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08NOVEMBRO2008
Sábado |
Porto Alegre
Blogue fundado em 30JUL2006 |
Ano 3
# 828 |
Alguém já disse que sábados são dias de arrumar gavetas. Dificilmente faço isso, especialmente quando num sábado como esse que escolheu um cenário de primavera para se fazer. Mas acho que vez ou outra, em dias, em que como hoje, me faço cogitabundo [preciso fazer uma nota lateral; o limite de uso deste adjetivo parece ser exclusivamente no masculino] acredito que arrumo as gavetas da alma. Essa é uma tarefa muito complexa. Tudo, então, é pretexto para abandonar propostas. Assim, como quando arrumamos as gavetas concretas, encontrar um envelope, com uma carta que o tempo amarelou e que os anjos deixaram escondidos em algum desvão insólito, é motivo para viajadas a paisagens que há muito nos estão vedadas, nas arrumações dos escaninhos da alma um recado que nos chega, faz subitamente volver a passados que parecem próximos/distantes.
Eis uma mensagem que se faz arrivista e me leva a viajar: Bom Dia caro Professor! Olha pelo nome e pela descrição biográfica tenho quase certeza que fostes meu professor de Química Orgânica em 1963, no Colégio Pedro Schneider, em São Leopoldo RS. Excelente professor há que ser dito. Jovem, mas com grande didática. Lembro sempre, e já fazem mais de quarenta anos, certa vez ao mencionar: "acho que era ácido pirocatequínico" quando dissestes "não é um bom nome para se colocar num filho"...sempre lembro disto caro professor. Como é bela a vida! A internet nos proporciona encontros que jamais pensaríamos há quarenta anos atrás. Um grande abraço deste aluno que jamais o esquecerá. Disponha de mim aqui em São Leopoldo. Cláudio José Seibel. De repente, o Cláudio, não tem muita certeza se o ‘Attico Chassot’ cujo sítio a internet lhe ensejou visitar, foi seu professor de Química Orgânica. Todavia. lembra uma brincadeira do presumível professor, sugerindo que ‘pirocatequínico’ pudesse ser uma boa sugestão de nome de filhos, assunto que certamente jamais preocuparia alunas e alunos de então que deviam ter quase a mesma idade que o professor que então estava no terceiro ano de magistério. Certamente – o hoje Dr. Cláudio José Seibel, que a internet, a grande irmã que temos nessa aurora trimilenar, me disse ser o atual Secretário Geral da Ordem dos Advogados do Brasil, de São Leopoldo – não pôs em prática tão tola (mas ainda lembrada) sugestão.
Pois, meu caro Cláudio, sou o dito professor. Recordo muito o Pedrinho, onde fui professor em 1963/65. Há um pouco mais de dois anos (setembro de 2006), ainda professor da Unisinos, voltei à nossa Escola que tu evocas. Lá na mais funcionava o PS, mas era uma escola de ensino fundamental. Mas ali seria o cenário de curso para o qual fora convidado dentro de um convênio 2ª CRE/UNISINOS/UNESCO. Fui, então tomado de dois sentimentos. Um de revolta. Não recordo que já tenha me sido oferecido tão precárias condições de trabalho. Quando me avisaram que não teria data-show, para uma palestra que fora convidado, gastei em lâminas para retro projetor o que é algo tão arcaico quanto usar um ábaco para fazer cálculo. Lá chegado havia um retroprojetor para ser dividido com mais duas colegas em outras salas. Faltava tudo e as alunas e os alunos, isso é 25 professoras e professores da área de Ciências, também se sentiam humilhados. Por outro lado, foram fortes as emoções em dar nesta noite aula em uma mesma sala que há 42 anos dera aula de Química, talvez a mesma sala em que tu foste meu aluno em 1963. Sabes quais as únicas modificações que havia na escola? Ventiladores de teto, algo que no nosso tempo não era moda e um forte aparato de segurança, com cercas eletrificadas e dificuldades de acesso, por aquela porta sempre aberta em outros temos. Lembrei muito que, em 1964, quando do golpe militar eu era também presidente do Grêmio de Professores do Colégio Pedro Schneider. Foram períodos tétricos. Havia muitos alunos militares e estes se sentiam acuados pelo medo. Desde então nunca mais havia voltado àquela Escola. Na evocação de minhas memórias de meu inicio como professor, estimado Cláudio, talvez possas trazer algo mais. Está feito o convite. Se algum outro leitor quiser ajudar, é bem vindo. Não preciso dizer-te mais. Talvez, acrescentar ainda, que aquela sala de aula parou no tempo. Afortunadamente, eu não.
Na quente tarde de hoje, não pude deixar de ser presença a uma excelente promoção que um grupo de alunas e alunos da minha turma de terças-feiras da licenciatura em Música do Centro Universitário Metodista IPA organizou: uma oficina para subsidiar a pesquisa que esta ocorrendo na disciplina de Didática. A atividade ocorreu no Auditório Araújo Viana, no espaço da Associação da Banda Municipal de Porto Alegre (onde vários de meus alunos são profissionais da Banda). Houve duas exposições sonorizadas com músicas. A primeira pelo Prof. Mestre em História Arilson dos Santos Gomes que abordou o tema “Africanização/(des)africanização: a presença da música”. No segundo momento houve a exposição da Doutora em História Lúcia Regina Brito Pereira falando sobre a invisibilização do negro em Porto Alegre. Para mim foi emocionante restar com mais duas dezenas de estudantes aprofundando teoricamente a pesquisa de saberes primevos de afro descendentes que estamos realizando. Fiquei comovido também comovido ao receber uma homenagem de componentes da Banda Municipal de Porto Alegre, com a oferta de um CD com suas músicas.
O plano de ir a Feira do Livro no final da tarde teve que ser abortado. O dia muito lindo tornou o local inacessível. Assim, sonhando que amanhã se repita um dia bonito, votos de um feliz domingo a cada uma e cada um.
Escrito por Chassot às 20h13
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07NOVEMBRO2008
Sexta-feira |
Porto Alegre
Blogue fundado em 30JUL2006 |
Ano 3
# 827 |
Uma sexta-feira que vem prenhe de expectativas de sonhado fim de semana. O dia se fez ensolarado com temperaturas beirando aos 30ºC. Mais uma vez em Porto Alegre me encanta a muito linda florada de guapuruvus. No pátio do Centro Universitário Metodista IPA esta manha vi um muito lindo, que em sua esbeltez parecia terminar em um lindo cálice de onde espalhava pétalas que acolchoavam as calçadas com um lindo dourado. Em uma circulada pela cidade que fiz com Bernardo dezenas de outros guapuruvus nos encantaram.
Esta manhã, participei, como membro de comissão julgadora, de uma das sessões da terceira edição do Salão de Iniciação Científica e Extensão (SICE) do Centro Universitário Metodista. Ao todo, foram escolhidos mais de 280 trabalhos de estudantes de graduação que atuam em processos de pesquisa e iniciação científica na instituição e em outros estabelecimentos de Ensino Superior do Rio Grande do Sul.
Assisti a cinco trabalhos: 1)Sheila Reis, da UniRitter, Estatuto da criança e do adolescente: eficácia e aplicação no município de Canoas; 2) Sinara Marcell Wermuth dos Santos, do IPA, PAADI2 – Programa de ações para amenizar a depressão nos idosos; 3)Tatiane Melissa Scoz, da UFSC, Ritmo e Poesia: estudo antropológico sobre o RAP em Santa Maria; 4)Tiago Dias da Silva, do IPA, Buemba: metáforas nas crônicas de José Simão; e,5) Valquiria de Oliveira Martelli, da UniRitter, Domingo Solidário. A Professora Virgínia Feix, Coordenadora da Cátedra de Direitos Humanos do IPA, fez dupla comigo na avaliação. Nós conferimos destaque à apresentação do Tiago que trouxe seu trabalho de conclusão no curso de Radio Jornalismo, analisando as metáforas usadas por José Simão (Macaco Simão) em programas de rádio. Vimos méritos no trabalho, por ter sido feito um denso trabalho acadêmico a partir da obra de um dos mais lidos humoristas brasileiros. Também o trabalho da Tatiana, acerca do rap em Santa Maria recebeu o nosso apreço.
Minhas usuais críticas a esses eventos esta manhã foram ratificada. Essas semanas de iniciação científicas e muitos outros eventos se transformaram em um ‘engorda Lattes’. Os participantes apresentam seus trabalhos e desaparecem. Não têm nem a fidalguia de assistir os trabalhos de colegas. Esta manhã os trabalhos foram apresentados apenas para a banca e para os monitores. Há uma nova mania de se fazer uma verdadeira maratona de evento em evento, apenas para colher um certificado.
Ao meio dia o almoço com o trio teve uma reconfiguração maravilhosa. A Clarissa por fazeres profissionais não pode vir. Houve uma substituição encantadora: a Maria Antônia. Assim éramos o André, feliz no viver uma paternidade emergente, o Bernardo, orgulhoso de sua filha com ‘modos de mocinha’ e eu. Tive surpresa quando fazer o pagamento o proprietário do Manifesto isentou-me do pagamento do meu almoço ainda como homenagem ao meu aniversário. Depois do almoço fui com o Bernardo levar a Maria Antônia ao Colégio Anchieta. Após, consegui resolver o problema de um celular alternativo, mais de 24 horas depois que iniciara o processo, pois ontem pela manhã o bocejante funcionário da Vivo, que me atendera, registrara um dígito equivocado.
Hoje, na direção de preservação de minha garganta, declinei um convite do jornalista Rogério Cruz para participar do programa “Interferência” na POATV, no canal 6 [www.poatv.org.br] O convite era para conversar acerca do processo de escrita. Planejava discutir acerca dos blogues como artefatos culturais para disseminar a alfabetização científica e também conversar acerca da produção e da estrutura de “Sete escritos sobre Educação e Ciências”. O horário ajudou a me desentusiasmar: 00h30min às 3h. Posterguei para outra oportunidade.
Disse ontem que o dia de aniversários é dia de acarinhamentos. Essa 69ª edição do meu, foi muito especial, mesmo que na aula de ontem à noite não houvesse menção à data. Recebi muitas provas de carinhos. Deixei de receber outras tantas, pois justo o dia de meu aniversário passei sem celular. Quanto o aparelho substituto foi reativado, o funcionário da Vivo disse que eram dezenas as chamadas que estava na caixa postal. No Orkut comecei a contar, mas me perdi. Mas hoje elas superam em muito a uma centena. Aquelas mensagens que ali estão bem que poderiam se constituir em minha ‘fortuna crítica’. Entre elas não há meia dúzia de ex-alunos. A sua grande maioria são de pessoas que vez ou outra assistiram palestras comigo. Há algumas que me sensibilizaram, especialmente aquelas que auguram votos, rogando a Deus (e até o pleni-poderoso Santo Expedito foi invocado) para que eu tenha força para continuar a fazendo Educação. Não foram poucas me deram ânimo para prosseguir. Como não tenho como agradecer a estas mensagens, faço o aqui. No blogue foram postadas lindas mensagens que também recebem aqui meus agradecimentos. Por correio eletrônico recebi dezenas de mensagens. Trago o excerto de uma mensagem da coordenadora de curso de graduação deste semestre: Que sua contagiante alegria e dedicação continuem a nos inspirar e animar. É impensável esperar mais do que me diz a Professora Adriana F. Silva. Esses acarinhamentos gostosos me obrigam a contratar a construção de torres para arrumar mais espaço para livros, pois além do aumento natural por ser tempo de feira do livro, ganhei da Gelsa dois livros do J.M.G Le Clezio, o prêmio Nobel deste ano e o último livro de Carlos Ruiz Zafón, que me encantara com ‘A sombra do vento’ que resenhei no Leia Livro. O correio postal também trouxe livros surpresas que me emocionaram. É da natureza humana gostar de nos sentirmos queridos. Eu tenho porquê.
Desejo um bom shabath a cada uma e cada um. Junto meus votos de um bom fim de semana, com a promessa de nos lermos amanhã.
Escrito por Chassot às 18h54
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06NOVEMBRO2008
Quinta-feira |
Será uma questão de DNA?
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Ano 3
# 826 |
Para mim hoje não é uma data qualquer. Há uma data que cada um de nós mais cita nas rotinas do cotidiano ou ao preencher documentos. A minha data é 06NOV39. Há um tempo esta data passou a ter um significado diferente. O meu 06NOV39 passou ser DNA, ou Data de Nascimento Avançada. Isso traz privilégios; não se paga ônibus urbano, se é convidado a passar na frente nas filas, mas também se é descartado de algumas instituições em função de DNA. Não foi por outra razão que em fevereiro deste ano deixei uma instituição, para tornar-me dedicação exclusiva no Centro Universitário Metodista IPA. Não imaginava que poderia fazer uma troca tão vantajosa, em relação à instituição para quem o meu DNA não servia mais.
Não tenho muitas evocações de meus aniversários; quando criança, não lembro nenhuma comemoração destes. Também da adolescência e da idade adulta recordo raras celebrações especiais. Destas a mais imponente foi aquela em que me fiz sessentinha. A Gelsa presenteou-me com uma memorável festa reunindo meus irmãos, sobrinhos, primos e alguns amigos. Foi a última vez que minha mãe saiu da clínica geriátrica naquele 06NOV99,– já em condições muito precárias, vindo a falecer em 10SET01. Foi uma festa memorável. As flores recebidas ainda não tinham murchado e eu recebi um diagnóstico de um câncer, do qual, hoje, resta apenas uma evocação histórica.
Essa data poderia levar o título de ‘dia do acarinhamento’. Tantas foram as manifestações de afeto recebidas. A data natalícia começou em Santa Maria. Depois da palestra da noite, que teve um final difícil, pois, a tarde tórrida foi sucedida por um toró que fez jorrar água no auditório aonde a palestra recém chegava ao seu terço final. Depois da palestra além de uma entrevista com a Professora Luciana, diretora da FAMES, fui jantar com a Andréa, Suzana e Tiago que além de me homenagearem foram muito dedicados para resolver o problema da perda de meu telefone celular que ocorreu nesta viagem. Ainda não tenho solução para isso.
Deixei Santa Maria, à 01h30min e surpreendi-me, quando quase 6h, ao chegar à portaria de meu prédio, o Sr. Gilson, o porteiro da noite, me cumprimenta pelo aniversário. Era a Gelsa que deixara recado para ir ter com ela para receber suas homenagens pela data. Depois o resto do dia houve muitos telefonemas, (justifico certas ausências de alguns parabéns por ainda estar sem telefone celular). Também houve telefonemas inesperados, o que emociona muito. Só no Orkut contabilizei mais de oitenta mensagens, que agradeço muito aqui. Quando gerentes de dois bancos, com os quais não tenho mais muito relacionamento, me telefonaram cheguei a ficar um pouco intrigado.
Mas queria, ainda hoje, retomar a situação de algumas instituições nos considerarem improdutivos depois dos 65 anos. Aceito o meu DNA. Mas devo afirmar que tê-lo maior que 65 não me parece o melhor critério para alijar alguém do seu emprego. Ser uma pessoa (im)produtiva não depende do DNA. Mesmo que talvez o físico conspire contra nós, até quando nem o espelho parece reconhecer isso. A situação se mostra mais ameaçadora quando vemos fotos de agora e as comparamos com aquelas de 10 anos passados.
Ter DNA não é muito trivial em nossa sociedade. Em outras culturas isso é uma distinção. A propósito lembro de uma historieta, que me foi contada pelo meu colega Nélio Bizzo, quando me levava para o aeroporto, após participar de uma banca de um orientado dele na USP e atribuída a uma cultura africana. Em barco que soçobra está um jovem pai, com seu filho de cinco anos e seu pai, já de idade avançada. Ele tem condição de a nado salvar apenas um: ou o filho ou o pai. Trágica opção. Imaginemos, um de nós frente essa escolha. Para aquele jovem pai não havia indecisão. Era natural para ele e para toda a comunidade que ele salvasse o seu pai, pois era ele que detinha o conhecimento que poderia ser útil à vida de todos e esse não poderia ser perdido. Essa decisão tem a ver com a frase que faço capitular do capítulo “Fazendo de saberes primevos, saberes escolares” do “Sete escritos sobre Educação e Ciências” Quando morre um velho é como uma biblioteca que queima. E, então é muito impressionante o quanto os jovens se seduzem com a sabedoria dos mais velhos.
Lembro sempre de uma passagem muito conhecida de José Hernandez no Martim Fierro, o épico gauchesco onde se diz que: “O diabo tem mais de diabo por ser velho do que por ser diabo.” Chamamos isso de a voz da experiência. São sabidas nossas dificuldades em consultar um médico ou advogado mais jovem. Todavia, poucos aceitariam que uma pessoa, já mais anosa, viesse, por exemplo, viesse solucionar problemas em nosso computador.
Somos exigentes, usando parâmetros nem sempre muito consistentes. Certa vez, minha mulher e eu fomos recebidos em uma cantina, na linda região do vale dos vinhedos do Rio Grande do Sul, por uma menina de 12 anos, que nos deu verdadeiras aulas acerca de diferentes varietais, seu cultivo e como se cuida da qualidade, ao invés da quantidade de frutos. Explicou-nos das etapas do plantio e seleção das espécies que serviriam de cavalo e daquelas que seriam enxertos. Falou os tipos de enxertia e discorreu acerca das armações para sustentação, mostrando porque do uso vertical e horizontal. Sabia identificar características do solo por análise macroscópica da terra. Isso poderia ser algo heterodoxo, quando ali estavam aprendendo dois pós-doutores com uma coloninha que está na sexta série do ensino fundamental.
Mas o que é ter DNA? Não quero fazer minha defesa, na análise de minha situação pessoal. Hoje sou mais produtivo que quando tinha 50 anos e muito mais do que aos 30 anos. Certamente tenho menos força física hoje – não confundir com resistência – mas a Universidade não me contrata para carregar livros, mas talvez para produzi-los e isso, depois que completei sessenta anos, fiz e faço mais que antes, até porque nesse 69 estreado hoje, durmo bem menos e também porque tenho muito mais experiência acumulada.
Dentro de mais um pouco vou ao Centro Universitário Metodista IPA para dar mais uma sessão do seminário de História e Filosofia da Ciência no Mestrado Profissional de Reabilitação e Inclusão. Hoje vamos trabalhar o Século das Luzes e nele nos deter na Enciclopédia de Diderot & D’Alambert, na Revolução Francesa e especialmente na Revolução Lavoiserana. Será uma boa maneira de celebrar o que meu querido leitor Jairo, em seu comentário chamou de cumpleños. Amanhã nos lemos de novo aqui.
Escrito por Chassot às 17h30
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05NOVEMBRO2008
Quarta-feira |
SANTA MARIA
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Ano 3
# 825 |
Mais uma vez posto este blogue de Santa Maria. Cheguei aqui às 05h30min, depois de saborear s bordo, às 02h, a confirmação da eleição de Obama. Não morro de ilusões que os Estados Unidos vão deixar de ser belicoso, mas as duas dimensões desta eleição trazidas aqui na segunda-feira se concretizaram: uma grande torcida, em Obama, por ser negro e por ser oposição a Bush.
Esta manhã na abertura da II Mostra Acadêmica da FAMES – Faculdade Metodista de Santa Maria, que integra a Rede Metodista do Sul – dei a palestra “Resgate de saberes primevos: alternativas para pesquisa e extensão’. Agora à noite repito a mesma fala para outro público
Esta tarde tive uma agradável surpresa ao encontrar-me com professoras e professores e estudantes da UNIFRA – Centro Universitário Franciscano – para discussões acerca dos preparativos do 29º EDEQ. As surpresas foram de duas dimensões: Uma, acerca do espaço acadêmico da UNIFRA que com mais de 7 mil estudantes faz um ensino superior com a marca franciscana. Outra, enquanto o grupo da Química liderados pela Julieta, Marcio e Helmoz está adiantado na preparação do EDEQ que será em Santa Maria em 23, 24 e 25 de outubro, ressignificando a Educação na busca da sustentabilidade do Planeta.
Santa Maria tem uma tríplice ligação em minha história: uma conectada fortemente a minha infância; outra, ligada ao meu fazer profissional; e, uma terceira, estabelecida por laços familiares ancorados em minha relação com a Gelsa. Nessas horas de ônibus e mesmo na emoção das falas cada uma dessas dimensões aflorou com distintos matizes.
No usar uma figura de linguagem que foi nessa região que ‘dei meus primeiros vagidos’ marco que nasci em Estação Jacuí, que há época era um povoado ligado à Restinga Seca, que era um distrito de Cachoeira do Sul. Como filho de ferroviário o meu mundo era marcado pela passagem dos trens. Estes só tinham, no meu imaginário dois destinos: Cachoeira do Sul e Santa Maria. Depois aprendi que havia uns que iam a Porto Alegre e até já sabia que havia um que se originava em São Paulo, quando aprendi a expressão: ‘atrasado com paulista’ pois o trem de São Paulo sempre passava atrasado. A primeira cidade que conheci foi esta que me acolhe hoje, pujante com quase 250 mil habitantes. Recordo quando ante a oferta de meus pais para conhecer uma cidade entre Porto Alegre e Santa Maria optei por essa e aqui, há cerca de 62 ou 63 anos vim a uma romaria da Medianeira, evento que agora tem sua 65ª edição. Entre as recordações de então, estão ter me maravilhado com o barulho dos cascos de cavalos em ruas calçadas, pois eu vinha de um mundo onde só havia estradas de chão e a frustração de não poder pegar um copinho de sorvete usado, pois seu consumidor o atirou em cima de uma bosta de cavalo, impedindo sonhada minha coleta.
Minhas ligações acadêmicas com esta cidade, que teve a primeira Universidade Federal que não fosse em capital de estado, têm de mais de um quarto de século. Santa Maria sedia uma das maiores universidades públicas do Brasil, a Universidade Federal de Santa Maria, que conta atualmente com mais 15 mil alunos em seus cursos de graduação e pós-graduação. Na UFSM já se realizaram três edições de EDEQs, sendo que aqui aconteceu o 3º, que foi o primeiros fora de Porto Alegre. Participei aqui de um programa inter-universitário de ensino de Ciências e estive em diferentes bancas e em vários cursos. Minha relação agora se amplia com estar na FAMES e na UNIFRA – nesta já estivera há mais de 10 anos falando acerca da história das doenças em um evento da escola de enfermagem.
Minhas relações familiares em Santa Maria se estabeleceram quando em minha história com a Gelsa ganhei os muito especiais tio Salomão e Teresa Seligman e com eles os muito queridos primos Milton e Graça, Mirian e Marcos e Rosana. Com tio Salomão já vivi a dor de vir aqui enterrá-lo e, em 10 de setembro de 2006, estar na cerimônia de um inauguração do túmulo para reverenciar não só o tio querido mas o médico e humanista.
Agora, quando o entardecer, volto à FAMES para a segunda edição da palestra. Depois da palestra faço um tempo para aguardar a chegada da 01h30min para começar a partida para Porto Alegre, onde devo chegar quando começar a raiar da quinta-feira, seis de novembro. Que não posso deixar de considerar será um dia muito especial.
Escrito por Chassot às 18h54
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04NOVEMBRO2008
Terça-feira |
Porto Alegre
Blogue fundado em 30JUL2006 |
Ano 3
# 824 |
Uma terça-feira primaveril, que começou cedo com a caminhada bi-semanal com meu amigo Edni, que incluiu a contemplação de imponentes guapuruvus que enfeitam a cidade com seu amarelo que parece uma chuva de ouro nesse novembro. A agenda que reserva para a noite aulas de Didática com as licenciaturas em História e Música, precedidas do atendimento de uma tutoria de Políticas de Educação no Brasil. Ao meio-dia tive o privilégio de poder almoçar com minha filha Ana Lúcia, em um dos intervalos de seu curso de Pós-Graduação em Odontopediatria; tivemos a companhia do André curtindo a anunciada paternidade.
Mas nossas agendas, usualmente tão amarradinhas e sem brechas para nada, sempre sabem ser alteradas ante uma imprevista e dolorosa notícia que nos fazem ir a um velório no Cemitério da União Israelita para despedidas. Foi que a Gelsa e eu fizemos esta tarde. Ontem, em Brasília, o coração debilitado do Roberto Knijnik parou. Essa tarde ele é enterrado em Porto Alegre. O Roberto era primo da Gelsa (impactante de agora eu já usar tempo verbal no passado). Para a Gelsa essa morte significa a partida do primeiros de sua geração de primos. Ele foi um respeitado Engenheiro Eletricista da CEEE [quando se fez muito próximo de meu irmão Emar, que se emocionou esta manhã, quando lhe dei a notícia; (Emar, junto ao caixão do Roberto, disse-lhe do significado que ele teve na tua história)] que há alguns anos trabalhava na ANEEL – a agência nacional reguladora de energia elétrica –. Essa é mais uma dessas mortes que me impacta, especialmente por ver-se ir alguém muito mais jovem que eu.
Já cometei, quando reparti com meus leitores a carta do Frei Betto, que não me cabe aqui falar da crise das Bolsas, até porque não tenho competência. Mesmo porque os mais lúcidos economistas, em suas tentativas de explicações, não têm conseguido tirar leite de pedra. Ainda hoje no almoço não sabia trazer boas explicações a perguntas da Ana Lúcia acerca do porque economias de pequenos investidores se volatizaram.
Mas parece que essa crise terá algo positivo, pelo menos para os moradores da região metropolitana de Porto Alegre e certamente não será diferente em outras capitais. Trago notícias dos jornais deste fim de semana, que mesmo marcadas por discutíveis dados estatísticos reflexões, mesmo que essa política equivocada do governo, em financiar automóveis populares vai ser brecada pela crise. Mas leiamos um pouco a imprensa:
O modo de se movimentar pela Região Metropolitana está em transformação. Em apenas cinco anos, 122 mil pessoas deixaram de utilizar ônibus nos seus deslocamentos diários. Em contrapartida, 189,5 mil carros e motos passaram a circular no mesmo período nas ruas e avenidas do maior conglomerado urbano do Estado. No ano passado, o aumento da frota na Região Metropolitana foi surpreendente. Por dia, chegaram às ruas 160 novos carros, sendo 60 na Capital e cem nas 12 cidades mais próximas (Alvorada, Cachoeirinha, Canoas, Eldorado do Sul, Esteio, Glorinha, Gravataí, Guaíba, Novo Hamburgo, São Leopoldo, Sapucaia do Sul e Viamão).
Os avanços tecnológicos que possibilitaram a disseminação do celular e da internet reduziram a necessidade de se deslocar, mas não são os principais fatores para explicar o sumiço dos passageiros. O crescimento econômico registrado nos últimos cinco anos no país impulsionou a compra de carros e motocicletas com o ingresso de mais famílias na classe média. Com a velocidade da substituição do transporte coletivo pelo individual, vislumbra-se um cenário alarmante. A enxurrada de novos veículos provocará, cada vez mais, o aumento dos congestionamentos e dos níveis de poluição atmosférica.
Para as empresas de ônibus, o panorama é preocupante, ainda mais quando se estende o período da análise. Em 10 anos, 243 mil pessoas deixaram de circular de ônibus diariamente apenas na Capital. O movimento caiu 24,5%: de 994,2 mil para 750,7 mil passageiros pagantes por dia.
Com menos passageiros, a tarifa tende a ficar mais elevada, uma vez que o valor cobrado nas roletas é definido ao se dividir o custo total da operação pela quantidade de passageiros. Nos próximos anos, evitar o colapso do trânsito e do transporte na Região Metropolitana é um dos principais desafios a serem encarados pela sociedade e pelos governantes. O ronco dos motores está mais forte nas ruas e nas estradas da Região Metropolitana.
Impulsionados pelo crescimento econômico registrado entre 2003 e 2007, milhares de gaúchos abandonaram o transporte público para se deslocar de carro ou moto. Em meia década, a frota de carros e motos cresceu 15,3% na Capital e 31,3% nos 12 municípios vizinhos. Apenas no ano passado, 160 carros por dia surgiram nas ruas da região. O aquecimento do mercado automobilístico tem relação direta com o aumento da renda do brasileiro e o bom desempenho das empresas gaúchas no período, superior à média nacional nos últimos cinco anos. Nas ruas e avenidas, o estrangulamento do trânsito se intensificou em meia década. Além de mais extensos, os congestionamentos passaram a ser registrados em novas vias e em horários antes improváveis. Foi-se o tempo em que a tranqueira se limitava ao início da manhã, meio-dia e fim da tarde.
Mas porque comecei afirmando que a crise financeira que esboroa economias pode trazer benefícios por aqui. Como diz um saber primevos: ‘Há males que vem para bem!’ Com a turbulência global, o cenário já é outro no mercado automobilístico. A restrição do crédito, o aumento das taxas de juro dos financiamentos e as interrupções da produção, como as férias coletivas anunciadas quinta-feira pela General Motors na fábrica de Gravataí, atestam a retração. Assim se espera essa tendência (de redução de passageiros e de crescimento da frota) se atenue nos próximos anos. As previsões para breve em Porto Alegre era de palavra caos quando se projetava o trânsito, agora, talvez e não chegaremos a isso em um futuro mais próximo. Vai haver uma adequação, pois, com muitos carros nas ruas, parte das pessoas migrará de novo para o transporte público. Já se diz que em 2009, não veremos o mesmo comportamento em relação à compra de veículos. A tendência é que os índices de crescimento se reduzam pela metade.
Amanhã, provavelmente nos leremos de Santa Maria. Essa noite, depois das aulas no Centro Universitário Metodista IPA, vou à Rodoviária, para em uma viagem de quatro horas fazer 0s 300 km que separam de Porto Alegre aquela que em minha infância era conhecida como centro ferroviário do Rio Grande do Sul. Amanhã pela manhã e à noite faço uma mesma palestra: “O resgate de saberes primevos: alternativas para pesquisa e extensão” na abertura da II Mostra Acadêmica da FAMES. A Fames é a Faculdade Metodista de Santa Maria, que integra a Rede Metodista do Sul. À tarde me reúno com professoras e professores e estudantes da UNIFRA para discussões acerca dos preparativos do 29º EDEQ. Assim com convite de nos encontrarmos amanhã no coração do Rio Grande votos de um bom resto de terça-feira e o uma muito saborosa quarta-feira.
Escrito por Chassot às 16h23
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03NOVEMBRO2008
Segunda-feira |
Porto Alegre
Blogue diário desde 31JUL06 |
Ano 3
# 823* |
*Desde 01 de outubro até hoje houve engano na numeração (de menos 10), hoje corrigida
Uma segunda-feira ainda com ressaibo do dia finados. Essas datas que nos levam a reflexão são salutares. Sou empático a leitoras que se manifestaram ao texto de ontem em mensagem postada no blogue ou em depoimentos pessoais.
Nesse entardecer estou saindo para o Centro Universitário Metodista IPA participar da cerimônia de abertura do III Salão de Iniciação Científica e Extensão. Esse evento, similar ao que ocorre em todas Universidades brasileiras, tem por objetivo estimular o conhecimento científico, dar continuidade ao evento que é apoiado pela CAPES, como divulgação da produção científica.
Vou voltar a um assunto recorrente. Esses dias de eleições estadunidenses me obrigam a retornar a algo que já assuntei em outros momentos. É verdade – e não é sem razão – que essas eleições de se transformaram eleições mundiais. Já li também que se fosse dado a um universo extra-USA o direito de voto, Obama seria eleito com ampla margem. Parece que há pelo menos duas razões: uma, a alegria que todos nós sentiríamos em ver um negro presidente de um dos países mais racistas do mundo; a outra, podermos votar contra ao atual belicoso presidente estadunidense. Mas, não é sobre as eleições que quero falar, pois sobre as mesmas temos cobertura a rodo. Surpreende-me que jornais locais mandam pelo menos dois enviados aos Estados Unidos, um para acompanhar cada candidato. Mas, como disse meu assunto, nessa vigília eleitoral, é outro.
A imprensa brasileira e mesmo de outros países latinos emprega o vocábulo (tanto substantivo como adjetivo) americano, para indicar nascido nos Estados Unidos, ou algo desse país. Por doutrinação (ou assimilação) este uso ocorre entre a maioria dos falantes, mesmo aqueles que são críticos, logo atentos com suas falas, como ouvi, recentemente, inclusive, o Ministro de Relações Exteriores do Brasil. Qualquer bom dicionário da língua portuguesa registra estadunidense. O Aurélio define corretamente, mas remete a norte-americano (que diz ser nascido nos Estados Unidos, excluindo aqui os mexicanos há muito vítimas de espoliações maiores por seus vizinhos, dos quais são separados uma por uma cerca eletrificada – e os canadenses). O Houaiss mesmo que dicionarize corretamente estadunidense, coloca como sinônimo de americano ou norte-americano (é este dicionário que me lembra que os esquimós da Groenlândia e do Canadá são norte-americanos e eu acrescento que aqueles do Alasca – o maior e menos densamente povoado dos 50 estados –, também são americanos, ou mais precisamente norte-americanos, e também são estadunidenses, desde a boa compra do Alasca feita da Rússia, em 1867, por cerca de cinco centavos de dólar por hectare.).
Assim, há também outro erro no referir-se aos estadunidenses como norte-americanos, ignorando que também canadenses e mexicanos são norte-americanos. Isso seria ‘natural’, se redigíssemos em inglês, pois sabemos que em língua inglesa não existe outro gentílico que americans para referir aos nascidos nos Estados Unidos. Há, para a mesma designação, a abreviatura amer e também a palavra yankee, aportuguesada como ianque. Muito provavelmente, quase todos os leitores deste texto sejam americanos, mas nenhum estadunidense. Lateralmente vale dizer que em espanhol há o gentílico estadounidense (mas, os jornais hispano-americanos usam amiúde americano e norte-americano; e, para distinguir: sudamericano). Em italiano, statunitense (ou nordamericano). Em francês, o mais corrente é américain; mesmo estando dicionarizado: étatsunien e étatsunisien, sendo que estes dois gentílicos não são quase usados. Em alemão: o mais usado é Amerikaner, Nordamerikaner (Südamerikaner, para fazer a distinção), todavia no idioma de Goethe há a forma US-Amerikaner para melhor caracterizar os nascidos nos EUA. Em português já tenho visto: usamericano.
O uso do gentílico americano por estadunidense parece tradução da prepotência desta nação, fazendo do gentílico continental algo de sua posse. É quase natural o desconhecimento na imprensa e pelo comum das pessoas do gentílico estadunidense. Afortunadamente eles não se apoderaram, ainda, do gentílico que nos é tão caro: latino-americano. Aliás, na xenofobia estadunidense, cada vez mais se dificulta a entrada de latino americanos nos Estados Unidos. Também esta é uma apropriação dos Estados Unidos é indébita. Sonhadoramente desejo que se deixe de usar americano e norte-americano como gentílico identificador de apenas um dos países do continente. Aliás, na África há outro país, que como os Estados Unidos da América se apropria do nome do continente. Os habitantes da minúscula Suazilândia não são também sul-africanos? E não é a mesma a situação dos nascidos em Lesoto, que estão encravados na África do Sul? Este país é usurpador não apenas do gentílico, mas faz do nome de uma região do continente algo exclusivo para denominar o seu país.
Há um tempo – quando escrevia acerca do ensino de Ciências na segunda metade do século da tecnologia – precisei pesquisar em jornais noticiários de 1957, para saber da repercussão do lançamento do Sputnik, o primeiro satélite artificial, pela então União Soviética, e como agora, era corrente na imprensa o uso indevido do gentílico americano, parecendo exclusividade de cidadãos estadunidenses. Não somos estadunidenses como são aqueles governados pelo presidente que se acha o xerife do mundo e que foi chamado de demônio, em reunião das Nações Unidas, por um presidente sul-americano. Nossos vizinhos continentais são todos americanos, mas poderão ser equatorianos e chilenos (começo por estes dois que, mesmo que não nos sejam limítrofes, não são menos vizinhos), argentinos, uruguaios, bolivianos, cubanos, barbadiano (não sei qual é etnônimo, por exemplo, de Trinidad e Tobago), brasileiros e até estadunidenses, e estes é claro, em sua fantástica maioria, não deixam os ambientes recendendo a enxofre, como referiu aquele que demonizou Bush. No meu laborar em utopias desejaria ver os gentílicos americano e norte-americano usados por quem de direito. Sejam eles estadunidenses, e nós brasileiros, sul-americanos, latino-americanos, americanos.
E como amanhã, se diz ser – essas complicadas – eleições americanas, vamos todos votar pelo menos como uma grande torcida, em Obama, por ser negro e por ser oposição a Bush. Porém não esperem que amanhã tenhamos resultados, pois em 2000, quando Bush fez por métodos escusos uma derrota virar vitória, os resultados demoraram mais de um mês. Antes de sabermos quem será o vitorioso voltaremos nos encontrar aqui. Até amanhã.
Escrito por Chassot às 17h12
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02NOVEMBRO2008
Domingo |
FINADOS
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Ano 3
# 812 |
Não sei se existe um deus que cuida de como deve(ria) ser o cenário de cada uma dos dias, especialmente aqueles de comemorações. Refiro-me ao clima enquanto o conjunto de condições meteorológicas (temperatura, pressão e ventos, umidade e chuvas) características do estado médio da atmosfera em um ponto da superfície terrestre. Primeiro pensei que fosse Chronos, mas a este está confiado o tempo corrido, aquele que depois o medievo transformou em tempo relógio. Depois procurei por Cairós, mas este cuida do tempo vivido.
Todo esse preâmbulo é para dizer o quanto, especialmente pela manhã, os deuses não poderiam ter desenhando um melhor clima para um dia de finados: nuvens plúmbeas e chuviscos intermitentes. Cada dia comemorativo deve(ria) ter o clima que fizesse jus a celebração. A deste finado foi adequadíssima, mas que culminou com um inesperado pôr-do-sol.
É muito salutar que se tenha um dia para recordar aqueles que estiveram aqui e já partiram. Independente de crença ou não em uma outra vida, é no contar a história deles é que eles se fazem presentes em nossas vidas. Assim é muito provável que hoje foi dia muito especial para contar suas histórias. Essas também são significativas em enquanto as contamos para nós mesmos em nossas reflexões sobre aquilo que nos deixaram. O significativo é que à medida que passam os anos, mais amealhamos histórias daquelas e daqueles que já foram.
Hoje também parece ser significativo o quanto afloram reflexões acerca de nossa partida ou para ser mais objetivo: nossa morte. Por uma lei natural, a cada dia de finados elas se fazem mais densas. Talvez o salutar seja quanto podemos fazer isso sem luto. Fomos educados para escamotear isso de nosso imaginário, mesmo que seja um dos únicos acontecimentos que vamos “¡viver!” do qual temos certeza. Por mais previsível que seja nossa morte dela quase nada sabemos. Dentre as nossas desinformações acerca desse evento aquele que mais nos faz apagar certezas é a incerteza da data.
Ao lado da imprevisibilidade do ‘quando’ se aloja de maneira diferente o ‘como’. Essa dimensão com o correr dos tempos pode oferecer pistas: uma doença ou a idade podem ser sinalizadores. É sobre quando esses sinalizadores aparecem como mais decisivos que queria aproveitar a data para fazer alguns comentários. Já me insurgi aqui, em outros momentos contra a ‘indústrias das UTIs’ que por altos custos financeiros e com muitas vezes grandes sofrimentos aos familiares ‘dão’ uma sobrevida a um doente sabido em estado terminal. Talvez a primeira questão a trazer se essa sobrevida pode se chamar de vida (digna).
A revista IHU on-line (www.unisinos.br/ihu) desta semana tem como tema de capa a morte. Dentre os diferentes textos para ler queria destacar a denuncia feita por meu colega teólogo luterano Martin Dreher que diz que o conceito de morte foi invisibilizado. “A morte não foi apenas camuflada. Ela foi privatizada, dobrando-se às leis da economia de mercado. A morte não é mais questão da família, mas de uma indústria que se encarrega dela.” Já o conceito de vida foi baseado no consumo. Dreher lamenta que o tema morte seja um tabu, e que os velórios no Brasil durem tão pouco tempo, pois é preciso mais vagar para que nos separemos de quem se foi.
Daí porque fale refletir sobre a eutanásia voluntária pode ser descrita como o ato de proporcionar uma morte tranqüila a uma pessoa que, padecendo de um sofrimento atroz, e cujo estado de saúde haja sido diagnosticado como terminal, tenha lucidamente optado por ela.
É usual as pessoas serem contra a eutanásia, pois se diz parece muito difícil ter certeza de que uma pessoa realmente se encontra em estado terminal. Sempre vem o argumento daqueles que dizem que há casos que surpreendem. Acompanho Antonio Cícero, que escreveu na Folha de S. Paulo de 26 de janeiro deste ano: Não duvido disso, mas o fato é que as curas "milagrosas" são raríssimas e que, na medicina (como em toda a vida prática), não é pela expectativa da ocorrência do mais improvável, mas pela expectativa da ocorrência do mais provável que se devem orientar as decisões humanas. Sei que "enquanto há vida, há esperança". Mas reflitamos. Enquanto há vida, há esperança de quê? De mais vida. O que importa, porém, é a qualidade dessa sobrevida. Como dizia Sêneca [...], o sábio vive tanto quanto deve, não tanto quanto pode, pois o que lhe importa é a qualidade, não a quantidade da sua vida. Ora, se nem sempre a melhor vida é a mais longa, sempre a mais longa morte é a pior.
Não faltam os que ponderem que até mesmo as experiências dolorosas podem promover o crescimento espiritual. Quero crer, e mais uma vez alio-me a Antônio Cícero, que quem pense assim não seja um monstro, mas apenas alguém que jamais testemunhou o sofrimento, a dor, a aflição, a humilhação, a indignidade de que padece um doente terminal, sem esperança de melhora e, freqüentemente, sem controle dos esfíncteres, em meio a fezes e urina, entubado e a respirar com a ajuda de máquinas. Como pode alguém achar que há "crescimento espiritual" na redução do pensamento humano à mais obscura animalidade, à inescapável obsessão com o puro e impotente pavor da dor física?
Aqui, estamos diante do irresponsável e há profunda falta de reflexão sobre o que significa vida e vida plena. No outro extremo, encontramos a situação do corpo do idoso. Em relação a esse corpo, assim me parece, o problema maior não é o da eutanásia, mas o da ortotanásia [Termo utilizado pelos médicos para definir a morte natural, sem intervenção da Ciência, permitindo ao paciente a morte digna, sem sofrimento, deixando a evolução e percurso da doença; portanto, evitam-se métodos extraordinários de suporte a vida em pacientes irrecuperáveis]. Na ânsia por prolongar a vida, esquecemos que há também um direito à morte e ao morrer.
Mas depois de falar na morte, preciso louvar vida e encantar-me com a mesma. Esse fim de semana, tive dois momentos de curtição do avonado. Hoje me encantou estar com um tempo com o Antônio aqui na Morada dos Afagos e acompanhar ele se encantar na contemplação dos peixes. Ontem foi a Maria Antônia que me fez vibrar com as justificativas de porque ela gosta mais dos livros do que dos jornais, pois estes são temporários e aqueles permanentes. Assim nessa celebração da vida fica a saudosas lembranças dos que já se foram.
Encerro desejando a todos uma excelente semana. Amanhã vamos nos ler, provavelmente aqui. Até então.
Escrito por Chassot às 20h29
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