osborn, Paul H. Rameau e Aldous Huxley (não creditado), adaptado da biografia escrita por Eve Curie, filha de Marie. Este filmes os estudantes vão assistir e remeter um trabalho, como atividade complementar, para completar 1,5 hora que deixei a descoberto.

Encerramos com a parte que eles mais esperavam. Um estudo da ‘Tabela Periódica'. Se organizaram nos três grupos de base, como estão usualmente organizados: Che Guevara, Antonio Gramsci e Irmã Doroti e manipularam tabelas periódicas que eu levara para distribuição. Fiquei encantado, quando a maioria, que jamais usura esse recurso, estava propondo combinações de elementos para formar substâncias.

Quando do encerramento fui agraciado com uma artística camiseta com o dístico: Reforma Agrária por Justiça Social e Soberania Popular e um produto da linha Reforma Agrária: um pote de geleia de uva. Eu ofereci exemplares de meus livros à Biblioteca do Instituto de Educação Josué de Castro. Ao final: estava cansado? Sim, mas muito feliz. Essa atividade que desenvolvi na quarta e quinta feira é, dentre todas, aquela mais me gratifica emocionalmente. Valeu parecer um Quixote.

Uma nota lateral, no atestar como cada vez a internet nos faz próximos. Ontem â noite, meu cunhado Antônio Otelo Cardoso, me chama pelo Skipe. O Imaginava em Curitiba ou na Foz do Iguaçu, onde é um dos diretores da Hidroelétrica de Itapu. Ledo engano. Ele chamava-me de Reykjavík (em português Reiquejavique ou Reiquiavique; Reykjavík = baía fumegante) é a capital da Islândia e, pela sua posição, é também a capital mais setentrional do mundo. Durante o inverno, os dias duram quatro horas e, agora quando é verão (ele me dizia que então era quase 23horas, as noites não existem. A cidade situa-se a 64° 04' de latitude norte, muito perto do círculo polar ártico. Otelo está na Islândia para participar de uma Conferência Mundial em defesa da sustentabilidade das hidroelétricas organizado pela International Hydropower Association. É algo fantástico de repente ‘viajar’ para um lugar, onde talvez nunca irei. Mas alem do papo, valeu conhecer um pouco Reykjavik.

Já que fiz uma tão distante incursão geográfica, um comentário acerca de uma cidade mais próxima e não tão exótica. Referi, nesses três dias aqui Veranópolis.

A aprazível cidade está no Nordeste do Rio Grande do Sul, na Microrregião Caxias do Sul. É considerada a capital brasileira da longevidade por ser a terceira cidade no mundo neste quesito. Também é conhecida como a Princesa dos Vales. O nome da cidade vem de "Cidade de veraneio". A maioria dos habitantes é descendente de imigrantes italianos, seguidos de poloneses e de outras etnias. Os primeiros imigrantes italianos chegaram a Veranópolis a partir de 1884. Até 31 de dezembro de 1943, tinha o nome de Alfredo Chaves, homenagem a Alfredo Rodrigues Fernandes Chaves. Este foi Ministro da Colonização e Ministro da Marinha no Império.

Não encontrei uma explicação de porque foi deserdado do patronato da bucólica cidade, que hoje acolhe, em parte das dependências de um antigo seminário dos freis capuchinhos, líderes ligados ao MST de todo o Brasil, em busca de formação para uma melhor militância. 

Amanhã a blogada sabatina, com apetitosa dica de leitura, será de Estrela ou Lajeado. Fala pela manhã a cerca de 150 professoras e professores na UNIVATES numa promoção do Instituto PalavrAção. No final da tarde de hoje vou à Estrela, para esta noite curtir a Ana Lúcia, Eduardo e Guilherme e na manhã de amanha sigo a Lajeado, retornando a Porto Alegre depois da palestra. Encerro com votos de uma boa sexta-feira e um acolhedor shabath. Lemo-nos amanhã.


 

090625 * Edição # 1057

 

 

25JUNHO2009

QUINTA-FEIRA

Desde a terra da longevidade: VERANÓPOLIS

Ano 3

#1057

Esta postagem é de Veranópolis onde ontem e hoje estive/estou no Instituto de Educação Josué de Castro – localizado no complexo do Instituto de Capacitação e Pesquisa da Reforma Agrária (ITerra), Aqui ministro 15 aulas para educandas e educandos [ontem, este educador, referiu aqui, porque neste contexto não usa alunas e alunos] do curso de Técnico de Saúde Comunitária. Deixei Porto Alegre às 05h e, depois de visitar as rodoviárias de São Leopoldo, São Sebastião do Caí, Bom Princípio, Farroupilha e Bento Gonçalves, subir a serra do vale das Antas, cheguei à terra da longevidade às 08h40min, com 4ºC. 

Antes das 10h já estava no ITerra para uma reunião com a comissão pedagógica. Então, preliminar anunciei que seria indisciplinado e não seguiria os conteúdos ‘clássico’ (e inúteis) de Química que me foram remetidos, mas faria discussões acerca da Ciência. Aceitaram minhas ponderações. Logo estava em sala de aulas para falar de Ciência para 24 homens e mulheres de idades entre 15 e 45 anos, vindos 10 do Rio Grande do Sul, 3 de Santa Catarina, 5 do Paraná, 1 de São Paulo, 1 do Distrito Federal, 2 do Ceará,1 do Pará e 1 do Paraguai. 

Houve por primeiro uma pequena vingança da tecnologia: o meu material não abria no computador local, que só opera com software livre. Salvou-me meu notebook. Depois das apresentações dos participantes, solicitei que individualmente, cada um colocasse em algumas linhas suas expectativas para as 15 aulas que viveríamos juntos. As mais de duas dezenas de anseio completariam o espaço desta edição. E, nem se fosse um mago poderia correspondê-los, mas muitos anelos já devem ter sido respondidos.

Em um segundo momento, solicitei que em duplas, respondessem a pergunta: ¿O que é Ciência, afinal? A leitura das produções ensejou excelentes discussões e desmistificações de algumas proposituras. Vencidas essas duas etapas, houve dois momentos preambulares ao inicio ‘formal das aulas’. Primeiro fiz uma homenagem ao Charles Darwin, na esteira do ano darwiniano. Isso exigiu uma discussão mais aprofundada discussão acerca de criacionismo versus evolucionismo, nem sempre trivial. O segundo momento foi a trazida de uma contextualização do ecossistema do encontro, ensejando que falasse sobre alerta 350 ppm, a Teoria Gaia de Sir James Lovelock, encerrando com uma charge que ofereço a seguir aos meus leitores.

Depois destas preambulares que se fizeram muito mais extensas que planejara iniciei com uma analise, onde descrevi a Ciência como uma construção humana, comparando-a com outros cinco mentefatos culturais. Ao considerá-la como uma linguagem, foi destacando exigências de uma alfabetização científica. Isso foi permeado de muitos exemplo de diferentes ‘disciplinas’ como vou contar a baixo. Isso consumiu a parte da manhã (10h30min às 12h30min) e a tarde (14h ás 18h30min).

Houve a sugestão que na parte da noite tivéssemos uma sessão de cinema, até para amenizar as exposições havidas antes, que mereceram muitos elogios na avaliação dos estudantes. Ofereci quatro opções para o terceiro turno: Guerra do Fogo, Vida de Charles Darwin, Marie Curie, O vento será a tua herança (estes dois últimos atenciosas doações de Geziel Moura, um querido belenense leitor desse blogue). Escolheram o quarto que assistimos a partir das 2030min e Marie Curie fica, para assistirem quando já não mais estou com eles, como trabalho suplementar, pois não conseguirei inteirar 15 horas relógio. 

O Vento Será Tua Herança [Inherit the Wind, Direção: Stanley Kramer Roteiro: Jerome Lawrence (peça), Robert E. Lee (peça), Nedrick Young (roteiro adaptado), Harold Jacob Smith (roteiro adaptado) Spencer Tracy, Fredric March, Gene Kelly, Claude Akins, Elliott Reid, Dick York,Donna Anderson, Harry Morgan, Paul Hartman, Philip Coolidge 1960, Estados Unidos. 128min, Drama histórico, P&B]. 

O filme é um clássico inspirado em um caso real, o "Processo do Macaco de Scopes", como foi chamado o caso do Estado do Tennessee contra o professor de biologia John Thomas Scopes, ocorrido em Dayton, 1925. O professor foi julgado por ensinar a teoria da Evolução em uma escola pública. Filme antigo, mas que não se perde no tempo, é para ser visto várias vezes, pois os diálogos são profundos e emocionantes. É a luta pelo direito que o indivíduo tem de ser e poder ser diferente, de pensar e expor seus pensamentos de modo pacífico e em liberdade. Como pano de fundo, o fanatismo religioso engessando a inteligência dos mais simples. Numa cidade marcada pela forte presença da comunidade religiosa, professor é preso por ensinar a Teoria da Evolução de Darwin. O caso vai para o tribunal, onde acontece uma série de inflamados debates ideológicos, que mexem com a localidade e com seus habitantes. Baseado em caso real ocorrido em 1925.

Já passava das 22h30m quando todos vimos emocionados as cenas finais. O adiantado da hora não permitiu que discutíssemos o filme. Mas os olhares já disseram muito. Talvez sintetizasse naquilo que me disse o Carlos – um dos decanos da turma e dos três que ainda estão no MS@ – quando com mais um colega me fez escolta em trecho na noite fria: “Aulas como as de hoje me farão pensar o resto da vida!”. Soava 23h, quando passava diante da igreja matriz, rumo ao hotel. O termômetro marcava 4ºC. Eu acelerava passo, pois não conseguira taxi. E a noite era sofrida para os gremistas. 

Vencido três dos quatro turnos devo solenemente dizer que tenho posto em prática com pertinência o que tenho teorizado nas últimas palestras. Não estou dando aulas de Química. Falei hoje de assuntos de Física, de Biologia, de Matemática, de História e Filosofia da Ciência, Geografia, Língua Portuguesa e, até de Química. Aqui trabalhei mais intensamente reações de combustão, especialmente o significada das mesmas no aproveitamento da glicose na alimentação humana, do GLP no fogão doméstico e das diferenças do heptano e do octano em um motor de automóvel e da consequências destas na alteração das taxas de carbono (gás carbônico) na atmosfera.

Houve algo lateral que merece ser contado. Meu telefone (e de outros) foi recolhido à portaria, mesmo que argumentasse o meu estava em modo silencioso. Disseram-me que mesmo desligado deveria ser recolhido e se eu o trouxesse amanhã (hoje) seria recolhido de novo. As razões para tal serviu para que eu exemplificasse como pensamento mágico: que a presença de telefones celulares em uma sala (mesmo desligados) permite que espiões distantes capturem informações do que está sendo dito. Ante meu argumento que tal deveria ser falacioso, fui contraposto com a afirmação: “Educador, não afirmastes que não existe a Verdade!”. Rendi-me.

Amanhã conto outros comentários das aulas aditando àqueles que serão produzidos na sessão desta manhã (das 08h às 14h30min). Completarei então o relato da jornada deste mestre-escola. Uma boa quinta-feira.


 

090624 * Edição 1056

24JUNHO2009

QUARTA-FEIRA

Com anúncios de frio partindo para a terra da longevidade: VERANÓPOLIS

Ano 3

#1056

Esta edição está sendo postada quando recém começa o dia de São João. Ocorre que às 05 h parto da rodoviária, rumo à Veranópolis onde hoje e amanhã, no Instituto de Educação Josué de Castro – Iterra, ministro 15 aulas para educandas e educandos [sei que não posso me referir a alunas e alunos, pois se diz que etimologicamente aluno, significa sem luz] do Curso de Técnico em Saúde Comunitária. Essas atividades junto ao MST são para mim muito gratificantes. Sobre as mesmas devo falar na edição de amanhã.

Não faz muito que voltei das aulas com a turma do 5º semestre do curso de licenciatura em Filosofia do Centro Universitário Metodista - IPA. Serei uma vez mais repetitivo. As noites de terças-feiras são os melhores momentos acadêmicos da semana. Hoje as aulas da Filosofia foram antecedidas com minha participação em banca de três trabalhos de conclusão do curso de Música, das 19h10min às 21h. Foi muito bom reencontrar-me com o ‘Curso de Música’ e, mesmo da área da Química não me sentir um alienígena. Participei como avaliador convidado de três excelentes Relatos de Estágio de Conclusão de Curso: Lauro Bellini, Ana Borba e Rafael Carneiro. Nas aulas da Filosofia na hora da rodinha pontificaram: a situação do Irã – e a maneira não formal de dar conhecimento ao mundo do que lá acontece – e os escândalos do senado – com Sarney, aquele de família bem constituída –. No tema de pesquisa e na micro-aula a estrela foi a Sheila Lisandra Nunes. No primeiro tópico, ela fez uma panorâmica apresentação da trajetória da Escola desde os egípcios até os dias atuais e sua micro-aula foi acerca da ‘Teoria dos sentimentos morais’ de Adam Smith. Foi uma noite muito rica.

Há alguns dias queria contar algo acerca de uma mensagem que recebi de Ana Maria Botelho de Lima, uma atenta leitora de Porto Velho, Rondônia. A cidade me evoca o mês que lá vivi como professor em 1973 (se a memória não me trai quanto ao ano) no Campus Avançado do então Território de Rondônia. Esta é experiência precisa, ainda, ser resgatada para o livro que sonho escrever acerca de minha história de professor.

Mas Ana Maria me remete a outra muito gostosa experiência acadêmica mais recente. Em 1998, o Renato José de Oliveira, doutor em Educação e experto em Bachalerd e eu organizamos “Ciência, ética e cultura na educação”. Foi um livro que teve bastante sucesso, tanto que a Editora Unisinos fez mais tiragens até 2001. Há na obra algumas originalidades editoriais, sem falar na preciosidade dos textos. Renato e eu convidamos mais 10 renomados colegas para escrever um capítulo que poderia ser enfeixado dentro do título. Com 12 textos amealhados, escolhemos para cada um, um mestrando ou um doutorando da área de ensino de Ciências para, como pré-leitor, fazer um comentário crítico de apresentação de duas páginas para anteceder o texto. Outro detalhe original da obra é que cada um dos 12 autores faz uma auto-apresentação. O livro teve ainda primorosa apresentação geral do filósofo Leandro Konder. Há outro um detalhe precioso: para a capa elegi a reprodução de um cartaz que há na Universidade de Salamanca, onde se imputa excomunhão, reservada a remissão papal, a quem subtrair livro daquela biblioteca. Lateralmente devo contar que tenho um mosaico com esta mesma reprodução em minha biblioteca.

Mas a pergunta: onde entra a colega Ana Maria na história? Meu texto no livro é: “Inserindo a História da Ciência no fazer Educação” e ela escreveu-me perguntando o que eu queria dizer, naquele texto, com ‘contemplar a espada de Dâmocles’ em uma frase que agora transcrevo: “Quando vejo meus alunos e alunas de cursos do Centro de Ciências Econômicas, no meu trabalho em uma disciplina de Introdução à Filosofia da Ciência, o que mais me angustia é contemplar a espada de Dâmocles, chamada desemprego, que está sob suas cabeças. Eles e elas vivem as transformações dos cenários de trabalho, onde este dragão chamado de mundialização faz desaparecer cada vez mais o emprego e até profissões. Há pessoas cujo trabalho é subitamente modificado”.

Para esclarecer minha leitora transcrevi uma historieta que colhida na rede, que se diz ser uma adaptação de original de James Baldwin. Vale ler:

A Espada de Dâmocles: Era uma vez, um rei chamado Dionísio, monarca de Siracusa, a cidade mais rica da Sicília. Vivia num palácio cheio de requintes e de coisas bonitas, atendido por uma criadagem sempre disposta a fazer-lhe às vontades.

Naturalmente, por ser rico e poderoso, muitos siracusanos invejavam-lhe a sorte. Dâmocles estava entre eles. Era dos melhores amigos de Dionísio e dizia-lhe frequentemente;

– Que sorte a sua! Você tem tudo que se pode desejar. Só pode ser o homem mais feliz do mundo!

Dionísio foi ficando cansado de ouvir esse tipo de conversa.

– Ora essa! Você acha mesmo que eu sou mais feliz do que todo mundo?

O amigo respondeu:

– Mas é claro! Olhe só o seu tesouro e todo o seu poder! Você não tem absolutamente nada com que se preocupar. Poderia sua vida ser melhor do que isso?

–Talvez você queira trocar de lugar comigo - disse Dionísio.

– Ora, eu nem sonharia com uma coisa dessas! Mas se eu pudesse ter sua riqueza e desfrutar de todos esses prazeres por um dia apenas, não desejaria felicidade maior.

– Pois bem! Troque de lugar comigo por um dia apenas e desfrute disso tudo. E então, no dia seguinte, Dâmocles foi levado ao palácio e todos os criados reais lhe puseram na cabeça as coroas de ouro. Ele sentou-se à mesa na sala de banquetes e foi-lhe servida lauta refeição. Nada lhe faltou a seu bel-prazer. Havia vinhos requintados, raros perfumes, lindas flores e música maravilhosa. Recostou-se em almofadas macias. Sentiu-se o homem mais feliz do mundo.

– Ah, isso é que é vida! Nunca me diverti tanto! confessou a Dionísio, que se encontrava sentado à mesa, na outra extremidade. 

Dâmocles enrijeceu-se todo. O sorriso fugiu-lhe dos lábios e o rosto empalideceu. Suas mãos estremeceram. Esqueceu-se da comida, do vinho, da música. Só quis saber de ir embora dali, para bem longe do palácio, para onde quer que fosse. Pois pendia bem acima de sua cabeça uma espada, presa ao teto por um único fio de crina de cavalo. A lâmina brilhava, apontando diretamente para seus olhos. Ele foi se levantando, pronto para sair correndo, mas deteve-se tremendo que um movimento brusco pudesse arrebentar aquele fiozinho fino e fizesse com a espada lhe caísse em cima. Ficou paralisado, preso ao assento.

– O que foi, meu amigo? - perguntou Dionísio - Parece que você perdeu o apetite.

– Essa espada! Essa espada! Você não está vendo? disse o outro, num sussurro. 

– É claro que estou. Vejo-a todos os dias. Está sempre pendendo sobre minha cabeça e há sempre a possibilidade de alguém ou alguma coisa partir o fio. Um dos meus conselheiros pode ficar enciumado do meu poder e tentar me matar. As pessoas podem espalhar mentiras a meu respeito, para jogar o povo contra mim. Pode ser que um reino vizinho envie um exército para tomar-me o trono. Ou então, posso tomar uma decisão errônea que leve à minha derrocada. Quem quer ser líder precisa estar disposto a aceitar esses riscos. Eles vêm 

junto com o poder, percebe?

– É claro que percebo! Vejo agora que eu estava enganado e que você tem muitas coisas no que pensar além de sua riqueza e fama. Por favor, assuma o seu lugar e deixe-me voltar para a minha casa! disse Dâmocles.

Até o fim de seus dias, Dâmocles não voltou a querer trocar de lugar com o rei, nem por um momento sequer. 

Com votos de que a quarta-feira seja preciosa, agradeço torcidas pelo meu êxito em Veranópolis, de onde pretendo escrever, amanhã.


090623 * Edição # 1055

 

23JUNHO2009

TERÇA-FEIRA

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Ano 3

#1055

Uma manhã chuviscosa. Era noite fechada quando antes das 07h chegava a Academia Treinar. Estamos no dia da noite maior do ano no Hemisfério Sul. Uma data que na minha infância era sempre esperada: a vigília de São João. A noite das fogueiras. Quisera trazer aqui evocações de minha infância misturadas como os rituais de fertilidade, que marcavam os solstícios de inverno e de verão, presentes em cultura como dos incas e assimiladas sincreticamente pela Igreja cristã para assinalar as festas natalinas e juninas. Talvez mais bem posto seria dizer apropriadas pela Igreja. Deveria louvar aqui o quase abandono da prática anti-ecológica de se fazer fogueiras. Sempre recordo quando há não muito, estive em junho em Jequié, na Bahia, e me surpreendeu ver a venda de pirâmides de lenha, como fogueiras pré-prontas, como aqui se vende pinheirinhos naturais. As duas situações deveriam ser abandonadas.

Não há condições para diletantismos, por mais que isso me agrada, às vezes. Há uma manchete crucial, que diz como o Poeta; Cessa tudo que a musa antiga canta, pois assunto mais alto se alevanta.

Vejam-se estas duas cruentas manchetes: “Com a crise, fome atingirá 1 bilhão de pessoas, diz ONU” e  “Contingente de subnutridos no mundo deve crescer em 100 milhões neste ano” 

Estimativa é que o total de subnutridos cresça mais nos países desenvolvidos, com alta de 15%; diretor da FAO vê "crise silenciosa da fome"  O número de pessoas que passam fome no mundo deve ultrapassar, neste ano, pela primeira vez a marca de 1 bilhão -ou quase 1 em cada 6 pessoas-, resultado da crise que aumentou o desemprego e reduziu o poder de compra da população (especialmente dos mais pobres), segundo a FAO (organismo da ONU para a agricultura e a alimentação).

Isso significa que mais 100 milhões de pessoas entrarão na zona da fome neste ano, encerrando período de mais de 20 anos em que vinha caindo a proporção da população mundial subnutrida -resultado dos projetos contra a pobreza e do crescimento nos últimos anos de economias como Índia, China e Brasil. Agora, o número deve ficar em torno de 16% da população mundial, retornando ao nível do período de 1990-92 -entre 2003 e 2005, a população subnutrida era de 13%.

Para a FAO, são subnutridas pessoas que consomem menos de 1.800 calorias ao dia, mas esse número varia de país para país – no Brasil, a exigência é um pouco maior. Essa quantidade de calorias é a necessária para que a maioria dos adultos mantenha seu peso.

O aumento nos preços dos alimentos, especialmente nos últimos dois anos, também foi uma das causas. Apesar de terem recuado em relação aos níveis recorde da metade de 2008, os preços dos alimentos básicos estavam 24% mais altos no fim do ano passado do que dois anos antes. E a alta na cotação não é resultado de colheitas menores, já que a produção de alimentos esperada para este ano é levemente inferior ao recorde atingido no ano passado, de acordo com estimativa da FAO.

"A crise silenciosa da fome, que afeta um sexto de toda a humanidade, constitui um sério risco para a segurança e a paz mundial", disse o diretor-geral da FAO, Jacques Diouf. "Hoje, o aumento da fome é um fenômeno global. Todas as regiões foram afetadas."

Segundo as projeções da FAO, o menor aumento no número de subnutridos, 10,5% mais que em 2008, ocorrerá na região da Ásia e do Pacífico (países como Tailândia, Vietnã e Papua Nova Guiné), que é o local que já abriga o maior número de subnutridos, pouco mais de 600 milhões -sinalizando que a pobreza tem menos espaço para avançar e também consequência do crescimento de economias como China, Índia e Indonésia, que estão entre as que melhor absorvem o impacto da crise.

Em contraste, é nos países desenvolvidos, que foram o epicentro da crise, que a fome deve avançar mais: alta de 15%. O total, porém, é bastante inferior ao das demais regiões: 15 milhões de pessoas.

Na América Latina e no Caribe, o número de subnutridos deve chegar a 53 milhões, 8 milhões a mais do que no período de 2004 a 2006 (13% de alta), voltando ao nível dos anos 90.

Marcado pelo realismo acabrunhante destes dados desejo a cada uma e cada um uma muito boa terça, que eu viverei muito imerso na preparação das 15 aulas de Química que darei amanhã e quinta-feira no ITerra, em Veranópolis, no Curso de Técnico em Saúde Comunitária. Mas, antes esta noite tenho as sempre esperadas aulas na Filosofia no Centro Universitário Metodista - IPAEstas serão antecedida de participação em banca de três trabalhos de conclusão do curso de Música, das 19h10min às 21h,


 

090622* Edição 1054

22JUNHO2009

SEGUNDA-FEIRA

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Ano 3

#1054

De novo em Porto Alegre. Chegamos no horário aprazado. Essa ida e volta a Belém teve a marca da pontualidade nos quatro voos de quase 8.500 quilômetros. Mesmo tendo referido, ontem, na abertura o início do inverno de 2009, não fiz formalmente meus votos a meus queridos ledores. Faço-o, agora com desejo do melhor nesta estação. É justificado meu olvido. Estando por quatro dias na Amazônia vivia sob os presságios do inicio do verão. Os comerciais dos jornais festejavam o inicio do período de praia. Na região em torno da Linha do Equador a característica do Verão (e mesmo estando legalmente no Hemisfério Sul, as referências são ao Verão) é a estação da ausência de chuvas.

Assim, ter estado nesse início de verão em Belém, me fez evocar que há um ano finalizava a blogada: “Encerro com votos de um muito bom inverno, e, para meus eventuais leitores do hemisfério Norte, desejo um muito bom verão. Não sei que votos expressar a leitores como os de Belém, que parecem não ter, pela proximidade do Equador, definidas estações como quem vive no Paralelo 30. A todos adito votos de um bom fim de semana. A referência àqueles próximos da linha do Equador devia-se ao fato de ter uma querida comunidade de amigos leitores em Belém do Pará – isso ratificado nesses dias belenitas –, logo não desfrutam daquilo que chamamos, por exemplo, de primavera ou inverno”.

Então, no dia seguinte fora encantado com a presença de uma leitora que vive próximo da linha do Equador e que faz uma sugestão para os votos aos residentes em paralelos próximos ao zero. Vejam este arencioso comentário: “Debería desearnos vientos frescos para apaciguar el sol que calienta el año todo. Mis felicitaciones, Profesor Chassot, me encanta su manera ligera y a la vez profunda de expresar sus ideas. Saludos desde el siempre cálido Guayaquil, justo en el Ecuador, Matilde Kalil”.

Dias depois, em resposta a uma pergunta: “Soy del área Psicología Social y trabajo en Investigación de Mercados desde hace más de veinte años. La alegría por leerlo es grande, por haber encontrado un espacio de aprendizaje y pensamiento crítico valioso”. Esta resposta, um dos mais significativos retornos ao meu fazer pedagógico com artefato cultural pós-moderno, parece traduzir o êxito do trabalho na proposta de fazer do blogue um espaço privilegiado para produzir alfabetização científica. Permito-me registrar, passado um ano, a continuada presença desta leitora, com usuais argutos comentários. Talvez seja ela a pessoa que confira estatuto internacional a este blogue. Desejo que em sua Guayaquil e em toda região equatorial, nesse verão/inverno soprem “vientos frescos para apaciguar el sol que calienta el año todo!”

Vale um breve comentário ainda acerca de consequências do clima amazônico. Neste sábado, quando ao final da conferência de encerramento, a voz ameaçou-me faltar depois de uma fala continuada de 100 minutos disse, como brincadeira, ao responder a uma bem posta colocação: “Pedira aos meus santos protetores, que me garantissem a voz durante a palestras. Eles o fizeram, pois desde que aqui cheguei minha garganta protesta contra o choque térmico entre as salas super-refrigeradas e calor exterior. Ocorrem que não disse eles que haveria perguntas ao final. Eles me atenderam, mas negam-me voz às perguntas!” Era uma sinalização discreta para se fazer o encerramento, pois já passava das 13h.

Mas não merece que eu vitupere o clima. Para mim pior que o clima é o uso exagerado do ar condicionado. Mas houve boas compensações para vencer as adversidades climáticas. Nos oito almoços/jantas belenenses comi peixes ou assemelhados obtidos dos rios que fazem Belém uma cidade cerca de 80% insular. Também já referi aqui os ‘desayunos’ com sopa de caranguejo e mingau de milho.

É muito impressionante esse retorno. Mesmo viajando com frequência, desta vez parecia que fazia semanas que estava ausente da Morada dos Afagos. Não quero ser evocado como a raposa que desdenhou as uvas que não alcançava. Agradeço ao burocrata que me impediu conhecer desta vez Marajó. Já tenho convites para voltar mais extensamente a Belém. Por ora o melhor foi voltar um dia antes. Isso se deve, talvez, pela distância e pela intensidade do evento. Claro que no entardecer de domingo cevar um chimarrão para sorvê-lo com o Bernardo foi um bom ‘matar saudades’: do filho querido e daquilo que Glaucus Saraiva poetou assim: Amargo doce que eu sorvo / Num beijo em lábios de prata. /Tens o perfume da mata / Molhada pelo sereno. / E a cuia, seio moreno, / Que passa de mão em mão / Traduz, no meu chimarrão, / Em sua simplicidade, / A velha hospitalidade / Da gente do meu rincão.

Com votos de uma muito boa semana junina, onde além de uma fala em Lajeado no sábado, tenho quinze aulas de Química no ITerra, em Veranópolis, na quarta e quinta feiras. Agora, a promessa de um reencontro amanhã aqui.


090621 * Edição 1053

21JUNHO2009

DOMINGO

Na inauguração do INVERNO de Belém rumo à Brasília e daí à Porto Alegre.

Ano 3

#1053

Estamos quase deixando Belém. Às 5h devemos estar no aeroporto. Fazemos apenas um rápido lanche antes de deixar o hotel. Não há nesse horário aqueles atrativos da culinária do Norte que nos encantaram em outros três dias que estivemos aqui como sopa de caranguejo, canjica com canela, torta de macaxeira etc. Seremos carinhosamente levados ao aeroporto pelo Geziel, um Mestre em Ensino de Ciências pela UFPA, de quem já fiz referência nesse blogue quando há uns anos me presenteou cópia do filme Marie Curie.

Minha fala de ontem esteve concorridíssima. Falei das 11h30min até as 13h15min com auditório lotado. De todos os mais diferentes elogios recebi dos por minha fala neste domingo no encerramento do Colóquio Educação em Ciências e Matemáticas: Perspectivas Interdisciplinares, 2009: ano Brasil-França (e foram muitos) aquele que disse mais a minha alma foi ouvir a Gelsa, embargada às lágrimas, dizer, que de todas as vezes que me ouviu falar esta havia sido a melhor. A manhã ainda teve muita tietagem com tirada de fotos e outorga de autógrafos. 

Ter substituído uma parte da palestra para acrescentar o quanto ‘a Enciclopédia francesa pode ser reconhecido como um ícone da disciplinarização no Século das luzes’ e em um outro movimento: mostrar como na França, no começo do Século 20 a figura de Marie Curie passa representar uma quebra de paradigma da Ciência masculina vigente, foi muito significativo dado o cenário da fala.

O almoço foi no Marulho em companhia de colegas da UFPA que dirigem o recém crio Instituto Educação Matemática e Cientifica. A Gelsa à tarde foi trabalhar com mestrandos e doutorandos da Professora Isabel Lucena. A reencontrei às 18h no Mangal das Garças para onde fui em companhia da Conceição e José Carneiro. No local nos encontramos com a Isabel, Arno e Leila irmã, cunhado e sobrinha da Conceição.

Nesse lindo Parque assistimos a um magnífico por do sol sob o Guamá. Vale trazer algo sobre esse lugar, recém integrado à Belém. Minha fonte para as linhas que seguem é www.mangal.com.br A beleza natural da Amazônia pousou na orla de Belém. As cores, as fragrâncias e os encantos da paisagem nortista se transformaram em asa ao olhar. O ninho onde se guardam essas impressões é um lugar chamado Mangal das Garças. Criado às margens do rio Guamá, em pleno centro histórico da capital paraense, o parque ecológico é resultado da revitalização de uma área de 40.000m2, no entorno do Arsenal da Marinha.

Plenamente integrado ao cotidiano da cidade, o Mangal reproduz num espaço naturalístico as diferentes macro-regiões da flora paraense: as matas de terra firme, as matas de várzea e os campos. Uma poética síntese do ambiente amazônico no coração urbano. Um exemplo de como se relacionar conscientemente com a natureza. Reunindo idéias de recuperação, pedagogia e lazer, o projeto teve como principal ponto de partida a preservação do Aningal, vegetação nativa predominante na área onde o complexo foi construído.

O parque harmoniza aspectos de prazer e comodidade. Os visitantes têm a chance de fazer seu olhar sobrevoar pontos especiais como o grande lago central, os caminhos sinuosos, os canteiros coloridos, as áreas de estar e os equipamentos de lazer e serviços. Os lagos artificiais do complexo receberam aves pernaltas, marrecos e quelônios criteriosamente selecionados. Recantos com caramanchões em madeira criam oásis de sombra perfeitos para o descanso. 

Hoje, é do Mangal das Garças que o encanto bate asas e se lança pelo horizonte do eco-turismo amazônico. Ave de vôo elegante, o parque leva em cada asa a modernidade, a originalidade e o conforto.

Depois de contar acerca de um lugar tão bonito que me encantou pela primeira em mais essa vinda à Belém desejo a cada uma e cada um o melhor domingo. A expectativa e estar por volta das 13 horas na Morada dos Afagos para começar uma semana plena de fazeres.


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