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17MAIO2008* SÁBADO |
Porto Alegre
Fundado em 30 de julho de 2006 |
Ano 2 # 653 |
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16MAI2008* SEXTA-FEIRA |
Um dos ‘Sete escritos sobre educação e ciência’ chama-se ‘Para formar jardineiros cuidadores do Planeta’ |
Ano 2 # 652 |
Já é shabath. Este é um mais shabath que tem a marca da saudade, aliás, como todos deste maio. A Gelsa está desde ontem trabalhando no Instituto Josué de Castro em Veranópolis com educadores do MST. O Bernardo e a Carla vieram chimarrear comigo ao entardecer para me afagar e amenizar ausências.
Desde que recebi a dolorosa – mas há muito esperada – notícia da degola da ministra Marina Silva, tento escrever algo acerca da demissão, que um jornal londrino diz ser um prejuízo para o Planeta. Na página A-3 da Folha de S. Paulo de hoje Frei Betto em ‘Querida Marina’ traz um texto muito denso e prenhe de reflexões. Assim, aposso-me desta carta – pois quisera eu fosse capaz de escrever algo tão significativo – faço dela minha blogada nesse dia que foi (ainda) ensolarado. Antes lembrar que Carlos Alberto Libânio Christo – o Frei Betto –, é frade dominicano, tem 63 anos, escritor e assessor de movimentos sociais, Vale recordar, especialmente, que ele foi assessor especial da Presidência da República (2003-2004).
Querida Marina, caíste de pé! Trazes no sangue a efervescente biodiversidade da floresta amazônica. Teu coração desenha-se no formato do Acre e em teus ouvidos ressoa o grito de alerta de Chico Mendes. Corre em tuas veias o curso caudaloso dos rios ora ameaçados por aqueles que ignoram o teu valor e o significado de sustentabilidade.
Na Esplanada dos Ministérios, como ministra do Meio Ambiente, tu eras a Amazônia cabocla, indígena, mulher. Muitas vezes, ao ouvir tua voz clamar no deserto, me perguntei até quando agüentarias.
Não te merece um governo que se cerca de latifundiários e cúmplices do massacre de ianomâmis. Não te merecem aqueles que miram impassíveis os densos rolos de fumaça volatilizando a nossa floresta para abrir espaço ao gado, à soja, à cana, ao corte irresponsável de madeiras nobres.
Por que foste excluída do Plano Amazônia Sustentável? A quem beneficiará esse plano, aos ribeirinhos, aos povos indígenas, aos caiçaras, aos seringueiros ou às mineradoras, às hidrelétricas, às madeireiras e às empresas do agronegócio?
Quantas derrotas amargaste no governo? Lutaste ingloriamente para impedir a importação de pneus usados e a transformação do país em lixeira das nações metropolitanas; para evitar a aprovação dos transgênicos; para que se cumprisse a promessa histórica de reforma agrária. Não te muniram de recursos necessários à execução do Plano de Ação para a Prevenção e Controle do Desmatamento da Amazônia Legal, aprovado pelo governo em 2004.
Entre 1990 e 2006, a área de cultivo de soja na Amazônia se expandiu ao ritmo médio de 18% ao ano. O rebanho se multiplicou 11% ao ano. Os satélites do Inpe (Instituto Nacional de Pesquisas Espaciais) detectaram, entre agosto e dezembro de 2007, a derrubada de 3.235 km2 de floresta.
É importante salientar que os satélites não contabilizam queimadas, apenas o corte raso de árvores. Portanto, nem dá para pôr a culpa na prolongada estiagem do segundo semestre de 2007. Como os satélites só captam cerca de 40% da área devastada, o próprio governo estima que 7.000 km2 tenham sido desmatados.
Mato Grosso é responsável por 53,7% do estrago; o Pará, por 17,8%; e Rondônia, por 16%. Do total de emissões de carbono do Brasil, 70% resultam de queimadas na Amazônia.
Quem será punido? Tudo indica que ninguém. A bancada ruralista no Congresso conta com cerca de 200 parlamentares, um terço dos membros da Câmara dos Deputados e do Senado Federal.
E, em ano de eleições municipais, não há nenhum indício de que os governos federal e estaduais pretendam infligir qualquer punição aos donos das motosserras com poder de abater árvores e eleger ($) candidatos.
Tu eras, Marina, um estorvo àqueles que comemoram, jubilosos, a tua demissão, os agressores do meio ambiente, os mesmos que repudiam a proposta de proibir no Brasil o fabrico de placas de amianto e consideram que "índio atrapalha o progresso".
Defendeste com ousadia nossas florestas, nossos biomas e nossos ecossistemas, incomodando quem não raciocina senão em cifrões e lucros, de costas para os direitos das futuras gerações. Teus passos, Marina, foram sempre guiados pela ponderação e pela fé. Em teu coração jamais encontrou abrigo a sede de poder, o apego a cargos, a bajulação aos poderosos, e tua bolsa não conhece o dinheiro escuso da corrupção.
Retorna à tua cadeira no Senado Federal. Lembra-te ali de teu colega Cícero, de quem estás separada por séculos, porém unida pela coerência ética, a justa indignação e o amor ao bem comum.
Cícero se esforçou para que Catilina admitisse seus graves erros: "É tempo, acredita-me, de mudares essas disposições; desiste das chacinas e dos incêndios. Estás apanhado por todos os lados. Todos os teus planos são para nós mais claros que a luz do dia.
Em que país do mundo estamos nós, afinal? Que governo é o nosso?" Faz ressoar ali tudo que calaste como ministra. Não temas, Marina. As gerações futuras haverão de te agradecer e reconhecer o teu inestimável mérito.
Depois desse poema-denúncia só me resta desejar a cada uma e cada um o melhor fim de semana. Já vivo a expectativa do entardecer do sábado que marca o advento da Gelsa.
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15MAIO2008* QUINTA-FEIRA |
‘Sete escritos sobre educação e ciência’ está acessível na livraria virtual de www.atticochassot.com.br |
Ano 2 # 651 |
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14MAIO2008* QUARTA-FEIRA |
Porto Alegre
Fundado em 30 de julho de 2006 |
Ano 2 # 650 |
Caro Attico, para alguns; Chassot, para outros,
Nosso Attico Inácio Chassot,
Lembro que, na homenagem anterior a colegas que se despediam, sugeri que limitássemos a nossa fala àquilo que cabe em uma página. É difícil fazer caber a riqueza de tua vida em tão poucas linhas, mas também precisamos convir que não estamos aqui para recapitular a biografia e recontar os feitos de um homem que conquistou um lugar importante na educação em nossa região e em nosso país e, o que talvez seja mais importante, ocupa um lugar espaçoso no coração de estudantes e educadores e educadoras de perto e de longe. Para confirmar estes dados, basta conferir o blog que o Áttico alimenta com um carinho quase maternal e um zelo jesuíta. Ali está ele, conversando, contando suas aventuras e, às vezes, desventuras, com muita franqueza e com muito respeito pelas pessoas que encontra pelo caminho.
Para que, de fato, a gente está aqui? Confesso que esta pergunta não está bem respondida. Para comemorar? Comemorar o que, se este fato não foi provocado ou promovido por nós: nem pelo “sainte”, nem pelos “ficantes”. Lamentar? Para isso não precisamos despender tanto esforço. No fim de contas, acho que sobra a idéia de que queremos te dizer, com a nossa presença, algumas coisas como um grupo com o qual conviveste por mais de uma década e no qual deixas a tua marca. É também uma despedida quase que pela metade porque é difícil não ver a ti ao lado da Gelsa quando ela passa no corredor. Nada de fantasmagórico, mas o resultado de uma bonita relação que vocês construíram e continuam alimentando.
Mas o que seria a tal “marca Chassot”? Acho que terei a concordância unânime ao dizer que a primeira marca é a tua curiosidade intelectual e o invejável gosto pela leitura. Quando meus filhos eram pequenos, lia para eles a história de uma lagarta que fazia furos nos livros, entrava neles e os comia. Vejo-te um pouco como esta lagarta insaciável. A diferença, claro, é que acarinhas os livros, o que não impede que algum deles dê um mergulho na piscina. Mostraste para muitos de nossos alunos o caminho da biblioteca e vamos ter que cuidar para que esta cultura de amor aos livros e à biblioteca seja cultivada por nós que ficamos. Este amor aos livros se estende para o amor à escrita. São cerca de 70 artigos em revistas, 28 em anais, cerca de 20 capítulos de livros e 11 livros. Não é pouco para um ritmo de vida como o nosso, marcado por demandas das quais não preciso falar aqui. O último deles: Sete escritos sobre Educação e Ciência (Cortez) lançado durante o ENDIPE, cujo nascimento está descrito passo a passo no blog. CIÊNCIA E EDUCAÇAO – duas paixões que se fundem em teu trabalho. Este amor à palavra escrita também demonstraste na Comissão da Revista e mais tarde como o seu Editor.
Outra marca, Chassot, é um certo espírito imperturbável que te permitiu, como disseste ao entregar a coordenação de nosso PPG, ter assumido como coordenador de um Curso de Mestrado e estar saindo como coordenador de um Programa de Pós-Graduação. Em tua gestão foi planejado e iniciado o Curso de Doutorado, um degrau imprescindível para que chegássemos ao reconhecimento que hoje temos no cenário da pós-graduação em educação. Foi um período difícil, no qual aconteceu uma profunda reestruturação de nosso PPG. Novos colegas chegando, outro agrupamento por linhas de pesquisa, outros desafios acadêmicos sendo postos para um programa que desejava ser um bom programa.
Tem ainda outras marcas: o carinho para com a Gelsa, teus filhos e netos, teus orientandos, teus alunos...enfim, todos nós. A presença marcante da graduação, onde a nossa meninada com certeza sente a tua falta. Digo nossa, porque tu continuas com a meninada, em outras paragens. Menos mal, e não podemos deixar de desejar que continues, lá, tendo o mesmo sucesso que tiveste aqui. A tua presença no Conselho Estadual de Educação, onde basta mencionar a tua luta pelo reconhecimento das escolas do MST. A tua garra nos momentos de problemas de saúde, com a perna que te pregou uma peça e com uma delicada cirurgia. Teria muitas outras coisas para falar, mas já faz um tempinho que o cursou mudou de página.
Acho, no fim das contas, que se estamos aqui, juntos, é para dizer que foste e continuas sendo importante para nós, como pessoas e como Programa. Que queremos lembrar não tanto uma despedida, mas celebrar aqueles 12 anos nos quais tivemos o privilégio de conviver contigo e agradecer por tudo. Desejamos que encontres no teu novo lugar de trabalho (o IPA Metodista) um espaço para continuar casando a educação com a ciência de jeito criativo e provocativo. Um dia a ciência, sim senhora, deixará de ser masculina. Que sejas FELIZ com os teus e as tuas!
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13MAIO2008* TERÇA-FEIRA |
Uma terça-feira feira marcada pela linda homenagem que recebi do Programa de Pós-graduação em Educação da Unisinos. |
Ano 2 # 649 |
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12MAIO2008* SEGUNDA-FEIRA |
‘Sete escritos sobre educação e ciência’ está acessível na livraria virtual de www.atticochassot.com.br |
Ano 2 # 648 |
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11MAI2008* DOMINGO |
DIA DAS MÃES |
Ano 2 # 647 |
O mote fulcral da blogada de hoje só poderia ser aquele que se faz título no cabeçalho: o dia das mães. Não vou filosofar sobre as diferentes dimensões acerca da data que tem um amplo leque de significado que vão desde o merecido culto à maternidade até a exploração comercial das homenagens, mesmo que as propagandas não mostrem mais como sugestão que mulheres devam ganhar panelas ou outros itens da baixela. Claro que se poderia discutir os momentos prenhes de afetos para mães e filhos no receber e dar homenagens e nisso o segundo domingo de maio faz sucesso, mas também o quanto para muitos essa data evoca saudades e até para uma significativa parcela traz mágoas e mesmo lacerante dor tanto para mães e para filhos por diferentes razões, que poderia ser facilmente listadas.
Desde a manhã de 11 de setembro de 2001, quando o Planeta assistiu estarrecido a destruição das torres do WTC em Nova York, vivo diferentemente essa data, pois naquele momento sepultava minha mãe. Desde então vivo a saudade daquela que para mim foi sempre um exemplo de uma mulher sábia, que muito me ensinou até o ocaso de sua existência aos 92 anos. Na minha perda de então vejo concretizada aquela frase que é capitular do último capítulo do “Sete escritos sobre Educação e Ciências”: Quando morre um velho e como uma biblioteca que queima. Minha maior saudade é daquilo que não conversei com ela e muitas vezes parece ainda que tenho questões para inquiri-la.
Mas também na celebração desta data há a vivência forte daquele consolo que no cotidiano nos presenteamos: a vida continua. Esta manhã – em que convivia com a Gelsa, que para mim é um grande exemplo de mãe – estava em um momento precioso com a Ana Lúcia e com a Clarissa, minhas duas filhas que são mães muito queridas. Ao ver a alegria do Guilherme e da Maria Clara, mais que os dulçores do avonado, sentia a vida de minha mãe prolongada naqueles seus dois bisnetos, dos quais uma lhe leva o nome. No almoço familiar ter o privilégio de estar com Liba, que mais do que sogra é para aqueles e aquelas que convivem com ela é exemplo de mulher e de intelectual e com a Laura, que na vida dada ao Antônio me fez avô pela quarta vez, geraram novos momentos de homenagear a maternidade. À noite as alegrias se expandiram na visita tão carinhosa que recebi da Carla, que há quase 9 anos me fez pela primeira vez viver as emoções de ser avô e também na fala com minha irmã Tile em Curitiba, que aquela é a decana dentre as mães de nosso clã familiar. Dizer para a Dione do meu reconhecimento e minha gratidão pelo quanto ela foi / é uma muito boa mãe de nossos filhos e filhas foi como um coroamento desse dia de homenagens merecidas às mães. Realmente a vida continua, mesmo que marcada por uma imensa saudade.
Esse domingo teve ainda fortes recordações de meus três dias de Santa Catarina ontem encerrados. Toda vez que participamos de atividades como essas nos perguntamos se terá valido o esforço material e físico investidos. Hoje recebi uma mensagem do Professor Werther Alexandre de Oliveira Serralheiro, um dos participantes dos dois turnos que desenvolvi com professoras e professores dos CEFETs catarinenses que permito transcrever um excerto: Caríssimo Professor. Eu já estava entusiasmado com a idéia de lançarmos um curso de licenciatura em Física na nossa unidade do CEFET-SC em Araranguá. Este entusiasmo se deve principalmente ao fato da nossa unidade, caçula do sistema CEFET em Santa Catarina e com um corpo de servidores realmente comprometidos com a educação, ser inovadora e fazer diferença econômica e social para a região sul do Estado com este curso.
Meu entusiasmo quintuplicou de tamanho com nosso encontro na semana passada. A Nilva tinha nos dito que virias para desconstruir e balançar conceitos com o firme propósito de reconstruirmos de forma inovadora; só não sabia que seria tanto. A proposta da in-disciplina e da alfabetização científica é um desafio que, a todo minuto que penso nesta licenciatura, me deixa mais apaixonado por ela. Com isto, tenho certeza que estamos no caminho certo e o agradeço por fazer parte desta caminhada. Realmente isso me entusiasma e dá garra para outros continuados envolvimentos.
Também as emoções dos dois turnos do dia de ontem no Curso de Especialização de Educação de Jovens e Adultos no Campo do MST estiveram presentes em meu domingo. Talvez, aquele pote de mel de abelhas africanas trazido do Maranhão, que me foi ofertado pela Mari, em nome do grupo, traduz um pouco da doçura que sinto pelo dia de ontem. Vez ou outra me assaltam as discussões de então e o quanto gostaria de voltar a estar com aqueles 37 Educadoras e Educadoras de 17 estados do Brasil.
Queria ainda comentar algumas leituras de hoje. Protelo para amanhã, mas antecipo que mais uma vez o Caderno Mais da Folha de S. Paulo dominical está excelente. Eis uma pitadinha para amanhã, trazida de entrevista com Umberto Eco, tema de capa: O bom do envelhecer é relembrar a infância. Por ora votos de uma muito boa semana a cada uma e a cada um.
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