|
27AGOSTO08* Quarta-feira |
Este blogue tem uma edição diária desde 30JUN06 |
Ano 3 # 755 |
Falar que a quarta-feira foi um dia primaveril dentro do inverno é equívoco. Foi um legítimo veranico agustino. Já se começa fazer previsões de como será o verão. Hoje almocei com o casal Mercedes e Filidoro. A ela, tive o privilégio de conhecer hoje e com os dois rememorei os melhores momentos do gostoso encontro que ontem narrei aqui. À tarde estive no Centro Universitário Metodista IPA para uma reunião do grupo do Mestrado em Direitos Humanos, Conhecimento e Sociedade.
Hoje foi publicado o quarto e último capítulo da quixotesca tragi-comédia: ‘Os plantadores de florestas’ que como tenho dito aqui seria mais adequado chamar-se ‘Os fazedores de desertos’. A série, profusamente ilustrada e com chamadas de capa começou no domingo com A batalha do plantar (24/8) e então, aqui Mostrei, tomando excertos do texto duas leituras: uma, o relato triunfalista de uma epopéia vitoriosa e outra uma muito bem urdida romantização de uma escravatura. Na segunda-feira com Economia adubada (25/8) o propósito era mostrar como o Rio Grande estava ficando mais rico quando uns venderam suas terras para multinacionais e então construíram prédios na cidade ou um bolicho que antes não tinha movimento agora vendia mais lanches para novos ‘escravos’. Ontem com a matéria Polêmicas semeadas (26/8) diferentemente do que imaginava – que se trouxesse uma visão crítica ao milagre –, o que se fez foi uma leitura do tipo: ‘vejam como há ainda os que atrapalham e resistem ao milagre’ e mais, mesmo que haja descontentes, é preciso ver que entre os que estão ‘contra a salvação’ há os neo-conversos.
Eis os três edificantes exemplos mostrados como as novas oportunidades: Joabel Barbieri viveu a infância em meio à plantação de fumo, junto à pesada lida da lavoura: produzir mudas, preparar o solo, plantar, cortar a planta a facão, secá-la no galpão, fazer os fardos. A família levava – e ainda leva – uma vida simples no interior de Pinhal Grande, Região Central, mas não faltou dinheiro para dar um computador ao filho, quando ele tinha 15 anos, nem estímulo à educação. Ao terminar o Ensino Médio, Barbieri concluiu que havia dois cursos aos quais se adaptaria: agronomia e engenharia florestal. A decisão foi tomada quando empresas de celulose anunciaram investimentos no Estado. Hoje, aos 24 anos, o engenheiro florestal, formado pela Universidade Federal de Santa Maria (UFSM), não se arrepende. Logo após a formatura, no início deste ano, foi contratado pela Stora Enso, por um salário de cerca de R$ 2 mil. No trabalho, associa o conhecimento de campo ao de informática, produzindo mapas florestais no escritório de Rosário do Sul.
Eis mais um: Nascido em Unistalda e formado em engenharia agrícola pela Universidade Regional Integrada do Alto Uruguai e das Missões em Santiago, Gilson Atarão não imaginava que conseguiria emprego para nível superior na terra natal. Desempregado desde outubro de 2006, ele negociava uma vaga com uma empresa de Não-Me-Toque, distante 350 quilômetros de casa, quando se instalou em Unistalda um escritório da Reflorestadora Nativa.”Levei o currículo (na Reflorestadora Nativa) e, em 10 minutos, estava contratado – lembra o encarregado de operações da empresa.
E o terceiro: Jean Lander repõe no bufê a batata frita, serve refrigerante. Quem vê a intimidade do garçom com a bandeja pensa que o ofício é rotina para o garoto de 19 anos. Mas não. O futuro de Jean aponta para fora do comércio dos pais, na beira da estrada que leva a Cerrito, Zona Sul do Estado. Ele só trabalha ali quando está de férias da faculdade de Engenharia Industrial Madeireira, curso escolhido quando os investimentos em florestas começaram a movimentar as estradas da região.
Temos que reconhecer, que salvo o primeiro artigo que trouxe cínicos argumentos de uma narrativa triunfalista e mascarada. Olhando o conjunto das quatro, só nos resta lembrar de uma das muitas historinha do escritor dinamarquês Hans Christian Andersen que embalaram nossos sonhos de crianças e gritar: “O Rei está nu!
Para deixar os textos apelativos de Zero Hora, como encerramento destes quatro dias em que fomos quase expectorados pelo eucaliptol, encerro esse série trazendo ‘vinho de outra pipa’ de uma fase anterior ao milagre que deslumbra os tolos. Concluo com Leonardo Boff:
“O estado da Terra em América Latina em movimento” começa assim: Cada ano, desde 1984, o Worldwatch Institute dos Estados Unidos publica um informe sobre o estado da Terra. Este estado assusta cada vez mais. A Terra está enferma e ameaçada. Das muitas constatações nos referiremos somente a duas.
A primeira: o ser mais ameaçado a Terra hoje é o pobre. Cerca 70% da humanidade vive no Grande Sul pobre, um bilhão de pessoas vivem em estado de pobreza absoluta, três bilhões de 5,3 bilhões têm alimentação insuficiente, 60 milhões morrem anualmente de fome, e 14 milhões de jovens abaixo dos 15 anos morrem anualmente como conseqüência das enfermidades da fome.
A segunda: as espécies de vida correm riscos similares ameaça. Algumas estimativas dizem que entre 1500 e 1580 foi, presumivelmente, eliminada uma espécie a cada dez anos; a partir de 1990 está desaparecendo uma espécie por dia. A continuar este ritmo, brevemente desaparecerá uma espécie por hora. De todos os modos, há uma máquina de morte que se move contra a vida das mais variadas formas.
O modelo de sociedade e o sentido da vida que os seres humanos projetaram para si, pelo menos nos últimos quatrocentos anos, está em crise. O modelo era e continua sendo este: “O importante é acumular riqueza material, bens e serviços a fim de poder desfrutar a curta viagem por este planeta”. Para alcançar este propósito, nos apoiamos na ciência e na técnica, que atua para beneficio dos homens. Tudo isso se faz com a máxima velocidade possível e se procura o máximo de benefício com o mínimo de inversão no mais curto prazo de tempo possível.
O ser humano nesta prática cultural se considera como um ser sobre a natureza e dispõe dela como deseja; jamais pensa em si mesmo como alguém que está junto à natureza, como membro de uma comunidade maior, planetária, cósmica. O efeito final, somente visível agora, é este: “A Terra é suficiente para todos, porém não para a voracidade dos consumistas” (Ghandi).
Na expectativa que nesses quatro dias de reflexões possamos ter nos convencido que a Zero Hora engana seus leitores, faço votos de uma muito boa quinta-feira, quando, então, nos encontraremos.
|
26AGOSTO08* Terça-feira |
Este blogue tem uma edição diária desde 30JUN06 |
Ano 3 # 754 |
Uma terça-feira em que este blogue é postado ao sair para o Centro Universitário Metodista IPA para as duas vezes duas aulas de Didática com as turmas de História (às 19h20min) e Música (às 21h10min). A tarde mais uma vez primaveril trouxe-me um presente excepcional. Recebi por mais de duas horas – pareceram menos de um quarto de hora – o Prof. Dr. Osvaldo José Filidoro, que chegou no começo da tarde de Buenos Aires. Filidoro é psiquiatra e professor no doutorado em psiquiatria da Universidade jesuítica del Salvador. A sensação que um e outro nos dissemos, quando encerramos o encontro, com desejo de quero mais, é que nos conhecíamos desde antanho. Se houvéssemos gravado a conversa teríamos pronto um muito bom livro de História e Filosofia da Ciência. Foi realmente um presente dos deuses que recebi nessa ágape intelectual.
O assunto da blogada de hoje não se constituiu interrogação para meus leitores. Assim como no domingo e ontem e, também amanhã, faço o contraponto a serie de quatro artigos de Zero Hora ‘Os plantadores de florestas’ cuja matéria também seria mais bem batizada de ‘Os fazedores de desertos’. No texto anunciado para hoje Polêmicas semeadas havia inferido que mostrariam o outro lado da moeda. Ledo engano meu. Se diz na abertura que “não é sem questionamentos que as florestas plantadas ganham espaço no Estado. A discussão ecológica, a oposição dos sem-terra e a legislação sobre a atuação de empresas estrangeiras no país tornaram-se obstáculos para o desenvolvimento da atividade no Rio Grande do Sul”.
Diferentemente do que imaginava – que se trouxesse uma visão crítica ao milagre –, o que se faz é uma leitura do tipo: ‘vejam como há ainda os que atrapalham e resistem ao milagre’ e mais, mesmo que haja descontentes, é preciso ver que entre os que estão ‘contra a salvação’ há os neo-conversos.
Tal pode ser visto nos relatos de abertura da matéria de hoje, que em número de linhas é 1/3 daquela de ontem e ainda bem menor que a de domingo: Vizinho de uma área onde a Votorantim Celulose e Papel (VCP) trabalha no plantio de eucaliptos em Capão do Leão, o agricultor Ciro Vasconcelos não cogita implantar florestas em sua pequena propriedade, na qual mantém 50 cabeças de gado e planta quatro hectares de milho. Tem medo que as árvores “sequem as vertentes” e terminem com a produção de alimentos na região. José Luiz Lucas, de Cerrito, pensa diferente. Parceiro da papeleira desde 2005 e produtor florestal modelo, sempre indicado pela empresa para demonstrar à imprensa e a clientes as virtudes do eucalipto, Lucas é um apaixonado pela atividade. Na sua área, as árvores foram plantadas espaçadamente para permitir consórcio com criação de gado. É lá que ele estufa o peito para mostrar o banhado contíguo às árvores e dizer que a floresta não afastou animais silvestres, como gato do mato, de suas terras. Grotesca comparação!
Mas os argumentos se tornam mais ridículos quando são trazidos as vozes da Universidade: Ambientalistas e alguns pesquisadores alegam que o eucalipto consome muita água e podem secar banhados e rios, que as grandes áreas plantadas impedem a circulação da fauna nativa, que as árvores bloqueiam o crescimento da vegetação rasteira nativa do Pampa. “O problema é a transformação de uma paisagem de campo, criada pela natureza, em uma densa cobertura arbórea” afirma o professor do Instituto de Biociências da Universidade Federal do Rio Grande do Sul, Ludwig Buckup. De tudo que o Prof Buckup – um paladino da preservação do ambiente –, escreveu, selecionar esse trecho é algo no mínimo detentor de má fé.
Não podemos perguntar a opinião da Ciência acerca do assunto. Não existe o ente Ciência. Existem homens e mulheres que fazem Ciência e têm opiniões dispares. Eis exemplo: Representantes de empresas florestadoras [sic] e outros pesquisadores dizem que as áreas de preservação, de aproximadamente um hectare para cada hectare plantado, compensarão a alteração da paisagem. Que o eucalipto seqüestra carbono do ar, combatendo o efeito estufa. E que as folhas que caem das árvores sob a sombra enriquecem o solo. “A área de plantio de eucalipto no Estado é relativamente pequena para modificar o ecossistema do Pampa – afirma o engenheiro florestal José Mariano da Rocha, professor da Universidade Federal de Santa Maria.
O auge da matéria de hoje é quando se tenta mostrar que há racha no MST, assim mostrada: Às margens da rodovia que liga Pinheiro Machado a Piratini, na zona sul do Estado, uma velha placa com a insígnia do Movimento dos Trabalhadores Rurais Sem Terra (MST) lembra que a região é crivada de assentamentos. O que não impede que aflorem matos de eucaliptos. A introdução do florestamento nos domínios do MST causou um racha na organização, que sempre teve posição contrária à cultura e chegou, no início de 2007, a cortar matos recém-plantados por assentados. Dos cerca de 650 hectares cultivados por cem beneficiários da reforma agrária, em parceria com a VCP, cerca de metade foi cortada em ações de protesto. Do que restou, uma parte está em bom estado e outra em más condições de conservação ou mesmo abandonada. [...] Outra parte resistiu. Foi o caso de Jocelito Moura, que se desligou do MST. No seu lote de 44 hectares em Piratini, oriundo de reforma agrária promovida pelo governo estadual, fez 20 hectares de floresta, que hoje também serve de abrigo para ovinos. [...] Procurado por Zero Hora, o MST não se manifestou sobre a polêmica.
A matéria Polêmicas semeadas não traz muito mais. Assim, adito alguns parágrafos do texto Ainda acerca de um assim chamado ‘florestamento’ que escrevi no ano passado e enviei a Zero Hora que não o publicou. O artigo foi publicado na ‘Folha do Meio Ambiente’ Brasília, p. 29, Ano 18, n. 178, junho de 2007. Posso enviar a integra de este texto a quem o desejar.
Trago algo que aprendi muito recentemente com uma produtora de finas castas de uva. Isso aumenta em mim ser contrário a fazer de parte do Rio Grande um deserto verde. Uma das regiões atingida pela gana dos ‘produtores de celulose’ para os países centrais é aquela que mais recentemente os viticultores encontraram como muito apropriadas a uvas mais nobres, na bacia do Camaquã (Encruzilhada do Sul, Bagé, Caçapava...). Plantações de eucaliptos prejudicam as terras lindeiras usadas para viníferas em duas outras situações (que não aquelas já conhecidas de extrair água e nutrientes do solo): Uma, as imponentes árvores, que podem chegar a mais de 50 metros, produzem extensas regiões de sombra várias vezes maiores que a sua altura; sabemos o quanto a ‘incidência de sol’ é uma exigência necessária para a qualidade da uva. A outra, as partículas odoríficas, emanadas quando da floração do eucalipto ‘contaminam’ a videira quando de sua florescência, transferindo assim para uva e, desta para o vinho, sabores indesejados. São os mesmos aromas que fazem do mel originado floradas de eucaliptos tão apreciado.
É preciso recordar que existem substâncias com efeitos alelopáticos, ou seja, compostos orgânicos desprendidos por vegetais que prejudicam outras plantas e as impedem de estabelecer-se na vizinhança. Na maioria dos casos pode se tratar de eteno, de óleos etéreos, de derivados de fenóis ou da cumarina, de alcalóides, de glicosídeos, todos liberados em profusão no ar. São os aromas que apreciamos em um mato de eucalipto. As espécies de Eucalyptus são importantes fontes de emissão de substâncias alelopáticas.
Não é sem razão que a legislação ambiental no mundo inteiro exige uma separação grande – uma área de "amortecimento" –, entre as culturas de Eucalipto e a paisagem nativa ou outros tipos de cultivo. Vale estar atento a mais esse prejuízo que a daninha plantação de eucalipto pode trazer a terras hoje destinadas a cultivares mais nobres.
Como encerramento desta terceira blogada deste duelo de Davi versus Golias ou AC versus RBS – é preciso registrar que impacto na vida das pessoas – especialmente daquelas mais pobres – decorre dos desajustes no uso e abuso dos recursos de nosso Planeta, e isso se torna uma problemática vivencial, porque está muito perto de nós. O Rio Grande do Sul que está sendo desertificado é aqui. Aguardemos a quarta rodada amanhã.
|
25AGOSTO08* Segunda-feira |
Este blogue tem uma edição diária desde 30JUN06 |
Ano 3 # 753 |
A tarde é tão gostosamente ensolarada que me presenteei trazer minha escrivaninha (=notebook) para os jardins e trabalhar em local que posso imaginar deveria ser semelhante ao paraíso, onde na tradição judaico-cristã, Eva perdeu aos humanos curti-lo para sempre. Como aqui não tenho macieira, deverá uma mudança no script, e avisar a serpente que faça a sedução com amoras que estão lindas e sumarentas.
Como anunciei ontem, os assuntos das blogadas dos primeiros dias da décima semana de inverno [Atenção: outra alteração no roteiro, pois tudo se parece primavera; as plantas, como já relatei, se atrapalham e estão em trajes primaveris] estão pautado pela RBS – a poderosa Rede Brasil Sul de Comunicações –: comentar a cada dia suas loas no fazer de metade do Rio Grande Sul um deserto verde.
Ontem, trouxe aqui o primeiro capítulo da série de 4 temas então anunciados: ‘Os plantadores de florestas’ quando mais adequadamente o tema dominical de abertura, deveria se chamar ‘Os fazedores de desertos’. Mostrei, então, tomando excertos do texto que o mesmo ensejava, sem que precisássemos ter uma mais densa formação em análise do discurso, duas leituras.
A primeira a de um relato triunfalista de uma epopéia vitoriosa. Basta que olhemos alguns dos parágrafos que tomei para ilustrar. Parece que estamos diante de narrativas épicas como a dos judeus atravessando o deserto para conquistar a Terra Santa ou os cristãos retomando a Península Ibérica que estava ocupada por infiéis. Realmente não deixa de ser emocionante a descrição que se faz desta nova cruzada: substituir toda qualquer planta, pelo salvador eucalipto. Assim como os ‘colonizadores’ chegaram à America e substituíram (ou tentaram substituir) todas as crenças e costumes pela sua maneira de viver a vida, agora a só há uma máxima: plantar em tudo e por tudo eucalipto.
Outra leitura que o mesmo texto apresenta é uma tessitura que evidencia o quanto se pode fazer uma romantização de uma escravatura. A esse propósito, para que não pareça que eu esteja vendo cabelo em ovo, por uma admirável coincidência, o caderno Mais da Folha de S. Paulo, que por condições climáticas, só recebi depois que já tinha postado este blogue, mostra o quanto no Estado de São Paulo, os trabalhadores que fazem a colheita da cana-de-açúcar vivem em períodos pré-abolicionistas. Claro que a diferença do texto do Mais é que este reconhece a existência de trabalho escravo, mesmo que a abolição da escravatura tenha ocorrido, tardiamente, há 120 anos. No texto de abertura, no caderno ‘Dinheiro’ da Zero Hora, se doura a pílula’ para mostrar a quão caridosa é a redenção (= exploração) dos heróis alcunhados como os plantadores de florestas, ou mais corretamente dizendo os ‘fazedores de desertos’.
Tomo a liberdade de sugerir a quem não leu o texto de ontem a olhá-lo. Vale a pena ver como certa imprensa julga que somos imbecis.
Antes de ater-me na matéria de hoje O AVANÇO DO EUCALIPTO (2) ECONOMIA ADUBADA, que já antecipo: contestá-la é como bater em cachorro morto, tão risível são os exemplos trazidos pela reportagem para mostrar como investimentos no setor geram renda e mudam a história de fazendeiros e de moradores do meio rural, preciso responder um questionamento recebo, numa tentativa de responder ao encerramento que fiz ontem, quando deixava uma questão: Destruir terras férteis para plantar celulose para que?
Eis interrogações trazidas pelo leitor Vicente R. da Argentina: Tengo un amigo que es ingeniero agrónomo que siempre está hablando sobre lo perjudicial de sembrar masivamente eucalipto, porque es una planta depredadora: no sólo no deja espacio para cohabitar con otras plantas, sino que absorbe todos los nutrientes de la tierra y, a mediano plazo, la vuelve estéril. Por otra parte, sin celulosa no hay libros. Nosotros, amantes de los libros, ¿qué haríamos sin ellos? Difícil conciliación aquella de balancear el desarrollo/consumismo con las necesidades. Difícil conciliar la producción con sus mas de una vez ya anunciadas propuestas de una jardinería en el Planeta.
Talvez a questão central em uma tentativa de responder as interrogações trazidas pelo Vicente é vermos o destino da celulose produzida aqui. Ela se destina a países europeus, especialmente da Europa do norte para a produção de jornais. Isso demandaria extensas análises. A primeira: Por que a Europa não usa de suas terras para plantar árvores para a produção de celulose?
Há duas razões principais: a primeira, desejam preservar seu solo. Sabemos o quanto o eucalipto é um predador de solos, alterando a produtividade dos mesmos com modificações drásticas de ecossistemas. Terras onde houve matos com eucalipto depois se tornaram devolutas; mananciais aqüíferos (inclusive grandes açudes) secaram e o solo ficou pobre, pois nutrientes como fosfatos são literalmente exauridos de onde cresce o eucalipto. É preciso lembrar que num mato dessa planta exótica não chegam pássaros e nem mesmo insetos. A segunda, que a produção da pasta de celulose a partir da madeira do eucalipto e depois a transformação desta pasta em papel é um processo que degrada as águas e o ar, com um consumo muito grande de água. Assim os países centrais elegem países periféricos para vir aqui desertificar solos, consumir e poluir águas. Temos muitas alternativas de produção de papel para livros sem que precisemos fazer desertos.
Agora alguns comentários acerca da matéria “Economia adubada’, Ela é formada por relatos de bem sucedidos em função da chegada da redenção da metade Sul. São descrições tão pífias que não mereceriam gastar tempo e espaço na sua transcrição. Eis alguns dos milagres.
Terras valorizadas Felipe Nobre irá investir parte do dinheiro da venda de 250 hectares para uma florestadora na construção de um prédio. [...] Aracruz, Stora Enso e VCP devem adquirir cerca de 300 mil hectares no Estado, injetando pelo menos R$ 1,2 bilhão no bolso de produtores. [...] Há dois anos, o veterinário Felipe Nobre vendeu, por cerca de R$ 750 mil, pedaço de um campo herdado. Parte do faturado serviu para a compra de um apartamento, e a outra fatia deve ser investida na obra de imóvel em São Gabriel. [...]
Ele é da turma A picape ladeia o mato de eucalipto, as árvores formando uma parede vazada rente ao veículo. Ao volante, o produtor rural Nadir Noguez enche a boca para elogiar a própria floresta. - Mas tá ficando lindo! Olha, ficam retinhas (as linhas de árvore)! Parece (o rastro de uma) bala! Os 80 hectares de eucalipto, com venda de madeira garantida para a VCP, foram a salvação da lavoura para Noguez. A história, ele conta ao descer da picape e adentrar o mato. Debaixo das árvores, já com mais de 15 metros de altura, o sol desaparece, e é como se alguém tivesse ligado o ar-condicionado.
A safra do bolicho Vila da Palma é uma comunidade rural [...] Há aproximadamente três meses, as coisas mudaram na Vila da Palma. Caminhões de adubos, tratores, automóveis e ônibus começaram a circular. Sem contar cinco novos moradores que alugaram uma casa. Tudo em razão de uma floresta de eucalipto que a Aracruz está plantando em fazenda comprada na área. O movimento causou uma revolução na rotina de Sérgio e Lúcia Rodrigues, donos de um pequeno bolicho na Vila da Palma - armazém que vende os secos e molhados básicos, incluindo fumo de rolo e aguardente. A pedido dos trabalhadores ligados ao eucalipto, os bolicheiros começaram fazer viandas de almoço e a preparar café e bolo. As vendas duplicaram. Resta saber se a bonança irá durar, uma vez que o eucalipto precisa de mão-de-obra intensiva nos primeiros dois anos e no corte, no sétimo ano. Para que haja atividade constante, seria preciso plantio de novas áreas.
Surfista campeiro O administrador de empresas Flávio Herter não era o que se pode chamar de homem do campo. [...] Em 2007, Herter fundou a Combate Serviços Florestais, investimento de R$ 300 mil. Com frota de três quadriciclos, a empresa fechou contrato com a VCP para aplicar formicida em 9 mil hectares. Enquanto negocia contratos, Herter vive pelos campos gaúchos. Só não larga o jiu-jitsu e o surfe, no verão, no litoral gaúcho.
Com a promessa de trazermos amanhã a leitura da terceira série do novo milagre redentor, a expectativa de nos lermos então.
|
24AGOSTO08* Domingo |
Um convite: visite a livraria virtual em www.atticochassot.com.br |
Ano 3 # 752 |
Aqueles que ouviram as trovoadas e as chuvas torrenciais da madrugada dominical não poderiam imaginar que houvesse sol, quando do lindo espetáculo de encerramento da Olimpíada chinesa e momento que ao ler a Zero Hora sou tomado de indignação. Mas não vou comentar o domingo ensolarado. Vou trazer uma tragédia. Aliás, esse 24 de agosto na história brasileira, há 54 anos associou-se a outro dia de São Bartolomeu, ou melhor, a uma noite de São Bartolomeu, um episódio sangrento na repressão dos protestantes na França pelos reis católicos franceses. As matanças, organizadas pela casa real francesa, começaram em 24 de Agosto de 1572 e duraram vários meses, inicialmente em Paris e depois em outras cidades francesas, vitimando entre 70.000 e 100.000 protestantes franceses (chamados huguenotes). No Brasil, em 1954, em muitas cidades brasileiras houve quebra-quebras violentos relacionados com o suicídio de Getúlio Vargas.
A tragédia que me ocupa hoje está festejada na Zero Hora como se fosse uma grande vitória ou um êxito triunfante. Antes de trazê-la, preciso aditar uma explicação. Em entrevista, na sessão memória de meu sítio, respondia ao IHU, em 2002, acerca de ‘jornais que costumo ler – Assino a Folha de S. Paulo e Correio do Povo. Sou visceralmente contra a Zero Hora. Não consumo produtos RBS’. Devo registrar que mudei, não que RBS houvesse mudado. A conjuntura da imprensa de Porto Alegre se transmutou. Abandonei o Correio do Povo, do qual era leitor desde que ensaiei as primeiras juntadas de letras e também ‘rasguei minha carteirinha de guaibeiro’ que ostentava desde que a Rádio Guaíba foi fundada. A aquisição pela IURD do ex-grupo Caldas Junior me fez ser consumidor do que antes negava.
Mas esse novo consumo não significa que adira ao consumido. A Zero Hora de hoje traz uma triste chamada de capa: Os plantadores de floresta. O caderno Dinheiro apresenta na capa um simétrico e asséptico ‘mato de eucalipto’ mentirosamente chamado de ‘floresta’ que deseja ser transformado naquilo que é título do caderno. Além da matéria nas páginas centrais, há informação de que a partir de amanhã teremos um tríduo de loas aos eucaliptos.
O texto de hoje traz duas leituras: um relato triunfalista de uma epopéia vitoriosa e outra uma muito bem urdida romantização de uma escravatura. Vou apresentar alguns excertos para evidenciar uma e outra leitura.
Eis relatos de uma epopéia triunfante: O AVANÇO DO EUCALIPTO (1) A batalha do plantar: É com disciplina quase militar que, diariamente, centenas de frentes de trabalho partem de cidades gaúchas para plantar, adubar e tratar áreas de florestas. Incorporaram-se à rotina da Metade Sul desde que empresas de celulose começaram a investir na expansão do eucalipto. [...] Ainda é noite em Piratini. Um ruído abafado e contínuo interrompe o diálogo estridente dos galos e atravessa as ruas de paralelepípedo da histórica Capital Farroupilha, no Sul do Estado. É o som dos motores de ônibus, que às 5h30min percorrem o município para recolher em casa, trabalhadores ligados ao plantio de eucalipto. [...] Somente os novos investimentos da Aracruz, VCP e Stora Enso ocupam hoje 2,5 mil pessoas, especialmente nos campos da Metade Sul. Incluindo empregos indiretos, estudo da Fundação de Economia e Estatística aponta que esses empreendimentos florestais podem empregar, em média, 80 mil pessoas por ano até 2011. [...] Nas linhas de plantio, o exército continua com a rotina da manhã. Dois supervisores acompanham de perto os movimentos. Com pedaços de taquara de dois metros, eles verificam se as mudas foram colocadas no solo respeitando essa medida. Apesar do calor de verão em pleno inverno, calça, bota e uma proteção contra animais peçonhentos sobre a perna são itens de segurança. O chapéu de palha ou boné protegem do sol, e também são obrigatórios. [...] Sem ordem ou combinação, levantam-se. Pegam suas caixas, com capacidade para 55 mudas e as prendem ao corpo por uma faixa parecida com um talabarte militar. A própria organização das tarefas evoca táticas de guerra. Cerca de 30 plantadores iniciam o trabalho lado a lado, cada um em uma linha de plantio, e avançam juntos, enquanto o restante do grupo faz o suporte. Quando um encerra a sua reta, assume a dianteira não plantada, de forma a não deixar nenhuma linha a descoberto. [...] O desafio do dia é plantar cerca de 30 hectares de um total de 70 mil que as três papeleiras pretendem fazer em 2008. Apenas para dar conta das novas indústrias de celulose, serão necessários cerca de 360 mil hectares até 2015. Todo o plantio é feito manualmente, o que faz com que a atividade florestal, mesmo que o trabalho de campo se concentre nos dois primeiros dos sete anos de crescimento do eucalipto, empregue uma mão-de-obra em média duas vezes maior do que a agricultura e 10 vezes maior do que a pecuária. [...] Aqui, cada muda sai da mão de um trabalhador. A rotina é estafante e repetitiva: chutar torrões de terra acumulados nas linhas de plantio, abrir um buraco no solo com o saraquá (a ferramenta de plantio), atirar a muda de eucalipto pelo tubo de PVC que compõe o instrumento, dar mais uns chutinhos no chão para fechar o sulco e enterrar a planta. E repetir tudo dois metros à frente. E ainda outras 1,4 mil vezes no mesmo dia, por pessoa.
Vejam a romantização da escravatura: [...] Pouco antes das 6h, cerca de 160 funcionários se perfilam em frente ao relógio-ponto instalado na garagem da casa que abriga a Wachholz, empresa que realiza serviços de plantio e manutenção de florestas para a Votorantim Celulose e Papel (VCP) e outras companhias da cadeia. Apenas essa prestadora despacha, por dia, dois ônibus, dois microônibus e três vans com mão-de-obra para os campos de eucalipto. [...] Os ônibus deixam Piratini em direção ao campo poucos minutos depois das 6h. Um deles, com 40 trabalhadores, se dirige à Fazenda Ideal, propriedade de 218 hectares comprada pela VCP em Capão do Leão. Dentro do veículo, o silêncio só é cortado pelo rádio do motorista, em baixo volume, tocando música sertaneja. Quase todos aproveitam o embalo da estrada esburacada para emendar o sono, interrompido no intervalo entre a cama e o relógio-ponto. Poucos são testemunhas do raiar do dia. [...] Os camponeses envolvidos na atividade são responsáveis por plantar mudas, aplicar adubo e combater formigas, e ganham salário médio mensal de R$ 600. [...] Uma hora, aproximadamente, é o tempo que a turma leva para chegar à propriedade. Vagarosamente, alguns com olhos semicerrados, deixam o ônibus. Acomodam-se em pequenos bancos embaixo de uma lona verde, instalada como QG. É hora do café da manhã. Cada um come seu pedaço de pão, fatia de bolo ou pastel preparado pela esposa. Para acompanhar, geralmente café, quente, em térmicas trazidas de casa, ou nem tanto, acondicionado em garrafas plásticas. É o estimulante para as primeiras conversas do dia, enquanto o sol levanta, dissipando a névoa branca que encobre o solo feito nata. O desjejum é rápido. Menos de 10 minutos. [...] O cansaço dos plantadores começa a aliviar às 17h30min, com o sol já baixo no horizonte. É hora de um último café morno com pão e, então, de pegar o ônibus de volta. A maioria dorme no trote do motor, em meio ao cheiro do suor produzido por um dia de trabalho. Muitos só acordam às 19h, quando o veículo desliga no escritório da Wachholz. Batem o cartão e, enfim, a pé ou de ônibus, vão ao encontro de suas famílias, de casa. Já é noite em Piratini. [...]
Não questiono hoje – e já antecipo que nos próximos três dias acompanharei (e se possível contestarei aqui) o tríduo laudatório – porque fazer essa epopéia para plantar matos de eucalipto homogêneos, jamais se poderia falar em florestas. Ao invés do título ‘Os plantadores de florestas’ a matéria também podia chamar-se ‘Os fazedores de desertos’. Mas sobre isso falo ainda. Só deixo uma questão: Destruir terras férteis para plantar celulose para que? Agora tenho espaço apenas para agradecer a companhia dominical e desejar uma boa semana.
23 AGO 2008 SABADO **** ano 3 # 751
Ainda era aquela hora que noite se alterna com o dia, quando mateava com Enrique, quando ele me pergunta, sem que houvéssemos comentado o assunto: ‘Qual será o assunto do blogue de hoje?’ Minha resposta foi contar-lhe o que escrevera ontem, quando trouxe a interrogação de minha mãe.
Pois, ainda a propósito do blogue de ontem, depois que o mesmo foi postado, a Gelsa e eu recebemos para um chimarrão que inaugurou o shabath o Alfredo Culleton e o Enrique del Pércio (Quem é quem: edição desta quinta-feira). Tivemos um papo muito agradável. Este se prolongou depois que o Alfredo se retirou, com o Enrique, pois ele jantou conosco e pousou na Morada dos Afagos, de onde saiu, esta manhã, rumo a Bento Gonçalves para um Congresso. Foi uma muito gostosa fruição de simpática e agradável companhia.
Por diferentes razões, recordei hoje o primeiro ano de escola. Remexo o baú onde coleciono saudades e disso faço um pequeno texto, redigido junto a lareira, num sábado frio, que trago aqui.
Nasci em Estação Jacuí, um lugarejo entre Santa Maria – o grande centro ferroviário do estado então – e Cachoeira do Sul – a cidade a qual pertencia a vila de Restinga Seca, a quem se subordinava Estação Jacuí. Meu mundo, quando criança, se resumia a estas duas cidades, pois os trens que marcavam a vida do lugarejo tinham para mim só duas procedências e só dois destinos: Santa Maria e Cachoeira. Talvez a minha mais distante reminiscência seja a enchente de maio de 1941. Mesmo que só tivesse 1,5 ano tenho alguma evocação. Voltávamos de Triunfo para nossa casa em Estação Jacuí e parece que o trem de passageiro que estávamos era o primeiro a passar sobre a ponte do rio Jacuí depois da enchente. É provável que essa lembrança possa ser imaginação, mas lembro – claro que isso é posterior – que na porta da cozinha da nossa casa havia uma plaquinha a cerca de 0,5 metro do piso indicando até onde havia chegado a água.
Só entrei para escola em 1947, quando já tinha completado sete anos. O pretexto foi ‘esperar’ a idade de escolarização de meu irmão Sirne, que era um ano e 18 dias mais novo que eu. Recordo que tive um incipiente ensaio de alfabetização anterior o ingresso na educação formal. Recordo, que antes de ir para a escola possuía uma lousa - uma lâmina de ardósia enquadrada em madeira – para nela se escrever ou desenhar com ponteiros (ou estiletes) da mesma pedra (ardósia). Lembro que havia algumas dessas “pedras” que tinham em um lado linhas duplas para caligrafia e no outro lado, quadriculados para as “contas de aritmética”. Dizer para um adolescente de hoje que fazíamos nossos deveres escolares em uma pedra, que depois era apagada para novas tarefas escolares, é parecer alguém do paleolítico.
Estação Jacui – onde havia então uma oficina da Via Permanente da Viação Férrea do Rio Grande do Sul, da qual meu pai era funcionário – era dividida por linha de trem que deviam ali ser pelo menos 3 ou 4 pares de trilhos, pois era local de manobras de trem. No lado em que morávamos havia duas séries de 10 de casas da VFRGS. As primeiras 10 eram geminadas de ‘material’ (=tijolos) e as outras 10 eram de madeira. Havia um ‘clube’. Tenho uma vaga idéia que morávamos na número 9, da primeira série. Lembro apenas algo dos vizinhos das casas 8 e 10. Se meu irmão Sirne ainda fosse vivo, com sua memória privilegiada, poderia detalhar acerca de toda vizinhança, mesmo que, quando nos mudamos de Jacuí, ele não tivesse feito ainda sete anos.
No outro lado dos trilhos – e atravessá-los sozinhos nos era vedado – ficava a vila. Os trilhos do trem eram sinal de grande perigo. A lembrança mais remota de morte que tenho é de uma moça morta ensangüentada, colhida pelo trem, sobre um trole. Na vila (não ferroviária) havia dois armazéns, um dos quais da família Gerke, que tinha um relacionamento muito próximo com meus pais; a casa de um soldado que fazia a segurança; uma capela dedicada a Sagrada Família, na qual recordo que um ano meus pais foram festeiros, com muito envolvimento doméstico em nossa casa no preparo de rifas e pescarias e havia também o Grupo Escolar onde estudei de março, até o final de agosto de 1947.
Lembro pouco deste meio ano que estudei em Jacuí. Lembro-me muito olhando o relógio esperando a hora de partir para a escola. Tenho uma lembrança forte menos boa da escola. Para irmos da sala de aula à casinha na rua ‘fazermos as necessidades’ tínhamos que passar pela sala da diretora. Já muito antes de entrar na escola ouvia dizer que Dona Maria Opitz era muito braba e ‘com ela não se tirava farinha’. Um dia retardei o máximo uma muito necessária ida ao banheiro e as conseqüências e a humilhação é fácil de prever. Realmente não é nada boa essa recordação de meu primeiro ano de escola.
Tenho, todavia, como inferir que foi uma escola, pois quando no começo de setembro ingressei na 1ª seria do colégio São José – em outro momento, vou falar nos meus 2,5 anos como aluno das irmãs de São José de Chamberry – eu estava melhor alfabetizado do que meus novos colegas.
Só muito recentemente, conheci o nome do meu Grupo Escolar – Marcelo da Gama – e então enviei a seguinte carta:
|
22AGOSTO08* Sexta-feira |
Visite uma livraria virtual em www.atticochassot.com.br |
Ano 3 # 750 |
Um lindo dia ensolarado com um céu azul com nuvens que parecem ovelhinha que nos convidam a apascentar sonhos. Uma sexta-feira, que por não ter viagens como anterior e a próxima me ensejou almoço com meu querido trio ABC (André, Bernardo e Clarissa), sendo a Ana Lúcia incluída à distância.
Já é quase shabath e eis-me a cumprir a blogada nossa de cada dia. Lembro muito de uma pergunta que minha mãe, fazia invariavelmente, a cada noite. O que vou cozinhar amanhã? Claro para quem tinha prover nove bocas, com parcos recursos, a busca de alternativas era árdua. Eu, no presente, me defronto com uma pergunta que me assalta a cada manhã: acerca de que vou escrever hoje no blogue? Há dias que os assuntos são naturais. Talvez a primeira definição é qual será o modelo de blogada, dentre aqueles que elenquei quando fiz há quase um mês na mesa redonda do ENEQ de Curitiba. Definido o modelo a redação fica facilitada. Há dias que sou estéril na produção de textos... hoje, parece ser é um deles.
Há um assunto bombando – ia usar uma expressão da moda pela primeira vez e tanto o Aurélio como o Houaiss me advertem que não existe o verbo bombar – que havia me proibido comentar. Vou violar minha promessa, pois o SIMPRO, em nota publicada em jornais de hoje, faz pública sua justa indignação com o assunto.
Trata-se de matéria publicada pela pustulenta revista Veja, da qual já fui assinante em priscas eras e hoje me nego a folhear, pois corro o risco de ser possuído de ira (esse pecado devia ser com dois erres; talvez, devesse dizer: ser tomado de rrraiva) se ler um de seus articulistas que não quero declinar o nome. Nos dias atuais, mesmo que não queiramos, recebemos certas leituras. Ocorre que os ideólogos de direita, lacaios fiéis do capitalismo, providenciam que tenhamos a acessos a textos que lhe encantam. Não apenas nos enviam, mas aditam suas leituras, que às vezes se travestem com pele de lobo, mostrando uma pseudo-indignação com o texto.
A matéria da VEJA, ed.2073 (13/ago/2008) que traz como título ‘Prontos para o Século XIX’ relata de maneira descontextualizada duas situações de sala de aula, para então ufanosamente dizer (e cito ipsis verbis a revista):”Os dois episódios, ambos presenciados por VEJA, não são raridade nas escolas brasileiras. Ao contrário. Eles exemplificam uma tendência prevalente entre os professores brasileiros de esquerdizar a cabeça das crianças. Parece bobagem, uma curiosidade até pitoresca num mundo em que a empregabilidade e o sucesso na vida profissional dependem cada vez mais do desempenho técnico, do rigor intelectual, da atualização do pensamento e do conhecimento. Não é bobagem. A doutrinação esquerdista é predominante em todo o sistema escolar privado e particular. É algo que os professores levam mais a sério do que o ensino das matérias em classe, conforme revela a pesquisa CNT/Sensus encomendada por VEJA. Pobres alunos”.
A leitura desse parágrafo não tem como não me lembrar de dois períodos de minha formação acadêmica. Quando fiz mestrado (final dos anos ’70) e doutorado (começo dos ’90), ambos na UFRGS. No primeiro não estudei uma linha de Marx. Era época em que intelectuais escondiam as obras de Marx, pois tê-las representava perigo. Houve os que as queimaram em fornos de padaria ou as lançaram no arroio Ipiranga. Dizia-se que ‘comunistas comiam até criancinhas!’. Quando do doutorado, tive o privilégio de ler e estudar um pouco de Marx. Talvez um melhor título para a matéria da Veja fosse ‘Pelo retorno às liberdades no Brasil dos anos setenta’ do que o proposto pela revista: ‘Prontos para o Século XIX’. Eu, particularmente prefiro os tempos do esclarecimento do Século 19, do que a ditadura do terceiro quartel do século 20.
Pois a revista Veja e seus asseclas, desejam a volta a períodos de trevas. Com justa indignação transcrevo a maneira como a Revista, ratificada pelos sequazes intelectuais que reenviam a matéria, descreve um dos filósofos mais importante da História da humanidade. Hoje, sem robôs e máquinas, os empregos nem sequer seriam criados. Mas dizer isso pode desagradar ao velho barbudo enterrado no novo Cemitério de Highgate, em Londres. Os professores esquerdistas veneram muito aquele senhor que viveu à custa de um amigo industrial, fez um filho na empregada da casa e, atacado pela furunculose, sofreu como um mártir boa parte da existência. Gostam muito dele, fariam tudo por ele, menos, é claro, lê-lo – pois Karl Marx é um autor rigoroso, complexo, profundo que, mesmo tendo apenas uma de suas idéias ainda levada a sério hoje – a Teoria da Alienação –, exige muito esforço para ser compreendido. Imaginem a indignação de que seria tomado um cristão ou islâmico se alguém escrevesse algo parecido da vida pessoal de um dos seus líderes.