Blog de Attico Chassot


17MAIO2008*

SÁBADO

Porto Alegre

Fundado em 30 de julho de 2006

Ano 2

# 653

Um sábado de outono muito bonito marcado pelo retorno da Gelsa. Foi emocionante ouvir os relatos que ele fez, tanto de alunas e alunos do Magistério, como do Curso de Técnicos em Saúde no envolvimento dos mesmos no ‘trato das Matemáticas’. Foi muito prazeroso ouvir os depoimentos dos grupos acerca da qualidade do trabalho dela e também da Juliana, aluna da Licenciatura em Matemática da Unisinos, que é sua assistente de pesquisa.

Fiquei muito feliz quando ela esta manhã postou um comentário acerca do blogue de ontem – o seu primeiro comentário aqui, na verdade para não ser injusto o segundo (pois fez um comentário no dia de inauguração deste blogue, que por ser neófito, então, perdi) – escrevendo: Quando faço cópia do blog de ontem para usá-lo como parte do trabalho com a turma de Magistério "MAGI 12" do Instituto Josué de Castro, deixo meu depoimento comovido pela profundidade e beleza do texto de Frei Beto e pela oportunidade que me dás de qualificar o que aqui realizo nesta manhã de sábado de Veranópolis. Minha resposta foi: Amada minha, não sabes o quanto me orgulha com o fato que este blogue possa colaborar com a aula desta manhã para Educadoras e Educadores do MST no IJC em Veranópolis, com emoção fazes minha admiração por ti aumentar, attico Também o Jairo, a sobre o mesmo o mesmo texto escreveu com propriedade: Realmente! Que coisa maravilhosa este escrito do Frei Betto, meu caro. Desde que soube da demissão da ministra Marina passei a temer pelo futuro de nossos últimos pedaços conservados. Principalmente porque nesse momento o país vive um "ufanismo" empresarial nunca visto. Ainda hoje ouvia de um comentarista econômico (não sei se é possível acredita-los) de que não podemos nos iludir com o momento atual, pois há algo estranho no ar. Dizia que, as enquanto os EUA avaliam as extensões da crise imobiliária, a China conta seus mortos na recente catástrofe, os países da América Latina sofrem com uma inflação indomada, as agências internacionais propõem o Brasil como o "A Galinha dos Ovos de Ouro". Uma enxurrada de dinheiro especulativo fascina os adeptos dos pregões. Será que de uma hora pra outra somos tão maravilhosos assim? Neste meio século já vivido, posso dizer que há alguma coisa abaixo da linha do Equador que não está me cheirando bem. Abraços do JB e "não nos iludamos". Minha resposta para ele foi: Meu querido Jairo, quando te dizes com meio século já vivido, lembro que no dia vinte teremos celebração de teu cinqüentenário. Um ‘à saúde!’ antecipado. Realmente a arca aberta à Aracruz aqui no RS e a degola de Marina Silva no BR nos fazem derrotados. Ao lado do que chamas estar de ‘olho na galinha de avós de ouro’ há também um cheiro de cada vez mais ‘um imperialismo brasileiro’. Perdemos batalhas, mas a luta continua companheiro. Com renovada admiração por tua sempre densa e consistente parceria intelectual, a amizade do achassot

Realmente em um curto espaço de tempo, as propostas daqueles que sonham que com uma mais consistente alfabetização científica se possa estar formando jardineiros para cuidar do Planeta sofreram pelos dois duros reveses.

Uma nota acadêmica nesse sábado que já se fez noite. Ainda em janeiro, relatei aqui acerca do magnífico que é visitar a Biblioteca Nacional da França. Alertado pelo meu colega e amigo, Professor Eduardo Sebatianni, conheci recentemente “Gallica” que me permito recomendar especialmente para meus leitores envolvidos co História e Filosofia da Ciência: A Gallica é o serviço de disponibilização electrónica de textos à distância da Bibliothèque Nationale de France. É um recurso fabuloso de consulta gratuita, com mais de 70.000 livros digitalizados em modo imagem e mais de mil em modo texto, para além de conter 80.000 imagens e centenas de documentos sonoros. Os textos, incluindo livros e periódicos, podem ser vistos em formato PDF. O endereço geral é http://gallica.bnf.fr/
Além das possibilidades da pesquisa geral do respectivo catálogo, existem ainda mini-guias temáticos, incluindo a História das Ciências. Estes mini-guias incluem um apreciável número de obras, constituindo uma biblioteca básica de clássicos de História das Ciências. Encontram-se divididos por períodos:Les sciences au Moyen Âge
//Les sciences au XVIe siècle //Les sciences au XVIIe siècle//Les sciences au XVIIIe siècle //Les sciences au XIXe siècle

Um registro reconhecido a Professora Cristiana Passinato que indicou o sítio www.atticochassot.com.br no seu novo sítio de ensino de química. http://pesquisasdequimica.com Quero destacar o quanto como a Cristiana á um grupo de Educadoras que fazem uma genuína Educação Química a distância de uma maneira não formal. Poderia juntar ao trabalho que a Cristiana faz do Rio de Janeiro aquelas também excelentes ações desenvolvidas pela colega Thaise desde Goiânia no teu http://quimilokos.blogspot.com Já instiguei uma leitora deste blogue a submeter um projeto a uma agência de financiamento para conseguirmos apoio para que estudantes das classes populares possam ter acesso a à internet e assim diminuamos o número daqueles que ainda não tem arroba no endereço e então organizarmos uma rede de alguns blogues para estendermos com eles as possibilidades de ampliarmos ações de alfabetização cientifica, lembrando que o significativo na diferença entre ricos e pobres, não apenas que estes têm menos bem e sim o quanto têm menos acesso aos produtos da Ciência e da Tecnologia.

Ao encerrar uma gratidão muito especial ao meu filho Bernardo, que hoje deu mais de cinco horas de seu sábado a ajudar-me em mais uma desvalia com meu notebook. As máquinas podem ser desalmadas conosco, mas ter um filho solícito é algo maravilhoso. No meu reconhecimento os votos de um muito bom domingo a todos.



Escrito por Chassot às 18h26
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16MAI2008*

SEXTA-FEIRA

Um dosSete escritos sobre educação e ciência’ chama-sePara formar jardineiros cuidadores do Planeta’

Ano 2

# 652

 

Já é shabath. Este é um mais shabath que tem a marca da saudade, aliás, como todos deste maio. A Gelsa está desde ontem trabalhando no Instituto Josué de Castro em Veranópolis com educadores do MST. O Bernardo e a Carla vieram chimarrear comigo ao entardecer para me afagar e amenizar ausências.

Desde que recebi a dolorosa – mas há muito esperada – notícia da degola da ministra Marina Silva, tento escrever algo acerca da demissão, que um jornal londrino diz ser um prejuízo para o Planeta. Na página A-3 da Folha de S. Paulo de hoje Frei Betto em ‘Querida Marina’ traz um texto muito denso e prenhe de reflexões. Assim, aposso-me desta carta – pois quisera eu fosse capaz de escrever algo tão significativo – faço dela minha blogada nesse dia que foi (ainda) ensolarado. Antes lembrar que Carlos Alberto Libânio Christo o Frei Betto, é frade dominicano, tem 63 anos, escritor e assessor de movimentos sociais, Vale recordar, especialmente, que ele foi assessor especial da Presidência da República (2003-2004).

Querida Marina, caíste de pé! Trazes no sangue a efervescente biodiversidade da floresta amazônica. Teu coração desenha-se no formato do Acre e em teus ouvidos ressoa o grito de alerta de Chico Mendes. Corre em tuas veias o curso caudaloso dos rios ora ameaçados por aqueles que ignoram o teu valor e o significado de sustentabilidade.
Na Esplanada dos Ministérios, como ministra do Meio Ambiente, tu eras a Amazônia cabocla, indígena, mulher. Muitas vezes, ao ouvir tua voz clamar no deserto, me perguntei até quando agüentarias.
Não te merece um governo que se cerca de latifundiários e cúmplices do massacre de ianomâmis. Não te merecem aqueles que miram impassíveis os densos rolos de fumaça volatilizando a nossa floresta para abrir espaço ao gado, à soja, à cana, ao corte irresponsável de madeiras nobres.
Por que foste excluída do Plano Amazônia Sustentável? A quem beneficiará esse plano, aos ribeirinhos, aos povos indígenas, aos caiçaras, aos seringueiros ou às mineradoras, às hidrelétricas, às madeireiras e às empresas do agronegócio?

Quantas derrotas amargaste no governo? Lutaste ingloriamente para impedir a importação de pneus usados e a transformação do país em lixeira das nações metropolitanas; para evitar a aprovação dos transgênicos; para que se cumprisse a promessa histórica de reforma agrária. Não te muniram de recursos necessários à execução do Plano de Ação para a Prevenção e Controle do Desmatamento da Amazônia Legal, aprovado pelo governo em 2004.

Entre 1990 e 2006, a área de cultivo de soja na Amazônia se expandiu ao ritmo médio de 18% ao ano. O rebanho se multiplicou 11% ao ano. Os satélites do Inpe (Instituto Nacional de Pesquisas Espaciais) detectaram, entre agosto e dezembro de 2007, a derrubada de 3.235 km2 de floresta.
É importante salientar que os satélites não contabilizam queimadas, apenas o corte raso de árvores. Portanto, nem dá para pôr a culpa na prolongada estiagem do segundo semestre de 2007. Como os satélites só captam cerca de 40% da área devastada, o próprio governo estima que 7.000 km2 tenham sido desmatados.

Mato Grosso é responsável por 53,7% do estrago; o Pará, por 17,8%; e Rondônia, por 16%. Do total de emissões de carbono do Brasil, 70% resultam de queimadas na Amazônia.
Quem será punido? Tudo indica que ninguém. A bancada ruralista no Congresso conta com cerca de 200 parlamentares, um terço dos membros da Câmara dos Deputados e do Senado Federal.
E, em ano de eleições municipais, não há nenhum indício de que os governos federal e estaduais pretendam infligir qualquer punição aos donos das motosserras com poder de abater árvores e eleger ($) candidatos.

Tu eras, Marina, um estorvo àqueles que comemoram, jubilosos, a tua demissão, os agressores do meio ambiente, os mesmos que repudiam a proposta de proibir no Brasil o fabrico de placas de amianto e consideram que "índio atrapalha o progresso".

Defendeste com ousadia nossas florestas, nossos biomas e nossos ecossistemas, incomodando quem não raciocina senão em cifrões e lucros, de costas para os direitos das futuras gerações. Teus passos, Marina, foram sempre guiados pela ponderação e pela fé. Em teu coração jamais encontrou abrigo a sede de poder, o apego a cargos, a bajulação aos poderosos, e tua bolsa não conhece o dinheiro escuso da corrupção.

Retorna à tua cadeira no Senado Federal. Lembra-te ali de teu colega Cícero, de quem estás separada por séculos, porém unida pela coerência ética, a justa indignação e o amor ao bem comum.
Cícero se esforçou para que Catilina admitisse seus graves erros: "É tempo, acredita-me, de mudares essas disposições; desiste das chacinas e dos incêndios. Estás apanhado por todos os lados. Todos os teus planos são para nós mais claros que a luz do dia.

Em que país do mundo estamos nós, afinal? Que governo é o nosso?" Faz ressoar ali tudo que calaste como ministra. Não temas, Marina. As gerações futuras haverão de te agradecer e reconhecer o teu inestimável mérito.

Depois desse poema-denúncia só me resta desejar a cada uma e cada um o melhor fim de semana. Já vivo a expectativa do entardecer do sábado que marca o advento da Gelsa.



Escrito por Chassot às 19h52
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15MAIO2008*

QUINTA-FEIRA

Sete escritos sobre educação e ciência’ está acessível na livraria virtual de www.atticochassot.com.br

Ano 2

# 651

Mais um dia outonal muito lindo. Cheguei há não muito das aulas de História e Filosofia da Ciência no Mestrado Profissional de Reabilitação e Inclusão, no Centro Universitário Metodista IPA onde o assunto foi a revolução lavosierana, antecedido de extensa retomada da revolução copernicana.

Estou bastante envolvido desde ontem em estudos da Lei 10639/03, que altera dispositivos da LDB (Lei 9394/96 de Diretrizes e Bases da Educação Nacional) tornou obrigatório o ensino da História e Cultura Afro-Brasileira nos estabelecimentos de ensino de educação básica, sejam estes públicos ou privados. Esse assunto me envolve, não apenas porque ele será central nas aulas da próxima semana das quatro turmas de Políticas de Educação no Brasil, mas – e principalmente – porque elaboro um projeto de pesquisa na mesma direção do que venho trabalhando já há algum tempo marcado pelo problema genérico: Como fazer dos saberes primevos saberes escolares? Os vários problemas específicos (preservação de saberes relativos a sementes caipiras, desidratação de frutos, conservação de alimentos, medicina alternativa etc.) alicerçados no problema genérico resultaram na produção de artigos e de capítulos de livro, apresentação de trabalhos em eventos e mini-cursos. Agora, o foco estará centrado na busca saberes primevos mais pontualmente, pois quero fazer um recorte e procurar saberes de afro-descendentes e fazê-los saber escolares. Trago esse assunto aqui, pois sei que já há outros envolvidos na mesma direção e esse anúncio busca traduzir o desejo de fazer uma pesquisa solidária e não solitária.

Há duas razões para tal recorte: a) uma adesão à lei 10.639/2003, antes referida que determina como obrigatória a inclusão da temática “História e Cultura Afro-brasileira” e o quanto é a Academia que deve gerar produções para mais eficiente execução dos dispositivos legais; b) pela minha mais recente inserção no Centro Universitário Metodista IPA, instituição que cultiva, entre suas marcas, processos de inclusão marcados pela constatação de que os problemas que afligem a realidade latino-americana devem constituir pauta das pesquisas com exigência de transformação. A chegada a uma nova instituição de ensino superior determinou o intenso envolvimento (inédito e quase acidental) com a disciplina Políticas de Educação no Brasil, onde em ações nas Licenciaturas em Biologia, Educação Física, Filosofia, História, Letras e Músicas busca-se prover os futuros professores com recursos para a implementação da Lei. Também as ações enquanto docente de História e Filosofia da Ciência no Mestrado Profissional de Reabilitação e Inclusão têm exigido posturas cada vez mais desvinculadas da matriz eurocêntrica, assim esta proposta se conecta – e mais, adere – à chegada das políticas afirmativas no Estado Brasileiro. 

Muito já se escreveu acerca do apagamento da história. Assim sabemos o quanto, entre nós, a História do Brasil é branca, cristã, masculina... Quem de nós, por exemplo, sabe dizer o nome de um homem ou de uma mulher que tenha vivido no Brasil antes de 22 de abril de 1500? No nosso zerar a história apagamos a existência de mais de 6 milhões nativos aqui. E acerca da história da legião de homens e mulheres negros que foram traficados para cá o que sabemos? Há um livro pequeno, mas denso Entrevistas com escravos africanos na Bahia oitocentista [CASTELNAU, Francis de. Entrevistas com escravos africanos na Bahia oitocentista. Titulo original em francês: Renseignements d’hommes a queue qui s’y trouverait d’après de rapport des nègres du Soudan, esclaves a Bahia Rio de Janeiro: Editora José Olympio, 2006, 80p. ISBN 85-03-00885-8] que faz parte da primorosa coleção ‘Baú de Histórias’ da José Olympio Editora, ajuda a responder algo quanto dessa pergunta.

Francis de Castelanau (Londres, 1810-Melbourne, 1880) foi um naturalista que correu o mundo pesquisando peixes e insetos; escreveu várias obras sobre ictiologia e entomologia. Mas o texto aqui resenhado é resultado de sua residência no Brasil como cônsul da França em 1848. Então com perspicácia entrevistou vários escravos na Bahia, alguns com uma semana de estada no Brasil outros já estavam aqui há 30 anos, e perseguiu nesse mister algo no mínimo original: a repetição da informação de seus entrevistados acerca da existência de homens com cauda, no Sudão. O título original do livro é “Apontamentos sobre a África Central e sobre uma nação de homens com cauda que lá de encontram, a partir de testemunho de negros do Sudão, escravos na Bahia”. [Na folha de créditos: ‘rabo ou cauda’ foi grafado ‘gueue’ ou invés de ‘queue’].

Algo que impressiona nos relatos é o detalhamento de fatos. Viagens de algumas semanas são contadas com detalhes: cidades e povoados são assinalados em cada um dos dias do percurso e também descritos rios, animais e povos que foram sendo conhecidos.

É significativo trazer informações acerca de alguns da mais de duas dezenas de entrevistados: uns sabiam ler e escrever em árabe e em líbico [Língua camítica falada pelos antigos berberes ou língua falada pelos líbios], outros no seu país de origem tinham escravos ou eram caçadores de escravos. A maioria era de fé muçulmana e alguns já tinham feito a viagem à Meca e liam o Corão.

Há uma repetição quanto àquilo que era central da investigação de Castelanau: muitos viram negros com cauda, que diziam medir cerca de meio metro de cumprimento e alguns centímetros de diâmetro. Há pelo menos um que diz ter vistos bancos especiais com buracos para acomodar a cola ao sentar. Aqueles dos entrevistados que não conheceram os niam-niams – selvagens com cauda – deles trouxeram referências de relatos de outros que os conheceram.

Poucos historiadores brasileiros puderam se beneficiar dessa obra, que fornece, por exemplo, um detalhado zoneamento das origens dos escravos trazidos ao Brasil. Agora com a publicação, em português, destas Entrevistas com escravos africanos na Bahia oitocentista temos novas possibilidades de conhecer um algo mais de nosso passado. Assim, vale abrir este volume do ‘Baú de Histórias’ e amealhar conhecimentos acerca daqueles que aqui chegaram como escravos e hoje se fazem construtores da gente brasileira. Esse olhar em nosso passado nos oferece no presente melhores elementos para construirmos o futuro.

Quando nos aproximamos da sexta-feira desejo uma recuperadora noite de sono e votos de um novo dia muito bom.



Escrito por Chassot às 23h01
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14MAIO2008*

QUARTA-FEIRA

Porto Alegre

Fundado em 30 de julho de 2006

Ano 2

# 650

Uma quarta-feira feira bonitamente outonal como ontem. Ela também arrastou de ontem emoções da despedida que me foi feita. Chegaram mensagens carinhosas.

De ontem, trago hoje a fala de meu colega Prof. Dr. Danilo Romeu Streck. Não transcrevo esse texto aqui apenas pelas emoções trazidas, mas também pela beleza literária do mesmo. Mais de um dos leitores já escreveu aqui que esse blogue contribui para o aprimoramento da escrita, pois o texto do Danilo tem as bordaduras de quem no Programa de Pós-Graduação em Educação da Unisinos é um dos mais competentes escritores.

Caro Attico, para alguns; Chassot, para outros,

Nosso Attico Inácio Chassot,

Lembro que, na homenagem anterior a colegas que se despediam, sugeri que limitássemos a nossa fala àquilo que cabe em uma página. É difícil fazer caber a riqueza de tua vida em tão poucas linhas, mas também precisamos convir que não estamos aqui para recapitular a biografia e recontar os feitos de um homem que conquistou um lugar importante na educação em nossa região e em nosso país e, o que talvez seja mais importante, ocupa um lugar espaçoso no coração de estudantes e educadores e educadoras de perto e de longe. Para confirmar estes dados, basta conferir o blog que o Áttico alimenta com um carinho quase maternal e um zelo jesuíta. Ali está ele, conversando, contando suas aventuras e, às vezes, desventuras, com muita franqueza e com muito respeito pelas pessoas que encontra pelo caminho.

Para que, de fato, a gente está aqui? Confesso que esta pergunta não está bem respondida. Para comemorar? Comemorar o que, se este fato não foi provocado ou promovido por nós: nem pelo “sainte”, nem pelos “ficantes”. Lamentar? Para isso não precisamos despender tanto esforço. No fim de contas, acho que sobra a idéia de que queremos te dizer, com a nossa presença, algumas coisas como um grupo com o qual conviveste por mais de uma década e no qual deixas a tua marca. É também uma despedida quase que pela metade porque é difícil não ver a ti ao lado da Gelsa quando ela passa no corredor. Nada de fantasmagórico, mas o resultado de uma bonita relação que vocês construíram e continuam alimentando.

Mas o que seria a tal “marca Chassot”? Acho que terei a concordância unânime ao dizer que a primeira marca é a tua curiosidade intelectual e o invejável gosto pela leitura. Quando meus filhos eram pequenos, lia para eles a história de uma lagarta que fazia furos nos livros, entrava neles e os comia. Vejo-te um pouco como esta lagarta insaciável. A diferença, claro, é que acarinhas os livros, o que não impede que algum deles dê um mergulho na piscina. Mostraste para muitos de nossos alunos o caminho da biblioteca e vamos ter que cuidar para que esta cultura de amor aos livros e à biblioteca seja cultivada por nós que ficamos. Este amor aos livros se estende para o amor à escrita. São cerca de 70 artigos em revistas, 28 em anais, cerca de 20 capítulos de livros e 11 livros. Não é pouco para um ritmo de vida como o nosso, marcado por demandas das quais não preciso falar aqui. O último deles: Sete escritos sobre Educação e Ciência (Cortez) lançado durante o ENDIPE, cujo nascimento está descrito passo a passo no blog. CIÊNCIA E EDUCAÇAO – duas paixões que se fundem em teu trabalho. Este amor à palavra escrita também demonstraste na Comissão da Revista e mais tarde como o seu Editor.

Outra marca, Chassot, é um certo espírito imperturbável que te permitiu, como disseste ao entregar a coordenação de nosso PPG, ter assumido como coordenador de um Curso de Mestrado e estar saindo como coordenador de um Programa de Pós-Graduação. Em tua gestão foi planejado e iniciado o Curso de Doutorado, um degrau imprescindível para que chegássemos ao reconhecimento que hoje temos no cenário da pós-graduação em educação. Foi um período difícil, no qual aconteceu uma profunda reestruturação de nosso PPG. Novos colegas chegando, outro agrupamento por linhas de pesquisa, outros desafios acadêmicos sendo postos para um programa que desejava ser um bom programa.

Tem ainda outras marcas: o carinho para com a Gelsa, teus filhos e netos, teus orientandos, teus alunos...enfim, todos nós. A presença marcante da graduação, onde a nossa meninada com certeza sente a tua falta. Digo nossa, porque tu continuas com a meninada, em outras paragens. Menos mal, e não podemos deixar de desejar que continues, lá, tendo o mesmo sucesso que tiveste aqui. A tua presença no Conselho Estadual de Educação, onde basta mencionar a tua luta pelo reconhecimento das escolas do MST. A tua garra nos momentos de problemas de saúde, com a perna que te pregou uma peça e com uma delicada cirurgia. Teria muitas outras coisas para falar, mas já faz um tempinho que o cursou mudou de página.

Acho, no fim das contas, que se estamos aqui, juntos, é para dizer que foste e continuas sendo importante para nós, como pessoas e como Programa. Que queremos lembrar não tanto uma despedida, mas celebrar aqueles 12 anos nos quais tivemos o privilégio de conviver contigo e agradecer por tudo. Desejamos que encontres no teu novo lugar de trabalho (o IPA Metodista) um espaço para continuar casando a educação com a ciência de jeito criativo e provocativo. Um dia a ciência, sim senhora, deixará de ser masculina. Que sejas FELIZ com os teus e as tuas!

Encharcado nas emoções do texto do Danilo desejo a cada uma e cada um uma muito boa noite embalando sonhos para a quinta-feira feira que se avizinha.



Escrito por Chassot às 19h31
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13MAIO2008*

TERÇA-FEIRA

 Uma terça-feira feira marcada pela linda homenagem que recebi do Programa de Pós-graduação em Educação da Unisinos.

Ano 2

# 649

Uma linda terça-feira outonal muito agradável, onde escrevi – ou melhor, meus antigos colegas do Programa de Pós-graduação em Educação da Unisinos escreveram – uma página de minha história pessoal muito significativa. A chegada desse dia não estava sendo trivial para mim. Não foi fácil voltar à Unisinos (na verdade uma passadinha), pela primeira vez, depois de quase dois meses.

Foi uma muito linda celebração no Restaurante Tênis Clube de São Leopoldo. Estavam quase todos os colegas, havia vários mestrandos e doutorando, as funcionárias administrativas e também duas professoras da Bahia que fazem pós-doutoramento no PPGEdu da Unisinos.

A Maria Clara Bueno Fischer abriu a parte formal, com um brinde e depois passou a palavra ao colega Danilo Romeu Streck que vez emocionante discorrida acerca de meu relacionamento com leitura e com a escrita e como tal determina o meu ser e o meu fazer intelectual e também de esposo, pai, avo e amigo. Como não disponho no momento do emocionante texto, ele será trazido aqui em momento oportuno.

Na minha fala comecei contando das dificuldades em chegar a esta terça-feira e especialmente de meus estranhamentos que vivi tão logo ocorreu a rescisão de meu contrato. Disse primeiro que parece usual, que para dar fim às relações amorosas, um dos parceiros (ou os dois) deve criar uma situação de ódio ou pelo menos de desilusão; a Unisinos soube fazer muito bem a parte dela quando, no instante que homologou no sindicato o termino de nossa relação, cortou – mesmo que eu ainda tivesse de levar à defesa dos mestrandos – meu acesso à caixa postal de correio eletrônico. Ela ofereceu assim uma oportunidade para me desiludir dela e reconhecer-me o que (anto e quando) realmente para estas instituições.

 Isto posto, destaquei dois grandes momentos – um próximo e outro remoto – em que me senti querido, dizendo que sentir-se querido era a maior manifestação que temos de pertencimento.  O próximo foi aquele em que, mesmo protestando junto ao Reitor ante minha indignação com a negação do acesso ao correio eletrônico, esse nem sequer me respondeu e, então, a Maria Clara Bueno Fischer moveu céus e terras, para que tivesse restabelecido aquilo que me fazia um indignado despossuído, sendo ainda mantido o redirecionamento de minhas mensagens. Quanto ao segundo momento de grande manifestação de amizade, mais distante, referi que todas as pessoas têm no seu amealhado de recordações onde estavam na manhã de 11 de setembro de 2001: eu sabia onde estavam, então, todos os meus colegas e muitos outros ligados ao PPGEDU: estiveram junto com a Gelsa e comigo no bucólico cemitério do Faxinal no sepultamento de minha mãe. Por isso disse, guardo-os todos comigo envolvidos em imensa gratidão.

Recebi dois mimos: um porta-retrato com uma foto de uma reunião do colegiado, ainda de 2006 quando estavam ainda vários colegas que já não pertencem mais à Unisinos e das funcionárias um CD com fotos de minha trajetória dos 12,5 anos que pertenci à instituição. Eu sorteei entre os presentes dois exemplares de “Sete escritos sobre Educação e Ciências”. Realmente foram momentos emocionantes e podê-los viver ao lado da Gelsa deu um algo mais a emoção.

À noite desta terça-feira se encerrou com as aulas de Políticas de Educação no Brasil com os grupos de História e Filosofia, onde bisei a programação de ontem: uma discussão (não muito trivial) Educação presencial versus Educação à distancia. Antes, todavia fizemos uma excelente discussão, “13 de maio versus 20 de novembro” sustentada pelo número significativo de afro descendentes em sala. Quanto a questão central da aula, não deixa de ser significativo o quanto – talvez marcados por más experiências– há um número significativo de alunas e alunos que rejeitam a segunda modalidade de ensino. Quando se fez um histórico da Educação à distância, a maioria recorda as propagandas do ‘Instituto Universal que havia nos gibis’ e, então, chego mais remotamente e mostro o quanto o apóstolo Paulo, com suas cartas às diversas comunidades evangelizada, prosseguia a evangelização fazendo-a à distância. Mostro também o quanto escrever e ler um blogue pode ser um Educação (não formal) à distancia.

Com votos de uma boa noite e de uma quarta-feira muito boa a cada leitora e a cada leitor.



Escrito por Chassot às 23h15
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12MAIO2008*

SEGUNDA-FEIRA

Sete escritos sobre educação e ciência’ está acessível na livraria virtual de www.atticochassot.com.br

Ano 2

# 648

Uma segunda-feira que sucede a três dias de ausência do mundo doméstico tem exigências para ‘colocar as coisas no lugar’ ou ‘eliminar dividas’ especialmente no que se refere a correspondências. Há rotinas acadêmicas que nos fazem perder muito tempo. Uma destas é o registro eletrônico nos ‘Diários de Classe’ no Centro Universitário Metodista IPA. Como tenho (apenas) quatro turmas dispendo um tempo imenso para registrar o conteúdo desenvolvido, as estratégias usadas e especialmente as faltas dos alunos. O sistema é tão rudimentar que e tão suscetível a erros que causa uma fantástica irritação. Aliás, hoje não foi diferente o com o a atualização do Currículo Latex que registrou dezenas vezes (sem exagero): “A runtime error has ocurred. Do you wish to Debug? Line 5. Error sintax”. Lamentavelmente eu só conseguia ir adiante se respondesse que não queria purificar-me ou não queria livrar-me do defeito de programação. Disse-me muitas vezes: “Ah que saudade do meu lápis e de minha borracha” porque muitas vezes essas máquinas maravilhosas nos irritam e terminam com nossa crença na eficiência da tecnologia.

Hoje me encantou sobre maneira um comentário postado no blogue que transcrevo aqui (até porque ignoro o quanto os leitores lêem os comentários): Olá Professor. Sou formanda do curso de Química Licenciatura pela UNIJUI. No decorrer do curso fiz a leitura de vários livros de autoria, ou que continham citações suas e de Mário Osório Marques, que considerava então serem imortais da literatura educacional. Por fim, há três semanas fiz a aquisição de “Formação Inicial e Continuada dos Professores de Química”, de autoria de meu professor Otavio Aloísio Maldaner. Pude observar nesse livro referências às suas obras, e em aula dialogando com o referido professor procurei sanar uma dúvida que me corroia por dentro: “Professor, pude observar nas referências de seus livros e desculpe a pergunta, mas, Attico Chassot ainda vive?” e o mesmo afirmou-me que sim, e em meio a muitas risadas falou-me um pouco da pessoa de Attico Chassot. Por fim, aproveito a oportunidade para dizer-lhe que visitei seu blog e, após profundas leituras, encantei-me (ainda mais) com seus escritos, e principalmente valiosos ensinamentos. Não leve a mal professor. Por muitas vezes tive a oportunidade de acompanhar seus escritos, e aprender/crescer/amadurecer cada vez mais no que diz respeito à minha formação profissional. E agora ainda mais já que pude, através de seu blog, conhecer um pouco mais e saber um pouco mais sobre o senhor. Ótima semana. Claro, estimada Rúbia, que não vou levar a mal tua curiosidade e o melhor que tem é possa estar te escrevendo (ainda) do reino dos vivos. Talvez não falte muito para que tenhamos (se que já não exista!) blogues psicografados do além. Lá certamente aquele logo que aparece na inicialização dos computadores: “Plug and Play!” seja “Plug and Pray!” Por hora prefiro estar por aqui, nesse mundo real mexendo emaranhado virtual, mesmo com estes constantes não entender essas máquinas quando me perguntam se quero me purificar de erros.

Eu fico feliz que meus textos tenham sido úteis para tua formação como educadora. Espero que breve possas conhecer “Sete escritos sobre Educação e Ciências” que traz alguns capítulos que devem te interessar. No sítio há uma pequena referencia dele. Quanto às leituras do blogue, vou repetir algo que já disse há mais tempo: Meu último livro teve cerca de dois anos de gestação. Há texto que, quando dados à lume estão velhos. Escrever / ler um blogue é uma maneira pós-moderna de fazer Educação. Aqui os textos ficam velhos mais rapidamente. Talvez ninguém vá ler o texto – rapé / rape – que escrevi aqui na quarta-feira, mas o que escrevo hoje talvez circule entre uma meia grosa de leitores durante 24 horas. Aliás, é impressionante como não conhecemos a vida destes textos aqui no blogue. Na semana passada uma artista que trabalhou numa peça teatral que assisti (e comentei) há pelo menos 15 meses fez comentários. Algo que deve colaborar para a vida de um espaço como este a sua regularidade. Não sem razão, mesmo que isso exija esforço – especialmente em viagens ou férias – que desde que iniciei esse blogue eu tenho feito postagens diárias. Essa fidelização autor / leitor deve ser responsável pelo ‘sucesso’ de um blogue.

Estendi-me na resposta à Rúbia, que hoje estreou aqui. Mas sua mensagem merece esse diálogo, também pelo carinho que tenho com meu colega e amigo Professor Otávio Maldaner, que a remeteu para meu sítio. Ontem, no epílogo da blogada falava de textos do Umberto Eco que estavam presentes do Caderno Mais da Folha. Preciso trazer algumas linhas acerca de quem em outra oportunidade distingui com comentários entusiasmados quando ele teve posicionou com objetividade contra Berlusconi.

Quero apenas esparzir alguns excertos da entrevista: [...] Minha relação mais estreita foi com minha avó materna, que foi quem me iniciou na literatura. Era uma mulher sem cultura nenhuma - acho que fez apenas os cinco anos da escola primária-, mas tinha paixão pela leitura.
Ela era cadastrada numa biblioteca, de modo que trazia um montão de livros para casa. Lia de forma desordenada. Um dia podia ler Balzac e, logo depois, um romance de quatro vinténs, e gostava dos dois. E assim fez comigo: ela me dava, aos 12 anos de idade, um romance de Balzac e uma história de amor de qualidade ínfima. Mas me transmitiu o gosto pela leitura.
[...] Raramente se fala do sr. como professor. O que aprendeu para ensinar?  ECO - Antes de mais nada, continuo a aprender. O primeiro curso que dei como professor foi sobre a poética de James Joyce, que aparece em "Obra Aberta". Eu conhecia o argumento, mas, ao começar a dar aula, me dei conta de que não sabia nada sobre o tema.
Aprendi e continuo aprendendo. Quando se escreve um livro, pode-se dar a impressão de saber muito, mas em sala de aula é diferente. O que fiz desde aquela primeira experiência foi falar a partir dos livros que iria escrever, não dos que já havia escrito. Quero dizer que minha relação com os alunos sempre foi uma relação de aprendizagem, porque, ensinando, eu também aprendia.
[...]Uma relação erótica, porque a relação de um professor com um aluno é como a relação de um ator com seu público: quando você aparece em cena, é como se o estivesse fazendo pela primeira vez, e você tem a sensação de que, se não tiver conquistado o público nos primeiros cinco minutos, o terá perdido. É isso o que eu chamo de uma relação erótica, no sentido platônico do termo. Além disso, há uma relação canibal: você come as carnes jovens deles, e eles comem sua experiência. Há pessoas infelizes que passam os primeiros anos de sua vida com pessoas mais jovens, para poder dominá-las, e, quando envelhecem, estão com pessoas mais velhas. Comigo aconteceu o contrário: quando eu era jovem, estava com pessoas mais velhas que eu, para aprender, e agora, tendo alunos, estou com jovens, o que é uma maneira de manter-se jovem. É uma relação de canibalismo; comemos um ao outro. Por isso não deixei de ter relação com a universidade, apesar de ter me aposentado. [...]

Dentro de mais um pouco parto para o Metodista para as aulas de Políticas de Educação no Brasil com os cursos de Educação Física e Biologia. O assunto para a ‘hora da rodinha’ será uma matéria que está na imprensa de hoje. 57% das Universidades particulares não cumpre um dispositivo da LDB – tema que tem estado em pauta em nossas aulas – tendo pelo menos 33% de seu corpo docente com em regime de 40 horas semanais, com parte dela dedicadas a pesquisa.

Encerro com votos de uma boa noite e uma muito boa terça-feira. Sei que esse dia será para mim de emoções fortes, pois recebi da Coordenação do Programa de Pós-graduação em Educação da Unisinos a seguinte mensagem: Prezado Chassot, o Programa de Pós-Graduação em Educação convida para um almoço de confraternização no dia 13 de maio de 2008, 3ª feira, às 12 horas, no Restaurante Tênis Clube (com estacionamento), na Av. Presidente João Goulart, 1080 - São Leopoldo. Na oportunidade vamos prestar uma homenagem a você como colega e amigo que construiu, com o coletivo de professores e alunos, o Programa de Pós Graduação e contribui, decisivamente, para o alcance reconhecido do patamar de qualidade do mesmo. Atenciosamente, Profa. Dra. Maria Clara Bueno Fischer



Escrito por Chassot às 17h35
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11MAI2008*

DOMINGO

 

DIA DAS MÃES

Ano 2

# 647

 O mote fulcral da blogada de hoje só poderia ser aquele que se faz título no cabeçalho: o dia das mães. Não vou filosofar sobre as diferentes dimensões acerca da data que tem um amplo leque de significado que vão desde o merecido culto à maternidade até a exploração comercial das homenagens, mesmo que as propagandas não mostrem mais como sugestão que mulheres devam ganhar panelas ou outros itens da baixela. Claro que se poderia discutir os momentos prenhes de afetos para mães e filhos no receber e dar homenagens e nisso o segundo domingo de maio faz sucesso, mas também o quanto para muitos essa data evoca saudades e até para uma significativa parcela traz mágoas e mesmo lacerante dor tanto para mães e para filhos por diferentes razões, que poderia ser facilmente listadas.

Desde a manhã de 11 de setembro de 2001, quando o Planeta assistiu estarrecido a destruição das torres do WTC em Nova York, vivo diferentemente essa data, pois naquele momento sepultava minha mãe. Desde então vivo a saudade daquela que para mim foi sempre um exemplo de uma mulher sábia, que muito me ensinou até o ocaso de sua existência aos 92 anos. Na minha perda de então vejo concretizada aquela frase que é capitular do último capítulo do “Sete escritos sobre Educação e Ciências”: Quando morre um velho e como uma biblioteca que queima. Minha maior saudade é daquilo que não conversei com ela e muitas vezes parece ainda que tenho questões para inquiri-la.

Mas também na celebração desta data há a vivência forte daquele consolo que no cotidiano nos presenteamos: a vida continua. Esta manhã – em que convivia com a Gelsa, que para mim é um grande exemplo de mãe – estava em um momento precioso com a Ana Lúcia e com a Clarissa, minhas duas filhas que são mães muito queridas. Ao ver a alegria do Guilherme e da Maria Clara, mais que os dulçores do avonado, sentia a vida de minha mãe prolongada naqueles seus dois bisnetos, dos quais uma lhe leva o nome. No almoço familiar ter o privilégio de estar com Liba, que mais do que sogra é para aqueles e aquelas que convivem com ela é exemplo de mulher e de intelectual e com a Laura, que na vida dada ao Antônio me fez avô pela quarta vez, geraram novos momentos de homenagear a maternidade. À noite as alegrias se expandiram na visita tão carinhosa que recebi da Carla, que há quase 9 anos me fez pela primeira vez viver as emoções de ser avô e também na fala com minha irmã Tile em Curitiba, que aquela é a decana dentre as mães de nosso clã familiar. Dizer para a Dione do meu reconhecimento e minha gratidão pelo quanto ela foi / é uma muito boa mãe de nossos filhos e filhas foi como um coroamento desse dia de homenagens merecidas às mães. Realmente a vida continua, mesmo que marcada por uma imensa saudade.

Esse domingo teve ainda fortes recordações de meus três dias de Santa Catarina ontem encerrados. Toda vez que participamos de atividades como essas nos perguntamos se terá valido o esforço material e físico investidos. Hoje recebi uma mensagem do Professor Werther Alexandre de Oliveira Serralheiro, um dos participantes dos dois turnos que desenvolvi com professoras e professores dos CEFETs catarinenses que permito transcrever um excerto: Caríssimo Professor. Eu já estava entusiasmado com a idéia de lançarmos um curso de licenciatura em Física na nossa unidade do CEFET-SC em Araranguá. Este entusiasmo se deve principalmente ao fato da nossa unidade, caçula do sistema CEFET em Santa Catarina e com um corpo de servidores realmente comprometidos com a educação, ser inovadora e fazer diferença econômica e social para a região sul do Estado com este curso.
Meu entusiasmo quintuplicou de tamanho com nosso encontro na semana passada. A Nilva tinha nos dito que virias para desconstruir e balançar conceitos com o firme propósito de reconstruirmos de forma inovadora; só não sabia que seria tanto. A proposta da in-disciplina e da alfabetização científica é um desafio que, a todo minuto que penso nesta licenciatura, me deixa mais apaixonado por ela. Com isto, tenho certeza que estamos no caminho certo e o agradeço por fazer parte desta caminhada
. Realmente isso me entusiasma e dá garra para outros continuados envolvimentos.

Também as emoções dos dois turnos do dia de ontem no Curso de Especialização de Educação de Jovens e Adultos no Campo do MST estiveram presentes em meu domingo. Talvez, aquele pote de mel de abelhas africanas trazido do Maranhão, que me foi ofertado pela Mari, em nome do grupo, traduz um pouco da doçura que sinto pelo dia de ontem. Vez ou outra me assaltam as discussões de então e o quanto gostaria de voltar a estar com aqueles 37 Educadoras e Educadoras de 17 estados do Brasil.

Queria ainda comentar algumas leituras de hoje. Protelo para amanhã, mas antecipo que mais uma vez o Caderno Mais da Folha de S. Paulo dominical está excelente. Eis uma pitadinha para amanhã, trazida de entrevista com Umberto Eco, tema de capa: O bom do envelhecer é relembrar a infância. Por ora votos de uma muito boa semana a cada uma e a cada um.



Escrito por Chassot às 22h52
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