Blog de Attico Chassot


090620 * Edição 1052

 

20JUNHO2009

SÁBADO

Quase no ocaso do Colóquio Educação em Ciências e Matemáticas em Belém

Ano 3

#1052

Nesta manhã se encerra o Colóquio Educação em Ciências e Matemáticas: Perspectivas Interdisciplinares, que faz parte das diferentes celebrações de “2009: ano Brasil-França na Universidade Federal do Pará, Campus Universitário do Guamá. As atividades se iniciam com a Mesa-Redonda 4: “Linguagem e Comunicação em Ciências e Matemáticas” (Marisa Silveira / UFPA, Fátima Vilhena, Erasmo Borges. Mediador: Roberto Barros, todos da UFPA) e após isso a conferência de encerramento “Educação em Ciências e Matemáticas: Perspectivas Interdisciplinares” que ficou sob minha responsabilidade.

Devo dizer, ao terminar as atividades de ontem, que me convenci, pela percepção  do evento nestes dois dias, que deveria mudar 2/3 da palestra que preparara. Não foi algo fácil. Duas situações foram facilitadoras. Primeira, estar em aqui em companhia da Gelsa, com quem, na janta de ontem, discuti minha nova proposta teórica, onde ela interviu decisivamente; depois de minha reelaboração, fez significativas e oportunas podas. Ainda depois fez muito elaborada editoração da apresentação. Segunda, trazer o notebook junto è mais que trazer a escrivaninha, è trazer parte da biblioteca. Uma das inserções que fiz foi ‘A Enciclopédia Francesa como ícone da disciplinarização’ será inédita esta manhã, foi todo produzido aqui em Belém. Agora só resta torcer para receber eflúvios dentro de mais algumas horas.

Ainda relativo à minha estada em Belém um registro fotográfico. Apareço com José Carneiro jornalista e sociólogo, leitor muito assíduo deste blogue. Aqui sorvemos ‘cerpinhas’ – diminutivo carinhoso de CERPA (Cerveja do Pará).

A dica de leitura desta blogada sabatina tem uma natural contextualização. Como escrevo quase da Linha do Equador minha recomendação é Equador um romance com bem tramadas tessituras de ficção e realidade que nos levam a mergulhar na geografia e na história de Portugal, no começo do Século 20, quando a monarquia vive o seu ocaso. O cenário principal são as ilhas de São Tomé e Príncipe, onde acompanhamos as (des)venturas de um recém nomeado Governador Geral.

Claro que esta escolha traz um leve ressaibo de frustração. Esta tarde era para estarmos partindo para ilha de Marajó. E a ligação desta ilha com aquelas que são cenários de grande parte do romance são apenas as localizações próximo a linha do Equador. Pois aquela que nos acolheria é a maior ilha hidrofluvial do mundo, enquanto São Tomé e Príncipe [um estado insular, independente desde 1975, localizado no Golfo da Guiné, composto por duas ilhas principais (São Tomé e Príncipe) e várias ilhotas, num total de 964 km², com cerca de 160 mil habitantes. Estado insular, não tem fronteiras terrestres, mas situa-se relativamente próximo das costas do Gabão, Guiné Equatorial, Camarões e Nigéria] são ilhas no Atlântico. Nosso passeio foi abortado por exigência burocrática, pois se disse que não poderia ser emitido o passagem a maior de 24 horas do término do evento. Acreditando entrave burocrático, vimos que para rebilhetar a passagem teríamos que pagar mais R$ 560,00. Nossa frustração com a não ida está compensada com a estar algumas horas de domingo em Porto Alegre, numa semana que será densa.

Mas a eis a ficha técnica do livros escolhido repartir um pouco minha desilusão: TAVARES, Souza Miguel. Equador, Rio de Janeiro: Nova Fronteira, 2004, 528 p, ISBN 85-299-1636-8. 

Provavelmente a maioria dos leitores brasileiros pouco conhece o romancista, Miguel Souza Tavares, autor de um sumarento romance lançado no Brasil já há cinco anos, mas que em Portugal, quando do lançamento brasileiro, já havia vendido mais 140 mil exemplares. Equador é o romance de estréia do muito premiado jornalista português, conhecido por seus programas de televisão, colunas diárias em jornais e, já 1983, ganhador do primeiro prêmio no festival de Cinema e Televisão do Rio de Janeiro com filme sobre a ilha do Corvo nos Açores e a caça à baleia.

Equador, que já tem traduções nas línguas holandesas, grega, italiana, alemã, francesa e espanhola, é um texto escrito cuidadosamente e que temos o privilégio de ler no original, sentindo nos diálogos o sotaque de uma de nossas matrizes culturais. Pode-se classificar esta obra na categoria dos romances históricos, até porque as maiores interrogações que nos passam é o quanto estamos lendo ficção ou a história de Portugal do começo do século 20 e do ocaso de sua monarquia. Nossa viajada se dá em três continentes. Primeiro passeamos no Alentejo para conhecer uma das residências de verão de Carlos I, o quase-último rei português (pois seu filho que o sucede como D. Manuel II, governa poucos meses), depois vamos com Luís Bernardo Valença, o personagem principal para São Tomé e Príncipe, que vai assumir o cargo de Governador Geral da então colônia portuguesas, produtoras de café e cacau sobre a qual pesa, não sem razão, a acusação de existência de trabalho escravo. Por isso entra em cena um cônsul inglês, cujas venturas e desventuras conhecemos antes no vice-reino inglês na Índia. 

Ao lado de tessituras que fazem incursões na história e geografia há os amores e as paixões do Governador geral, por quem torcemos o livro inteiro e que no final o desfecho quase imprevisível, evidentemente, um resenha não deve apresentar. Cabe-me apenas entusiasmar aos freqüentadores deste blogue a se abeberarem de um texto muito agradável.

Com votos de um muito bom sábado a expectativa de nos lermos amanhã. Pretendo fazer uma postagem deste blogue, antes de partirmos às 6h da manhã rumo a Brasília e depois a Porto Alegre.


 



Escrito por Chassot às 07h28
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090619 * Edição 1051

 

19JUNHO2009

SEXTA-FEIRA

De Belém no Colóquio Educação em Ciências e Matemáticas: Perspectivas Interdisciplinares

Ano 3

#1051


A quinta-feira foi belenita como aceitam alguns, ou belenenses, como exigem outros. O desjejum foi sobre palafitas no Restaurante Marulho – agregado ao hotel Beira Rio –, quando podemos saborear pratos da cozinha do Norte, onde até sopa de caranguejo consta no cardápio matinal. Cedo fomos ao campus da UFPA para a abertura do Colóquio Educação em Ciências e Matemáticas: Perspectivas Interdisciplinares, dentro das comemorações “2009: ano Brasil-França na Universidade Federal do Pará, Campus Universitário do Guamá, Auditório do NPADC. Houve a constituição de mesa inaugural com autoridades da UFPA e consulares e culturais francesas do Pará. Após varias falas houve a apresentação de um grupo de alunas e alunos do Instituto Federal de Ensino do Pará que cantou e dançou números de carimbo. O carimbó é considerado um gênero musical de origem negra, porém, como diversas outras manifestações culturais brasileiras, miscigenou-se e recebeu outras influências. Seu nome, em tupi, refere-se ao tambor com o qual se marca o ritmo, o curimbó. Surgida em torno de Belém na zona do Salgado (Marapanim, Curuça, Algodoal) e na Ilha de Marajó, passou de uma dança tradicional para um ritmo moderno, influenciando a lambada e o zouk. No youtube há vários filmetes com a dança.

Ainda pela manhã houve a palestra de abertura: “A Objetividade nas Matemáticas” pelo Prof. Dr. Marco Panza (Universidade de Paris 7), que empolgou o auditório pela qualidade didática e densidade teórica. 

Após almoçarmos no hotel houve as duas mesas-redondas que descrevi ontem aqui. Os argumentos trazidos por mim acerca de ‘etnociência’ foram muito bem aceitos pelo auditório. A eles se incorporaram as discussões do Prof. Dr. Licurgo Brito Pró Reitor de Pesquisa e Pós-graduação UFPA, e do sociólogo Prof. Flávio Silveira da UFPA. A Profa. Dra. Maria da Conceição Almeida da UFRN não pode comparecer.

Na segunda mesa-redonda sobre ‘Etnomatemática’, que já detalhei aqui ontem, a Gelsa foi a estrela marcada pelo rigor teórico, especialmente quando sustentou, durantes os debates extensa discussão filosófica com o Dr. Panza.

Outras atividades previstas para a quinta-feira foram transferidas para hoje. Ontem o Núcleo de Formação de Professores de Ciências foi transformado em Instituto pelo Conselho Universitário, o que ensejou efusivas celebrações. 

Hoje as atividades do evento se iniciam às 9h com a vídeoconferência “Semiósis, Pensée Humaine et Activité Mathématique” proferida por Raymond Duval, Professor Emérito da Universidade de Dunquerque. À tarde haverá uma mesa-redonda: “História e Filosofia na Educação Científica e Matemática” e uma palestra: “Contribuições dos Matemáticos Franceses para o Desenvolvimento da Física”.

Ontem à noite, fomos conhecer a nova residência da Conceição, próxima à Basílica de Nazaré. Depois a Gelsa e eu recebemos aqui no Beira-Rio o casal Conceição Cabral e José Carneiro para jantar no trapiche do restaurante Marulho, onde saboreamos ao lado de pratos típicos, agradável conversa.

Ontem também ficou definido, por razões técnicas de possibilidades de emissão de passagens, que retornaremos na manhã de domingo à Porto Alegre. Cancelamos assim, não sem lamentar, nossa sonhada visita à ilha de Marajó.

Assim, quando ainda é madrugada aqui – quase na Linha do Equador de clima mormacento, desejo aos ledores deste blogue uma muito boa sexta-feira e um gostoso fim de semana. 


 



Escrito por Chassot às 04h32
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090618 * Edição # 1050

 

18JUNHO2009

QUINTA-FEIRA

No DIA DO QUÍMICO uma vez esse blogue é postado de Belém

Ano 3

#1050

Mais uma vez esta blogada ocorre em Belém. Não consegui relacionar quantas vezes já estive nesta acolhedora cidade. Certamente quase uma dezena. Desde que esse blogue existe (julho de 2006) está é a terceira vez. Chegamos aqui quase 13h. Em duas etapas de viagem que foram marcadas pela pontualidade. Fizemos a viagem em duas partes praticamente iguais. Porto Alegre/Brasília 2115 Km e Brasília/Belém 2132 Km.
 Primeiro um ‘Errei na edição de ontem’: Belém tem o mesmo horário de Brasília. O Pará é o único estado brasileiro que tem dois fusos horários. Belém está na parte leste que tem o mesmo horário de Brasília. Assim não há a diferença que referi ontem. Aliás, o ‘impoluto’ Senado brasileiro aprovou ontem a extinção dos quatro fusos horários atuais, passando todo o Brasil ter um mesmo fuso horário.
No aeroporto de Val-de-cães, éramos atenciosamente aguardados por dois mestrandos d Programa de Pós-Graduação em Ciências e Matemática da UFPA: Rômulo de Piauí e Alan do Amapá. O nome do aeroporto (e também da Base Naval de Belém) VAL-DE-CÃES origina-se da antiga fazenda de propriedade dos religiosos da Ordem das Mercês, por isso conhecida como "Fazenda dos Mercenários", localizada à margem direita da Baía de Guajará, distando cerca de 5km a jusante da cidade de Belém, onde seus proprietários mantinham alguns canis, que motivou a sátira popular de ser um vale de cães, grafado, à época, VALE DE CANS, evoluindo em seguida para a forma atualmente usada VAL-DE-CÃES. de ser um vale de cães, grafado, à época, VALE DE CANS, evoluindo em seguida para a forma atualmente usada VAL-DE-CÃES.
Nossos atenciosos anfitriões nos trouxeram ao Hotel Beira Rio, onde já me hospedara em vezes anteriores. A vinda ao hotel ensejou a passagem pelo Campus da UFPA, localizado em uma extensa área, parte da floresta amazônica, às margens do imponente rio Guamá.
Como os ‘lanchinhos’ de bordo já estavam distantes, logo que instalados no hotel, fomos ao restaurante, localizado em palafitas sobre o rio Guamá, onde saboreamos algo muito típico da região: uma caldeirada: um sopão ou um cozido com peixes, camarões, ovos, tomates, pimentões e vários ingredientes como tucupi [um molho de cor amarela extraído da raiz da mandioca brava, que é descascada, ralada e espremida (tradicionalmente usando-se um tipiti). Depois de extraído, o molho "descansa" para que o amido (goma) se separe do líqüido (tucupi). Inicialmente venenoso devido à presença do ácido cianídrico, o líqüido é cozido (processo que elimina o veneno), por horas, podendo, então, ser usado como molho na culinária] e jambu [também conhecida como agrião-do-pará (Acmella oleracea) é uma erva típica da região norte do Brasil, mais precisamente do Pará. Sendo originária da América do Sul, é comum também em todo o sudoeste asiático e em particular nas ilhas Madagáscar e Mascarenhas].
Ao entardecer vieram ao Beira Rio, nossos queridos amigos Conceição e José Carneiro. Foi um gostoso reencontro. Enquanto Conceição foi dar alas na UFPA, Gelsa e eu, saboreamos a palavra sábia do sociólogo e memorialista Carneiro (que revelou o quanto acompanha esse blogue, comentando inclusive sobre leitores que deixam comentários aqui) junto com cerveja e tira-gostos da região. Foi uma noite que se fará memorável. Mais tarde a Conceição retornou e o casal atenciosamente nos trouxe ao hotel
Esta manhã iniciaremos a participação no Colóquio Educação em Ciências e Matemáticas: Perspectivas Interdisciplinares, dentro das comemoração 2009: ano Brasil-França na Universidade Federal do Pará, Campus Universitário do Guamá, Auditório do NPADC. A Palestra de Abertura, às 10h será “A Objetividade nas Matemáticas” a ser proferida pelo Prof. Dr. Marco Panza (Universidade de Paris 7;
À tarde a programação prevê duas mesas redondas, nas quais uma e outro participamos.
Mesa-Redonda 1 (14h): “Etnociências” (Attico Chassot / Centro Universitário Metodista - IPA, Licurgo Brito / UFPA, Maria da Conceição Almeida / UFRN. Mediador: Flávio Silveira / UFPA).
Mesa-Redonda 2 (16h): “Etnomatemática” (Gelsa Knijnik / UNISINOS, Isabel Lucena / UFPA e Ana Luiza Rocha / UFRGS. Mediadora: Jane Beltrão / UFPA).
No meu segmento pretendo mostrar as etnociências tidas como campos de conhecimento associados às disciplinas academicamente consolidadas, e que utilizam o prefixo "etno" para anunciar que o elemento humano está obrigatoriamente representado e inserido nestes estudos. 
Não é sem razão que esses trabalhos são na maior parte ligados a áreas que poderiam estar rotulados como etnobotânica’, ‘etnozoologia’, ‘etnoentomologia’, ‘etnoornitologia’, ‘etnogenética’ etc aparentando quase um ‘neo-colonialismo científico’, que busca descrever e analisar o conhecimento local, realizando eventualmente comparações e articulações com o conhecimento praticado e aceito.
Reconheço – mesmo com minha crítica a um possível neo-colonialismo científico – a importância e significado acadêmico destes trabalhos, mas aventuro-me apresentar outro, que quando de meu envolvimento mais intenso com o mesmo, nunca o pensei como classificável de etnociência e muito menos de etnogenética. 
Hoje, quando venho a este fórum, penso que ele tem dimensões de etnociência e nesta dimensão ouso trazê-lo aqui para ouvi-los. 
Discutirei então a dissertação de Antônio Valmor de Campos, graduado em Biologia e em Direito. Mestre em Educação pela URI FW/UNISINOS, com a defesa da dissertação em 14AGO2006 “O reconhecimento de agricultores do município de Anchieta-SC, que cultivam sementes de milho crioulo, como pesquisadores e detentores de direito da propriedade intelectual sobre a melhoria dessas sementes” 
 Devo dizer que para mim esta tarde não será trivial. Falarei acerca de assuntos que não dominho para um auditório de expertos no assunto. Mas é bom viver desafios.
A programação do colóquio no dia de hoje se encerra com Coquetel e lançamento da tradução do livro “Semiósis et Pensée Humaine” (Autor: Raymond Duval; Tradutores: Marisa Abreu e Lênio Levy), às 18h.
Amanhã conto algo acerca de como foi esse dia de abertura do Colóquio. Votos de uma excelente quinta-feira a cada uma e cada um.


 



Escrito por Chassot às 06h58
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090617 * Edição # 1049

 

17JUNHO2009

QUARTA-FEIRA

Em um dia que tem uma longa viajada, quando a gripe suína é mais uma vez assunto.

Ano 3

#1049

Esta blogada é postada à partida para Belém, aonde Gelsa e eu vamos para participar do Colóquio “Educação em Ciências e Matemáticas: Perspectivas Interdisciplinares” dentro da celebração de 2009: Ano Brasil-França. Por tal ela é editada no começo da quarta-feira. Há previsão que deixemos Porto Alegre, às 07 horas, com chegada à Brasília às 09h20min. Então, quase imediata partida à Belém, para que cheguemos às proximidades da Linha do Equador às 12h45min (13h45min BSB). Claro que não como não recordar viagem em vôo idêntico em dezembro de 2006, que cheguei a Belém, depois da meia-noite, depois de quase 12 horas sentado no chão do aeroporto de Brasília.

Escrevo ainda encharcado pelas aulas na Filosofia, quando, às 23h ainda estávamos em sala de aula. A ‘hora da rodinha’ foi marcada por dois assuntos. Primeiro, um desafio de Lógica, ainda marcado pela aula do Iasser, na outra terça-feira: Qual o número seguinte na sequência: 1//2//6//42//1806//? ? ? ?. O segundo, acerca da avaliação; então foi trazida a situação de uma Escola de Porto Alegre – tida como significativa – onde alunas e alunos participam, desde as séries iniciais, dos conselhos de classe. Na ‘secção pesquisa’, um grupo trouxe respostas à ‘História do ensino de Filosofia na Educação Básica no Brasil’. A micro-aula de hoje foi dada pela Janice da Silva Pacheco – a webmaster da turma – acerca do sentido da vida. Com duas músicas (uma do Chico Buarque e outra do Gozaguinha) mais as contribuições de Heidegger, ficamos com tema para casa. 

 Hoje, ajuda-me na elaboração o único Nobel de Literatura da língua portuguesa. José Saramago escreveu em seu Caderno – caderno.josesaramago.org – um texto sobre a gripe suína que vale reproduzir. Em sinal de uma exigência do autor o texto é publicado em Português de Portugal. Vale lê-lo. Antes de  apresentar o texto vale ver uma foto ‘chistosa’ onde mosta aquele que , talveztenha desencadeado a Gripe Suina.

Não sei nada do assunto e a experiência directa de haver convivido com porcos na infância e na adolescência não me serve de nada. Aquilo era mais uma família híbrida de humanos e animais que outra coisa. Mas leio com atenção os jornais, ouço e vejo as reportagens da rádio e da televisão, e, graças a alguma leitura providencial que me tem ajudado a compreender melhor os bastidores das causas primeiras da anunciada pandemia, talvez possa trazer aqui algum dado que esclareça por sua vez o leitor. Há muito tempo que os especialistas em virologia estão convencidos de que o sistema de agricultura intensiva da China meridional foi o principal vector da mutação gripal: tanto da “deriva” estacional como do episódico “intercâmbio” genómico. Há já seis anos que a revista Science publicava um artigo importante em que mostrava que, depois de anos de estabilidade, o vírus da gripe suína da América do Norte havia dado um salto evolutivo vertiginoso. A industrialização, por grandes empresas, da produção pecuária rompeu o que até então tinha sido o monopólio natural da China na evolução da gripe. Nas últimas décadas, o sector pecuário transformou-se em algo que se parece mais à indústria petroquímica que à bucólica quinta familiar que os livros de texto na escola se comprazem em descrever…

Em 1966, por exemplo, havia nos Estados Unidos 53 milhões de suínos distribuídos por um milhão de granjas. Actualmente, 65 milhões de porcos concentram-se em 65.000 instalações. Isso significou passar das antigas pocilgas aos ciclópicos infernos fecais de hoje, nos quais, entre o esterco e sob um calor sufocante, prontos para intercambiar agente patogénicos à velocidade do raio, se amontoam dezenas de milhões de animais com mais do que debilitados sistemas imunitários.

Não será, certamente, a única causa, mas não poderá ser ignorada.

No ano passado, uma comissão convocada pelo Pew Research Center publicou um relatório sobre a “produção animal em granjas industriais, onde se chamava a atenção para o grave perigo de que a contínua circulação de vírus, característica das enormes varas ou rebanhos, aumentasse as possibilidades de aparecimento de novos vírus por processos de mutação ou de recombinação que poderiam gerar vírus mais eficientes na transmissão entre humanos”. A comissão alertou também para o facto de que o uso promíscuo de antibióticos nas fábricas porcinas – mais barato que em ambientes humanos – estava proporcionando o auge de infecções estafilocócicas resistentes, ao mesmo tempo que as descargas residuais geravam manifestações deescherichia coli e de pfiesteria (o protozoário que matou milhares de peixes nos estuários da Carolina do Norte e contagiou dezenas de pescadores).

Qualquer melhoria na ecologia deste novo agente patogénico teria que enfrentar-se ao monstruoso poder dos grandes conglomerados empresariais avícolas e ganadeiros, como Smithfield Farms (suíno e vacum) e Tyson (frangos). A comissão falou de uma obstrução sistemática das suas investigações por parte das grandes empresas, incluídas umas nada recatadas ameaças de suprimir o financiamento dos investigadores que cooperaram com a comissão. Trata-se de uma indústria muito globalizada e com influências políticas. Assim como o gigante avícola Charoen Pokphand, radicado em Bangkok, foi capaz de desbaratar as investigações sobre o seu papel na propagação da gripe aviária no Sudeste asiático, o mais provável é que a epidemiologia forense do surto da gripe suína esbarre contra a pétrea muralha da indústria do porco. Isso não quer dizer que não venha a encontrar-se nunca um dedo acusador: já corre na imprensa mexicana o rumor de um epicentro da gripe situado numa gigantesca filial de Smithfield no estado de Veracruz. Mas o mais importante é o bosque, não as árvores: a fracassada estratégia antipandémica da Organização Mundial de Saúde, o progressivo deterioramento da saúde pública mundial, a mordaça aplicada pelas grandes transnacionais farmacêuticas a medicamentos vitais e a catástrofe planetária que é uma produção pecuária industralizada e ecologicamente sem discernimento.

Como se observa, os contágios são muito mais complicados que entrar um vírus presumivelmente mortal nos pulmões de um cidadão apanhado na teia dos interesses materiais e da falta de escrúpulos das grandes empresas. Tudo está contagiando tudo. A primeira morte, há longo tempo, foi a da honradez. Mas poderá, realmente, pedir-se honradez a uma transnacional? Quem nos acode?

Depois destes sábios e ponderados alertas ofereço a expectativa de lermos amanhã desde Belém do Pará. Até então.




Escrito por Chassot às 00h48
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090616 * Edição 1048

 

16JUNHO2009

TERÇA-FEIRA

Depois de noite em viagem  há registro de mais uma partida e anúncio de notícia editorial

Ano 3

#1048

Esta postagem é realizada ainda um tanto tresnoitado por retorno durante a madrugada de Erechim. Cheguei à rodoviária de Porto Alegre às 6h.  Na ida, troquei a extensa viagem de ônibus por duas curtas viagens aéreas: primeiro 50 minutos até Passo Fundo e depois mais 18 minutos até Erechim, aonde cheguei quando começava anoitecer. Às 18h30min gravei uma entrevista que será veiculada na região por emissora de televisão e jornal. Às 19h30min, depois da abertura oficial da VI Semana de Química da URI fiz a palestra ‘Das disciplinas à indisciplina: caminho ao inverso para alfabetização científica’. Falei para um atento auditório de mais de 200 pessoas, docentes e discentes dos cursos de Química, Matemática, Física, História Educação Física e Administração. Acerca da repercussão da minha fala, sintetizo-a na mensagem com qual me mimou minha querida  ex-orientada Luciana, e por tal muito suspeita: “Querido Chassot, obrigada por tudo. Não sei como ainda consegue me surpreender em suas falas. A apresentação estava simplesmente excelente! Um beijo, Luciana

Foi muito agradável estar na URI-Erechim, menos de três semanas depois de ter falado no Simpósio de Darwin.  Estive após a palestra no coquetel de abertura do evento. Fui então presenteado com uma charge de minha fala pelo Sergio Winter, aluno do Curso de  Química; lamento que por problemas técnicos não possa reproduzir aqui. Ainda jantei com as muito queridas companhias de minhas colegas Natália e Luciana e do colega Rogério. 

Agora um parágrafo marcado por saudade: Hardy Vedana (1928 – 2009), um dos músicos e pesquisadores mais ativos do Estado,  morreu na noite do último domingo, aos 81 anos. O idealizador do Museu da Imagem e do Som de Porto Alegre (Mispa) estava internado desde a semana passada e foi vítima de complicações decorrentes de uma pneumonia. Embora debilitado nos últimos anos, Vedana seguia produzindo. Segundo a família, ele deixou 27 projetos de livros prontos, esperando publicação. Minha ligação com o Hardy ocorreu  em 1999/2001, quando ele e eu visitávamos nossas mães no Residencial Rio Branco. Encantava-me as continuadas buscas por gravações para recuperar a história da música. A cada encontro tinha novidades para contar enquanto acarinhava à Dona Nilda. É mais um papo que deixa saudade.

 Hoje se faz um dia especial com o anúncio de uma noticia que para mim é muito grata. Nesta quarta-feira conheci exemplares da 4ª edição do A Ciência é masculina? É sim, senhora! Editado a primeira vez em 2003, com uma segunda edição em 2006 e outra em 2007, agora, anos depois é muito bom apresentar a quarta edição deste livro. Faço da apresentação da nova edição, que transcrevo a seguir, a blogada de hoje.

Desde que ele foi lançado busca contribuir um pouco para ajudar diminuir discriminações entre mulheres e homens, chamando a atenção para um tema que continua atual. Há também a tentativa de buscar explicar as marcas milenares que houve / há / haverá nas relações humanas contribuindo na facilitação do advento de tempos onde as desigualdades sejam motivo de um maior entendimento e de gostosa fruição. 

Tendo elegido – mesmo aceitando críticas a manipulações deste indicador – a outorga de Prêmios Nobel de Ciências para olhar o predomínio masculino na produção do conhecimento, na última edição, quando aditado os premiados de 2006 vimos que as premiações foram exclusivamente masculinas. Passados dois outubros de premiações vale ver como se comportaram os números. Em 2007 a outorga foi para dez homens e uma mulher (2 homens para o Nobel de Física; 1 para o de Química; 3 para Medicina ou Fisiologia; uma mulher – Doris Lessing – para Literatura; e para Paz: 1 homem mais o Painel Intergovernamental para as Mudanças Climáticas; e 3 para Economia). Em 2008 a premiação foi para onze homens e uma mulher (3 homens para o de Física; 3 para o de Química; 2 homens e uma mulher – Françoise Barré-Sinoussi – para Medicina ou Fisiologia; 1 para Literatura; 1 para Paz; e 1 para Economia). Assim esses números referentes a 2007 e 2008, com 21 homens e duas mulheres premiados ratificam a tese que é central nesse livro: não apenas a Ciência é masculina, mas a maioria das produções humanas (ainda) é predominantemente masculina. 

A tese sofre ratificação quando considerarmos os três prêmios na área das Ciências (Física, Química e Medicina ou Fisiologia): temos 13 mulheres entre os 529 laureados, desde 1901. Ainda poderia ser recordado que entre as 13 mulheres premiadas – 2 em Física; 3 em Química e 8 em Medicina ou Fisiologia – apenas três não dividiram o prêmio com homens: 2 em Química: 1911, Marie Curie e 1964, Dorothy Crowfoot Hodgkin; e uma em Medicina ou Fisiologia: 1983, Barbara McClintock. Dos 105 premiados em literatura de 1901, 11 são mulheres. Com o Nobel da Paz, desde 1901, foram laureados 20 organizações e 96 pessoas, das quais 12 mulheres. O Nobel de Economia, distribuído desde 1965, já foi concedido a 62 homens. Talvez, nessa última referência, haja uma justificativa para o esboroamento do capitalismo: a falta de mulheres na oferta de sua sagacidade ao administrar economias domésticas operando milagres com recursos limitados.

Há quatro anos Françoise Barré-Sinoussi é estrela solitária na galeria de mulheres laureadas com um prêmio Nobel de Ciências. Em 2008 ela recebeu ¼ do prêmio de Medicina, dividido com a alemão Harald zur Hausen, que trabalha no centro de pesquisas de câncer em Heidelberg, que recebeu a metade o prêmio e o francês Luc Montagnier, que recebeu a outra quarta parte por suas descobertas relativas a AIDS. 

A doutora Barré-Sinoussi, uma francesa nascida em 1947, está envolvida em pesquisas relativas a vírus, mais especialmente em busca da cura da AIDS, desde o começo dos anos 1970s no Instituto Pasteur em Paris. Ela é autora ou co-autora de mais de 220 publicações originais. Ela já foi convidada para falar em mais de 250 conferências internacionais e já recebeu 10 prêmios internacionais como reconhecimento por suas pesquisas e contribuições para HIV/AIDS.

Na atualização para esta edição devo registrar que desde março de 2008 não pertenço mais ao corpo docente da Unisinos, cuja Editora continua me prestigiando. Atualmente sou professor e pesquisador no Centro Universitário Metodista - IPA. Ainda nesta dimensão pessoal adito que desde 30 de julho de 2006 edito um blogue diário, defendendo a tese de que o mesmo se constitua num artefato cultural pós-moderno para fazer alfabetização científica.

Sonhando que com esta nova edição ampliemos as interações: escrita ó leitura e que juntos contribuamos para que outro mundo seja possível, até porque a alegria e gosto pela Ciência podem / devem coexistir, Attico Chassot na expectativa do inverno de 2009.

À partição da despedida do 'filho da Nilda' e desta minha alegria editorial adito meus votos de uma maravilhosa terça-feira, onde para mim a sobremesa do dia são as aulas como curso de filosofia. Amanhã nos lemos aqui.

 



Escrito por Chassot às 09h04
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090615 * Edição # 1047

 

15JUNHO2009

SEGUNDA-FEIRA

Quando ‘estepe’ é  mote para um blogar.

Ano 3

#1047

Madrugada fria (7ºC) esta que abre a semana que culmina com o início oficial do inverno no Hemisfério Sul, no próximo domingo. Já disse aqui, em diferentes oportunidades, o quanto saber sobre as palavras é algo que me instiga. Não sem razão ‘estepe’ é palavra que se faz interrogante que aflora forte hoje. 

Coloco a palavra ‘estepe’ no Google desktop e encontro zero ocorrência. Isso significa, que nessa máquina, que tem arquivos de quase de 20 anos, nunca usei a palavra. Vou Google e encontra mais de meio milhão de resultados. Mas as dezenas que observei me conduzem, como previa, a duas acepções conhecidas. A primeira já embalou viagens, catalisadas por livros e filmes, a gélidas paragens em uma Sibéria branca, está assim dicionarizada no Aurélio: Tipo de vegetação ou de paisagem dominado por plantas pequenas, sobretudo gramíneas, que se encontra em zonas frias e secas. A estepe é característica do Norte da Europa, sendo comum também na Ásia, e aparece nos pampas sul-americanos. As plantas anuais são freqüentes nas estepes, crescendo e florescendo na época das chuvas. A xerofilia é peculiar às plantas estépicas. A visitação ao verbete me enseja ainda aprender que xerofilia é preferência por lugares secos, como a caatinga e os desertos.

A outra, sem nenhuma poesia, é muito conhecida e nos salvas em situações sempre marcadas como indesejadas. Pneu sobressalente. Intrigo-me pela etimologia desta palavra, datada como do Século 20. O Houaiss me informa que sua é de origem duvidosa. “Talvez o que justifique a origem inglesa atribuída por alguns dicionários seja não o inglês step (que nada tem a ver com a acepção do português), mas sim a locução inglês: spare tire 'pneu sobressalente' de que estepe poderia ser uma alteração dada à composição fônica do vocábulo; para essa hipótese considerar não só a forma estepe, que se fixou, mas principalmente a variação esterpe”. Isso convenhamos me ajudou em quase nada.

Cláudio Moreno, meu ex-colega, enquanto éramos professores de cursinho nos anos 1980s, que leio com sabor no ‘Mundo das palavras’ no Caderno de Cultura’ na Zero Hora, diz acerca desta explicação que não me convencera: “ No Houaiss, o meu dicionário preferido, esbarro com um delírio: seria uma deformação da expressão spare tire ("pneu sobressalente")! Acho que esse verbete não foi revisado pelo mestre, que não ia dar uma pedrada dessas, pois ia ter de suar sangue para explicar qual foi a mágica que levou o povo brasileiro a mudar para estepe uma expressão que se pronuncia /spértaire/” 

O Moreno continua: “Onde fui encontrar melhor pista? No livro ‘O Romance das Palavras’, do meu sempre citado professor Celso Luft (edição da Ática), em que ele levanta a hipótese de uma tal "stepney wheel", acessório muito usado nos primeiros automóveis. A partir daí, coloquei em ação os mecanismos de busca nesta infinita rede de conhecimento que é a internet, e bingo! Descobri que o primeiro modelo de roda sobressalente para automóveis foi concebido por um mecânico galês, Walter Davies, que desenhou a famosa Stantes epney Spare Motor Wheel, produzida a partir de 1904 e distribuída no mundo inteiro [...]. 

E meu ex-colega conclui com graça: “Acho que só pode ser essa a explicação para o nosso estepe. E tem mais: como as palavras costumam vir atrás das coisas (res verba sequuntur, no dizer do poeta latino Horácio), e os primeiros automóveis que entraram no Brasil vieram da França, adquirimos um vocabulário automobilístico completamente afrancesado: capô, marcha à ré, embreagem, derrapar, giclê, chassi, chofer. Em vista disso, a entrada de um termo do Inglês como stepney só pode mesmo ter acontecido se a famosa roda chegou a ser bem utilizada por aqui; aposto que uma pesquisa entre os historiadores do nosso automobilismo iria confirmar essa suposição. A partir daí, fica muito fácil: explicar a perda da sílaba final de /stépney/ é moleza, já que a fala brasileira costuma podar as sílabas que ficam depois da tônica; de /step/, a única resultante possível é estepe, da mesma forma que /sport/ e /stress/ deram, respectivamente, esporte e estresse”. 

A essa altura, depois de tanto falar em estepe, haverá alguém que há de se perguntar o porquê trago o assunto aqui. Pois nesta semana, em dois momentos, serei ‘estepe’. Sei que isso não me confere prestígio. Ao contrário. Essa noite, em Erechim, substituo palestrante que não pode comparecer na abertura da VI Semana de Química da URI; há uma semana dei um sim a um pedido, meio desesperado, de minha ex-orientanda Luciana. No próximo sábado, substituo Edgar Morin, no encerramento do Colóquio “Educação em Ciências e Matemáticas: Perspectivas Interdisciplinares”. Falarei desse evento a partir de quarta-feira, quando parto para Belém.

Assim serei o ‘regra três’ ou o estepe na abertura e no encerramento da semana. A expressão ‘regra três’ deve-se criação da ‘regra três’ em 1970 pela FIFA, para ser usada pela primeira vez na Copa do México, devido a altitude dos gramados mexicanos situados a mais de 2000 metros, isso exigiu que o preparo físico do selecionado deveria ser feito com base nas elevadas altitudes. A chamada regra três permitia duas substituições. Passa-se usar ‘regra três’ para situações de substituições (emergenciais) como serei hoje e sábado.

Adaptando ao jogo da vida, Toquinho e Vinícius conceberam “Regra Três”. Alude a alguém que trai freqüentemente seu amor até que ele próprio é o substituído: “Tantas você fez que ela cansou porque você, rapaz, / abusou da regra três, onde menos vale mais.

Assim, esta tarde, viajo, mais uma vez à Erechim. Desta vez, diferente de quando há mês fui falar sobre Darwin, vou de avião, com escala em Passo Fundo. Volto na madrugada, de ônibus. Falamos-nos então, aqui amanhã. Uma semana muito boa a todos!


 



Escrito por Chassot às 05h24
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080614 * Edição # 1046

 

14JUNHO2009

DOMINGO

Numa madrugada escura, um domingo se faz enlutado: morreu o frade das letras

Ano 3

#1046

Os jornais de hoje, que lemos na noite de ontem, trazem uma notícia que nos fez tristes: ‘Estado perde o frade das letras’. Morreu ontem de manhã, em sua casa,provavelmente de infarto, o amigo de muitos anos, Frei Rovílio Costa. A missa de corpo presente será neste domingo, às 10h, na Igreja de Santo Antônio, seguido de enterro no cemitério do convento.

Licenciado em Filosofia e Pedagogia, Mestre em Educação e Livre Docente em Antropologia Cultural ela UFRGS, Frei Rovílio era um dos maiores pesquisadores e editores de livros sobre a imigração no Rio Grande do Sul. Esse trabalho nasceu de um desejo de recuperar o microcosmo de sua própria infância – como admitiu em entrevista ao caderno Cultura, de ZH, em 2005, ano em que foi um dos finalistas do Prêmio Fato Literário, da RBS. Foi o Patrono da 51ª Feira do Livro de Porto Alegre, em 2005.

Escreveu mais de 20 livros e, na direção da EST Edições, o Frei das Letras promoveu, desde 1973, a publicação de mais de 2 mil títulos, envolvendo mais de 3 mil autores, que recontam a história da imigração italiana (a sua própria origem), a da alemã (nacionalidade do único pastor luterano que morava na Veranópolis em que cresceu) e judaica (como o médico que tratava de sua família). Nos últimos anos, dedicou-se à escravidão negra.

Caçula de sete irmãos, Rovílio contou a ZH que a opção pelo sacerdócio começou a germinar enquanto o ainda menino estava prostrado por uma meningite. Hospitalizado por três anos, o garoto começou a perceber o poder tranquilizador que exercia sobre os doentes a chegada de um padre.

Em 1969, tornou-se padre. Nessa mesma década, passou a pesquisar sobre a história da imigração. Professor em Vila Ipê (na época distrito de Vacaria), Rovílio frequentava uma bodega na qual era comum encontrar velhos moradores da comunidade, jogando quatrilho e tomando cachaça ou vinho de garrafão. Os ‘nonni’ contavam causos, falavam alto em dialeto, relembravam a história viva da colônia. Preocupado em preservar toda aquela memória, Rovílio começou a tomar notas obsessivamente e a organizar as narrativas que lhe eram contadas.

Escreveu uma série de histórias para o jornal Correio Rio-Grandense, de Caxias do Sul, material nunca publicado. Anos mais tarde, com base em suas notas, Frei Rovílio lançaria um dos livros clássicos sobre a colonização: Imigração Italiana: Vida, Costumes e Tradições. ‘Documentos, registros, nomes e datas são o esqueleto da história. O que precisamos é preencher o máximo possível esse esqueleto com a carne do relato cotidiano’ comentava o frade.

O escritor Luiz Antonio de Assis Brasil afirma, na Zero Hora de hoje, que Rovílio foi um dos mais fecundos editores brasileiros, "ao publicar milhares de títulos em sua editora. E fez algo que considero uma façanha admirável: publicou toda a suma teológica de São Tomás de Aquino, algo que impressiona pelo volume e pelo cuidado com que foi editado. Pelo lado pessoal, era ainda um grande amigo. Sempre que nos encontrávamos, era como se reiniciássemos uma conversa, mesmo se fizesse meses que não nos falássemos. É uma grande perda, de um intelectual, grande e talentosíssimo editor".

O Professor de Filosofia e ex-capuchinho Luis Alberto De Boni ressalta que "ele, acima de tudo, foi um padre dedicado totalmente às pessoas. Não dá para imaginar quantos doentes ele atendia o dia inteiro. Era um trabalho de doação à vida religiosa. Ele tinha um lado humano muito forte. Era um homem que ajudava a todos e não guardava mágoas. Uma pessoa única entre os capuchinhos e no nosso meio cultural."

Estive mais próximo de frei Rovílio nos anos 1980/90,especialmente no período em que fui doutorando do Programa de Pós-Graduação em Educação da UFRGS. Então, o Professor Rovílio, que era o Editor da Revista Educação & Realidade, da Faculdade de Educação, tinha uma excelente livraria especializada em livros usados, no 7º andar. Lá se conseguia preciosidades. Por exemplo, foi dele que comprei algo que guardo na minha coleção de livros raros e preciosos: uma edição portuguesa em oito opúsculos do Livro Vermelho de Mao (posteriormente adquiri a obra em um artístico volume, na China). Recordo que quando se precisava um livro difícil de encontrar era ao Rovílio que recorríamos. Lembro também de sua generosidade. Em uma oportunidade desejava “O pote de geléia” de Carlos Bento Hofmeister Filho, da Editora da Escola Superior de Teologia São Lourenço de Brindes, que Frei Rovílio mantinha no Convento dos Capuchinhos. Prometeu-me trazer no dia seguinte. Quando, então, me entregou livro, que nesta madrugada manuseio, pensando no frade que hoje despedimos fisicamente, ao lhe perguntar o preço, disse: ‘quando matar um porco, manda o rabo!’. Assim ele partiu antes de eu saldar a dívida. Espero que com esta blogada me exima da mesma.

Desejo que o domingo seja maravilhoso para cada uma e cada um e preanuncie uma semana prenhe de realizações. Quando esta terminar estaremos em 21 de junho, inicio formal desse inverno que já se adiantou.


 



Escrito por Chassot às 05h52
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