090703 * Edição # 1065

 

  03JULHO2009

     SEXTA-FEIRA

Uma vez mais desde Santo Ângelo

Ano 3

#1067

 

Mais uma vez este blogue é postado desde a Capital Missioneira, como já o fora em maio e algumas outras vezes, nos seus quase quatro anos de existência. Em mais de uma oportunidade, então, ofereci a meus leitores informações históricas da região. Meus comentários hoje se alicerçam em outra dimensão, mas também conectados com minha presença na terra onde floresceu uma (quase) utópica ‘colonização’ indígena, porém anterior a presença europeia.

Escrevo depois de uma noite fria, onde em um pouco mais de seis horas viajei 516 km de ônibus. Vale destacar a amabilidade e competência do motorista José Luís e as amenidades proporcionadas pela Ouro & Prata: lanche,fone de ouvido, senha para internet a borda, tomadas para carregar celular e notebook.

 Esta tarde e esta noite tenho um seminário desafiador: “História e Filosofia da Ciência: possibilidades na Escola de Educação Básica". Ele ocorre no Curso de Mestrado em Ensino Cientifico e Tecnológico da URI, Campus de Santo Ângelo. A proposta partiu da Professora Dra. Neusa Maria John Scheid, coordenadora do Programa de Pós-Graduação  em Ensino Cientifico e Tecnológico. Como envolvida com História da Ciência ela deseja ver ampliada essa discussão com os mestrandos e docentes do Programa de Pós-Graduação. Devo dizer que a preparação foi algo exigente, pois sobre o assunto já fiz palestras, mas ainda não dedicara-me uma discussão mais extensa como será a desta sexta-feira.

Quando estou mais uma vez nesta região, tão prenhe de história ligada a povos que habitaram as regiões que hoje chamamos Américas, antes da dita ‘colonização’, há evocações fortes, relacionadas com minhas discussões de  História e Filosofia da Ciência.

Isso me remete para meu livro A ciência através dos tempos e exige um Confiteor. Reconheço o quanto fui reducionista e simplista. Em um livro de quase 200 páginas, onde busco fazer uma mirada panorâmica na História da Ciência, eu, latino-americano, escrevia sobre as civilizações que existiram nas Américas antes da chegada dos “colonizadores” apenas este parágrafo muito pouco elucidativo: “Há informações sobre práticas de tratamentos de doenças, pois foram encontrados crânios trepanados e cicatrizados, o que indica cirurgias realizadas em homens vivos.  Na América, achados idênticos indicam que entre os homens  pré-colombianos haviam hábeis cirurgiões. Ao fazer referências a civilizações na América, é preciso acrescentar que os primeiros dados da civilização maia datam do século III a.C., quando se iniciava a maior e mais florescente civilização do Novo Mundo, que durou até o século IX d.C." (p. 16).

Depois de 14 edições (a primeira foi em 1994; 20ª em 2008) em 2004 o livro ganha outra formatação, agora com 280 páginas, tem um novo capítulo: “Uma história da Ciência latino-americana determina outro marco zero

A recordação de civilizações que viveram nas Américas antes das chamadas descobertas foram quase literalmente eliminadas. Hoje não sabemos o nome de um homem e de uma mulher que viveu aqui antes de 1.500. Tal leva esta blogada para outra reflexão. Esta implica, inclusive, em revisão de alguns de nossos conceitos de Ciência.

Observemos quanto cabe discutir a afirmação: “A Ciência Moderna nasceu no século 16” e acrescentar pelo menos uma localização “na Europa”. Se olharmos, por exemplo, o chamado mundo andino e observarmos a civilização, que foi destruída por gananciosos e traidores conquistadores brancos a partir do século 16, vamos nos surpreender com uma excepcional Arquitetura e Engenharia; com uma sofisticada Agronomia; com uma Medicina que protegia a saúde e curava doenças até com cirurgias cranianas; uma Matemática engenhosa; com quipus [Quipu ou quipo (do quíchua quipu, 'nó') Escrita mnemotécnica usada pelos indígenas peruanos para fins aritméticos ou registro de fatos importantes, e que consiste em um grupo de cordas de comprimentos, grossuras e cores diferentes, pendentes de corda principal, e contendo, os mais curtos, nós representativos de números.], ainda indecifráveis, fontes de registros que talvez nos obriguem a revisar paradigmas; uma Metalurgia que tinha na ourivesaria e na artesania fazeres muito elaborados; uma Astronomia determinando calendários muito mais precisos que os do mundo cristão, e aqui se inclui a precisão dos atuais calendários e essa Astronomia estava fortemente associada uma Astrologia e uma Religião.

Apenas, como ilustração, um breve comentário do que foi esta fabulosa civilização – talvez o melhor adjetivo fosse fantástica – e com esta descrição convida-se ao leitor ou à leitora para fazer algumas inferências do que poderiam ter sido o desenvolvimento dos tópicos antes citados e com isto revisar alguns (pré)conceitos sobre Ciência e não Ciência.

 Os incas foram uma cultura, uma civilização e um império com um território que se estendia por mais de 4.000 km de norte a sul e de leste a oeste o Império cobria distâncias de cerca de 800 km. Estudiosos estimam entre 3,5 a 16 milhões de habitantes (há alguns que referem 30 milhões) que viviam nesta região. Talvez com uma população superior a Europa de então. É fácil avaliar as exigências, por exemplo, de um sistema de comunicações, para governar tão vasto e populoso império. O alto desenvolvimento tecnológico na agricultura é conseqüência das grandes necessidades de alimentos para uma grande população que vivia em regiões áridas e íngremes. Pode-se referir a existência de cultivares com cerca de 80 espécies de milho e de variedades de algodão de diferentes cores, que os espanhóis acreditavam ser tingido.

Mesmo que tenham desconhecido o uso da roda, de animais de tração  e estas duas ausências foram decisivas no confronto contra os brancos  e de um sistema formal de escrita (pelo menos que hoje possa ser fonte de informações históricas, mas esta é afirmação que talvez devamos revisar, se considerarmos as informações ainda não codificadas feitas em quipus) os incas constituiriam uma civilização que alcançou um alto desenvolvimento cultural, que pode ser creditado as peculiaridades de sua organização social.

Podemos considerar que os incas praticavam um socialismo, quando considerarmos que entre eles não havia propriedade privada dos meios de produção. Os produtos das colheitas e das manufaturas têxteis eram distribuídos segundos as necessidades das famílias e em função das atividades desenvolvidas nas produções coletivas. Por outro lado – ou em oposição – havia três classes sociais bem caracterizados e rigidamente estratificadas: o povo, o clero e a nobreza. Os incas eram autocratas por direito divino e governavam com sistema absolutista, comparada, por exemplo, com a França antes da Revolução Francesa. 

Em Cusco – mais populosa que Paris ou Londres na mesma época – antes das chegada dos espanhóis, havia um colégio destinado a aristocracia cusquenha e aos nobres das províncias, onde os jovens, durante quatro anos estudavam a língua quíchua, o uso dos quipus, os fundamentos de seus cálculos e de seus cômputos, como também a história e a mitologia oficial incaica. Havia também nesta próspera capital uma Escola de Engenharia Hidráulica. Estas considerações demandariam que se escrevesse livros para que pudéssemos oferecer às professoras e aos professores mais subsídios para novas leituras de tempos que foram magníficos nesta parte do planeta que hoje chamamos de Américas. 

Quando os incas irrigaram vales e planalto áridos tornando-os lugares ubérrimos, estavam resolvendo um problema de produção de alimentos. Quem determina a perspectiva para considerarmos isso ciência ou não ciência?

Talvez as dificuldades em responder a esta questão podem ser minimizadas com a resposta de Prigogine, prêmio Nobel de Química em 1977 "Acho que a Ciência seja um fenômeno cultural e que ela está intimamente ligada às outras manifestações culturais. Frequentemente os problemas realmente novos da Ciência nascem fora dela e são colocadas em uma perspectiva científica somente em um estágio mais avançado...." (Entrevista publicada na Gazeta Mercantil, São Paulo, em 12JUN98).

É também sobre isso que falo nesta sexta-feira aqui em Santo Ângelo. Na expectativa que esse dia seja muito bom para cada uma e cada um. Desejo o advento de fim de semana muito pleno dos melhores fluídos. Para amanhã, de novo em  Porto Alegre, prometo uma saborosa dica de leitura.


 

090702 * Edição # 1064

  02JULHO2009

   QUINTA-FEIRA

Segundo semestre, nova AGENDA em www.attticochassot.com.br

Ano 3

#1066

A temperatura na Morada dos Afagos é 7ºC, nesta hora mais tardia em que posto o blogue, quando uma tosse mais resistente me aconselhou faltar à Academia. Há que antecipar cuidado quando as duas próximas noites serão a bordo viajando mais de 1.000 km. Ontem contava aqui de um super atabalhoamento que ocorreu com minha agenda, quando – inesperadamente – dois velórios se fazem presentes na mesma. Posterguei em cinco dias a minha esperada segunda consulta (para mostrar resultados da audiometria) que me faz expectante no resolver meu ‘misterioso’ problema de zumbido, Então, estive presente em dois atos fúnebres. 

No primeiro velório pude fazer uma homenagem ao falar na despedida de meu ex-professor e amigo Thomaz Both. Primeiro homenageei o Irmão Teofânio que em 1955/56 foi meu professor no Ginásio Marista São João Batista em Montenegro e depois o Thomaz que junto com a Eneida, sua esposa, foi meu companheiro de tempos de militância católica no Movimento Familiar Cristão, quando nos envolvíamos com curso para noivos. Foi oportuno poder dizer para a Eneida e também para os filhos Flávio e Carmen o quanto o Thomaz foi uma pessoa importante em minha história. Foi muito bom encontrar – e esse é lado bom desses atos fúnebres – Edi, a Maria Tereza e o Sanseverino.

Quase atravessei Porto Alegre para do Cemitério São Miguel e Almas chegar ao Cemitério São João. Então me deparo com algo que evoca as ‘Pietás’. Foi pungente ver a dor da Naldi, que se despedia do Renato, ainda assemelhado a um bebe depois de 47 anos de vida (quase) vegetativa. Ela era a encarnação da ‘Mater dolorosa’ da ladainha mariana. Mais uma vez muitos reencontros de matar saudades: o Rogério, o Ricardo, a Enilda, o Luiz, o Carlinhos, o Luiz Augusto.

Algo comum dos dois velórios: o cântico ‘Com minha Mãe’starei na santa glória, um dia, junto à Virgem Maria, no céu triunfarei! No céu, no céu, com minha Mãe’starei! No céu, no céu, com minha Mãe’starei!’ Esse canto mariano trouxe-me evocações. Recordo que a última vez que eu o ouvira fora a 11 de setembro de 2001, no sepultamento de minha mãe. Claro que então tinha um simbolismo muito denso, pois para mim parecia então estar ouvindo a promessa de estar com minha mãe no céu. Mas esse canto traz outras reminiscências: primeiro, me remete as missões que eram pregadas pelos missionários redentoristas onde esse era muito cantado e lembro de minha perplexidade com a elisão da letra e, para o apóstrofo ligar o ‘starei com letra e de Mãe.

Na última segunda-feira, dia 29 de junho, trouxe aqui a primeira parte de uma entrevista onde Maria Rita Kehl, nome de referência da psicanálise no Brasil narra o trabalho de psicanálise que realiza na Escola Nacional Florestan Fernandes (ENFF) ligada ao MST. Trago hoje a parte final. Detalhes preambulares desta entrevista, que foi publicada no sábado, dia 27 de junho, no caderno Cultura de Zero Hora, podem ser visto na edição de segunda-feira deste blogie, antes referida.

Cultura – Os movimentos sociais se fundam na noção do coletivo. Esta questão transparece de alguma forma quando um membro do MST está no divã?

Maria Rita – Aparece, sim, nas queixas frequentes de que o trabalho grupal, muito exigente, deixa pouca margem para os chamados “cuidados de si” – lazer, namoro, leituras, passeios, descanso. Mas não é difícil fazer com que eles percebam que o excesso de dedicação à “causa” coletiva pode ser um meio de escapar das questões singulares de cada um. Claro que estou generalizando, alguns permanecem muito mais aferrados a cumprir “o que o Outro quer de mim” do que outros etc. Ao longo de algumas análises, emergem muitos conflitos com as normas coletivas da Escola – o sujeito, ao entrar em sintonia com o desejo, torna-se rebelde. Mas essa rebeldia raramente é da ordem do individualismo, mais frequente nas classes média e alta urbanas. Eles se rebelam contra a rigidez das normas coletivas, mas não perdem de vista o fato de que estão no movimento por escolha política e têm uma responsabilidade para com ele.

Cultura – A senhora sempre teve uma posição de esquerda, uma postura crítica acerca da sociedade de consumo e seus valores. Como isso se reflete na realização deste projeto junto ao MST e até mesmo em sua atividade como psicanalista?

Maria Rita – Posso te dizer que, sempre que saio de lá, penso que sou uma privilegiada por ter encontrado o MST e ter sido acolhida por eles como pessoa de confiança. Também me acho uma pessoa de sorte por ter sido convidada a exercer a psicanálise, sem nenhuma concessão, em meio a este que é hoje o maior movimento social do mundo, com 600 mil militantes e 2 milhões de pessoas afiliadas a ele (incluindo famílias já assentadas, que às vezes não militam mais, mas reconhecem sua filiação ao MST). Não é preciso fazer concessões para exercer a psicanálise entre eles porque, apesar da origem católica e rural, o movimento é legitimamente progressista – assim como a psicanálise, aliás.

Cultura – Ao frequentar um universo marcado por bandeiras de luta e o sentido coletivo, em algum momento a senhora temeu a possibilidade de idealizar o movimento ou seus membros? Ou se sentiu cobrada a agir de forma militante?

Maria Rita – Nunca fui cobrada a agir como eles, seja isso o que for; mesmo porque entre eles as diferenças de modos de agir também são muito grandes. Sinto-me respeitada, inclusive em meu estilo mais aburguesado de ser: vou de carro, volto para São Paulo depois dos atendimentos porque quero aproveitar o sábado, raramente fico lá para dormir etc. Agora, não há dúvidas de que, para mim, é fácil idealizar o movimento. Não tanto pelo modo como eles conduzem suas lutas – tenho sérias divergências sobre algumas estratégias e falo sobre elas com pessoas que não são meus pacientes, quando os encontro no almoço, ou nos debates de que ainda participo. O que eu sinto que idealizo, no MST, é a formação humana que eles conseguem obter. A maior parte dos militantes veio de meios sociais violentos, com pouca escolarização, pouca noção de dignidade e respeito, tanto do sujeito quanto na relação com o outro. No movimento, o valor da leitura, do conhecimento, da lealdade e da solidariedade são imensos. Mesmo na clínica, onde os problemas mais profundos vêm à tona, não deixo de sentir admiração pela maioria de meus pacientes da ENFF. Para você ter uma ideia, sabe qual é a maior demanda de “ascensão social” entre eles? Não é ganhar mais ou subir para uma posição de poder: é ser incluído entre os que podem estudar mais, entre os que têm direito a frequentar os cursos etc. Eles são seriíssimos quanto a este aspecto; e quanto à solidariedade também, apesar de todos os defeitos humanos, que são os mesmos que os de todos nós.

Mas isto não significa que eu não tenha admiração pelas pessoas que atendo em minha clínica particular. Tenho, sim, por quase todos eles, pela coragem em enfrentar seus fantasmas, em buscar sua via. Talvez a diferença não se coloque em relação ao valor de cada sujeito, um por um, mas em relação ao “caldo de cultura” em que se vive, lá e cá.

Cultura – E como a psicanálise compreende os movimentos sociais?

Maria Rita – Não sei grande coisa as respeito. Só aponto que existe, entre alguns psicanalistas, um preconceito de que a participação num movimento social seria uma forma de alienação. Como se a adesão quase religiosa à psicanálise e às instituições psicanalíticas não fosse!!!

Cultura – Como avalia a posição das mulheres e as relações entre os sexos dentro do MST?

Maria Rita – É uma posição muito interessante, a das mulheres. Até agora não encontrei, entre as mulheres que atendo no MST, nenhuma que não seja autenticamente feminista, no sentido mais profundo do termo. Ou seja: são mulheres livres em suas escolhas sexuais e amorosas – até mesmo as que vieram de movimentos da Igreja, mas que, na análise, lutam para superar os entraves da moral católica. Ao mesmo tempo, são tão decididas e dedicadas quanto os homens. É interessante a posição das mulheres no movimento: muitas delas, por exemplo, têm cargos mais altos do que seus maridos. Provavelmente, nos acampamentos, entre pessoas que vieram de outros lugares e acabam de ingressar no MST, deve haver muito machismo; este é o perfil da sociedade brasileira. Mas não o encontrei entre os “compas”, como eles se chamam, que transitam no nível da ENFF. O outro detalhe interessante é que as mulheres que atendo lá nunca submeteram a vida da militância às conveniências do casamento. Viajam para lá e para cá, estudam nos cursos em módulos que o MST oferece em convênios com universidades – três meses na faculdade, três meses no movimento, durante a duração do curso – e os maridos seguram a onda, cuidam das crianças quando elas estão fora. O amor não é o centro da vida delas, o que é muito difícil de encontrar. E também não medem seu valor pelo olhar de um homem; nunca ouvi uma moça que não namora dizer que se sente inferior por isso.

Cultura – A escolha de objetos e temas de trabalho sempre revela algo do pesquisador. Na sua trajetória acadêmica, a senhora já passou pela televisão, questões do feminino, juvenilização, ética, depressão – além deste projeto no MST. O que este percurso revela a seu respeito?

Maria Rita – Se eu soubesse, não continuaria buscando. Deixo essa resposta para depois da minha morte.

Adito uma foto do Pedro, ainda do dia de seu nascimento, nesta segunda-feira, Ontem ele deixou o hospital, indo para a casa. Com votos de uma excelente quinta-feira, anuncio que a blogada de amanhã, provavelmente será de Santo Ângelo, pois na sexta-feira à tarde e à noite dou um seminário na URI. Falo dele amanhã. Julho quase se inicia com duas noites consecutivas em ônibus, mas como se pode ver na ‘Agenda’ em www.attticochassot.com.br atualizada, esse mês será quase férias em termos de viagem. 


090701 * Edição # 1063

 

  01JULHO2009

   QUARTA-FEIRA

E, JÁ ESTAMOS NO SEGUNDO SEMESTRE

Ano 3

#1063

Inaugura-se o 2009/2. Agora estamos a nove dias da festa familiar que faremos para celebrar o centenário do nascimento de minha mãe. Mas não só frio (em vários lugares do Rio Grande do Sul há temperaturas abaixo de zero) e a expectativa de confraternização que faz diferente essa estreia do segundo semestre. 

De repente, mal despertava, minha agenda de hoje se faz atabalhoada. Dois velórios – usualmente compromissos imprevistos – entram num dia que tenho mais uma esperada consulta para tentar resolver minha situação de tinittus. Esta parece me atordoar mais pedido solução. À tarde tenho a banca de qualificação de Letícia Britto de Albuquerque do Mestrado Profissional de Reabilitação e Inclusão do IPA que apresenta a proposta de dissertação “Imagem corporal em pacientes com amputação bilateral dos membros inferiores”. É assunto que para mim se faz exigente.

Vejo nos jornais que faleceu o Professor Thomaz Both. É o meu ex-professor Irmão Teofânio, de quando fui aluno marista no Ginásio São João Batista e meu companheiro dos meus tempos de militância católica no Movimento Familiar Cristão quando nos envolvíamos com curso para noivos. Tentando achar espaço para este velório, telefona-me meu irmão Pedro Paulo para dizer que faleceu o Renato, filho da Naldi. A Naldi é minha prima-irmã, na casa de quem morei no meu primeiro ano de Porto Alegre em 1958 e de quem sempre fui próximo especialmente nos anos que trabalhei com meu tio Arnaldo,seu pai, no Bar Caçula e no Restaurante da Reitoria.não posso deixar de ir ao Cemintério São João de pois de ir ao São Miguel e Almas em pontos distantes um do outro.

Como velórios se superpõem nas agendas, ainda defino-me como gerir essa manhã, onde também há o esperado retorno da Ana Paula, voltando de licença maternidade, para os trabalhos do cotidiano de minha Morada dos Afagos. Há permeando tudo uma gripe misturada achaques de tosse que precisa ser vencida para extensa jornada que tenho nesta sexta-feira na URI de Santo Ângelo. O paradoxo inexplicável e como os deuses Cronos e Cairós em certos dias são cruéis na gestão do tempo calendário e no tempo vivido. Todavia, há dias que eles nos premiam com adições de vida inesperadas.

Merece nesse relato, um comentário panorâmico acerca das aulas de encerramento na Licenciatura em Filosofia do Centro Universitário Metodista - IPA. Na hora da rodinha o assunto mais forte foi Michael Jackson, com posturas radicalmente opostas que motivaram grandes polêmicas: o ídolo venerado e o insignificante artista se bateram polêmicos. Comentei também um pouco minha estada em Veranópolis, especialmente acerca do filme “O vento será a tua herança”. O assunto de pesquisa ‘As marcas da(s) Igrejas(s) n(o ensino d)a Filosofia’ foi dos temas de pesquisa mais densamente apresentados, com excelentes evidenciações do quando mesmo em um mundo laico estivemos /estamos imerso em um mundo religioso e o quanto especialmente na Filosofia os limites com a Religião são muito tênues. Na última sessão, por problemas de agenda, tivemos duas mini-aulas. Na primeira o Sergio Antonio da Luz Backes apresentou uma atividade para o ensino médio marcada pela discussão acerca do que é ser livre. Na segunda, Danisa Vieira, a partir de uma muito bem posta encenação de um diálogo entre adolescentes apresentou uma aula para uma oitava série do ensino fundamental. Um e outra trouxeram a seu modo, bons motivos de reflexões; Fizemos ao final ainda uma avaliação do semestre que foi marcada por comentários acerca da excelência da proposta desenvolvida.

Peço aos meus queridos leitores que, conhecendo as justificativas que apresento acima, especialmente aquela da inclemência dos deuses, quando inauguro o segundo semestre, que  aceitem postergar a trazida da segunda parte da entrevista de Rita Maria Kehl. Acolho também a complacência de todos por ontem e hoje minhas blogadas não passarem de um diário de bordo, sem a trazida de algo mais substancioso. Desejo a cada uma e cada um o melhor 2009/2 e nisso se inclua também a concretização da transformação em realidade dos sonhos há muito sonhados.


 

090630 * Edição #1062

 

30JUNHO2009

TERÇA-FEIRA

Uma despedida junina ainda celebrando o PEDRO

Ano 3

#1062

Uma manhã invernosa, aonde ir a Academia (leia-se fazer exercícios fisioterápicos) foi difícil quando ainda era escuro, devido a extensão da noite de ontem. Mas, não me dei por vencido.

Acerca de que vou falar nesse blogue hoje? Parece que nada mais a não ser a ratificação do fato que mereceu, pela primeira vez, em quase três anos, uma edição extraordinária deste blogue; então anunciava: “Nesta, segunda feira o PEDRO nasceu às 12h54min com 2685g. Ele, Tatiana e André estão muito bem. Junto com as vibrações de um avô muito feliz, estão duas fotos tomada com celular pela exultante tia Clarissa. Na segunda o André, um pai radiante de alegria, vibra com seu filho”. Essa blogada que postei aditando aquela que torcia pela chegada de mais um neto.

O que contar deste dia de São Pedro, quando agora o 29 de junho muda para o dia do Pedro? Primeiro – e para mim isso é muito denso – a mudança de significante operada ontem no Hospital Divina Providência. Ele não tem mais como significado mais forte ser o hospital onde minha mãe morreu no dia 10 de setembro de 2001 com 92 anos. Já contei aqui que ela foi sepultada no bucólico cemitério do Faxinal em Montenegro no momento em que se esboroavam as torres do World Trade Center em Nova York. Agora o Hospital da Gruta da Glória é o Hospital onde nasceu o Pedro. Assim, a chegada do Pedro muito provavelmente empane o sentimento de tristeza do ‘antigo’ hospital dos padres e passe a ser o local onde a partida de uma ancestra renasce em nova vida.

Ontem, quando via o André acarinhar aquele menino ainda completamente desnudo, com alguns poucos minutos de vida extra-uterina lembrava-me que, há quase 40 anos, fruía de um menino que antecipava a chegada da primavera em 1970. 

Realmente é uma emoção muito forte ter essa percepção: aquele menino pequenino, que que faz o André pai, comove-me nas doçuras do avonado.

Ontem no IPA tive uma Reunião da Comissão de Seminários, com o Marcelo e a Maristela. Este registro ocorre apara contar que ele trouxe-me dos Estados Unidos adesivos e um boton com a inscrição “Teach Evolution, learn Science’. É muito significativo como se precise naquele país fazer campanhas para ensinar evolução (e assim aprender Ciência). Há uma Federação de sociedades estadunidenses para uma Biologia experimental, que patrocina essa campanha para o ensino de Evolucionismo. Vale visitar www.evolution.faseb.org 

Ainda, à noite participei uma sessão de banca de avaliação de estágio no Curso de Licenciatura em Música. Tomei parte na avaliação de três excelente trabalhos: Juliano Carvalho, Guilherme Huff e Paulo Cesar da Silva. O melhor dessa sessão foi a maneira querida como me receberam aqueles e aquelas que foram meus alunos em 2008/2. Comovi-me.

Amanhã, quando será julho, inaugurando 2009/2 pretendo editar a segunda parte da entrevista com Maria Rita Kehl, iniciada ontem, onde ela narra o trabalho de psicanálise que realiza na Escola Nacional Florestan Fernandes (ENFF) ligada ao MST. Até então.

Uma muito boa terça-feira. Para mim ela se encerra com as últimas aulas no Curso de Licenciatura em Filosofia. Na próxima terça-feira recebo o grupo aqui na Morada dos Afagos para assistirmos o filme ‘Wittgenstein’ com comentários da Gelsa e depois uma confraternização, que já será julina.


 

29JUNHO2009

SEGUNDA-FEIRA

PEDRO nasceu neste dia de São Pedro

Edição suplementar

Ano 3

#1061B





Nesta, segunda feira o PEDRO nasceu às 12h54min com 2685g. Ele, Tatiana e André estão muito bem. Junto com as vibrações de um avô muito feliz, estão duas fotos tomada com celular pela exultante tia Clarissa. Na segunda o André, um pai radiante de alegria, vibra com seu filho.

090629 * Edição # 1061

29JUNHO2009

SEGUNDA-FEIRA

¿Nascerá o PEDRO neste dia de São Pedro?

Ano 3

#1061

Esta postagem que abre semana onde despedimos junho e recebemos julho ocorre em madrugada ainda escura. A chuva já se inicia na região metropolitana. Dentro de mais um pouco cumpro minha hora na Academia Treinar, para então iniciar uma jornada, que se conclui à noite com bancas no Curso de Licenciatura em Música no Centro Universitário Metodista - IPA.

 Desde a minha experiência nas passadas quarta e quinta feiras com o MST já disse, especialmente para mim, o quanto aqueles dois dias foram gratificantes e o quanto gostaria de repeti-los o mais breve possível. Parece desnecessário dizer aqui, mesmo que alguém me inquirisse acerca disso, que não há um centavo de ganho pecuniário.

Ontem nas leituras de jornais – gostosa prática dominical que no inverno tem sabor especial, quando junto a lareira – a Gelsa leu-me algo do caderno de Cultura da Zero Hora de sábado que merece socializar aqui.

Há três anos, um integrante do Movimento dos Trabalhadores Rurais Sem Terra (MST) perguntou à psicanalista Maria Rita Kehl (na foto) como a psicanálise poderia ajudar a militância. Não era a primeira vez que Maria Rita estava palestrando para uma turma de alunos da Escola Nacional Florestan Fernandes (ENFF), centro de formação e ensino idealizado pelo MST. Ela respondeu que a psicanálise não é uma prática militante, mas que muitos militantes precisariam fazer análise por razões particulares. E explicou:

– A neurose interfere na relação dos sujeitos com o laço social, o que vale para a militância.

Ao contar o episódio, Maria Rita, nome de referência da psicanálise no Brasil, diz que eles entenderam imediatamente o que estava implícito naquelas palavras. E, na saída, dois administradores da escola perguntaram:

– Quando você pode começar?

Na semana seguinte, Maria Rita deu início à experiência . A cada 15 dias, Maria Rita deixa São Paulo, onde mora, e percorre 60 quilômetros até a ENFF, em Guararema, e lá atende pacientes fixos e outros que estão de passagem. Não cobra pelas sessões, e, se alguém precisar de uma consulta extra em seu consultório, pede somente R$ 15,00.

– Eles sabem que meu trabalho lá não é por caridade nem por amor pessoal a cada um deles – é a “minha militância”. Este é o valor que eles me dão em troca do trabalho. Levam suas análises muito a sério, como quase todas as escolhas que fizeram.

Doutora em Psicanálise, a campineira Maria Rita trilhou uma trajetória singular. Cursou Psicologia na USP em tempos de ditadura, trabalhou sete anos como jornalista, fez mestrado sobre televisão, teve um filho quando morava em uma comunidade e só em 1981 começou a atuar como psicanalista – e logo mais poeta e ensaísta. Suas palestras e seus livros transitam por diferentes temas – TV, juvenilização, ressentimento, feminino, ética na psicanálise... – o lançamento mais recente, ‘O Tempo e o Cão – Atualidade das Depressões’, teve início a partir de um pequeno incidente a caminho da ENFF, quando, premida pelo tráfego na Via Dutra, Maria Rita viu um cão atravessar a pista mas não pôde evitar bater no animal (que sobreviveu) – travestido de metáfora, o episódio a fez refletir sobre a aceleração da vida e seus efeitos subjetivos.

Neste longo percurso, analisar integrantes do MST e transitar no seio do movimento surge como a oportunidade de descobrir um universo fundado no coletivo e, como ela conta na entrevista a seguir, um privilégio.

Por razões técnicas secciono a entrevista em duas partes. Prometo, ainda esta semana, talvez amanhã, editar a segunda parte

Cultura – Para alguém que chega de fora, o que mais lhe chamou atenção no MST como movimento e no trato com seus membros, individualmente? É possível comparar questões que predominam entre os pacientes de seu consultório particular, em São Paulo, e os pacientes que atende na ENFF?

Maria Rita Kehl – As formações do inconsciente não variam muito; lá existem neuróticos como em toda parte. Recebi alguns alcoólatras também, pois este é um dos sintomas mais frequentes, sobretudo entre homens, na sociedade brasileira – e nas classes pobres, mais ainda. O que é muito diverso da minha clínica em São Paulo são as histórias de vida, evidentemente. 100% dos analisandos do MST têm origem pobre, a maioria do meio rural; alguns, os mais jovens sobretudo, já vieram das periferias das cidades, onde, além da pobreza, conheceram muita violência. São histórias de vida que implicam maior sofrimento real, mas os sintomas que se formam a partir da experiência traumática não variam muito. Trata-se, sempre, de tentar escutar as pistas que indiquem o que está recalcado e fazer com que a pessoa também se escute e questione o que diz, de modo a encontrar pistas que a orientem na via de seu desejo.

O que mais diverge da minha experiência com a clínica em São Paulo é que no MST não percebo, entre as queixas e indagações dos sujeitos, a prevalência do imaginário romântico-sentimental (inclusive no que diz respeito à demanda de amor, na transferência). Não é no amor que eles buscam indicadores de seu valor para o Outro – é na “luta”. As histórias de sofrimento familiar, ou conjugal, raramente se centram nas demandas de amor não-correspondidas, endereçadas ao pai, mãe, esposa/esposo. Não escuto essa queixa de que o pai ou a mãe gostava mais do irmão/da irmã/ se me ama/ se não me ama etc. Não que a questão do valor do sujeito para o Outro não exista, mas, curiosamente, não passa tanto pelas relações amorosas e familiares nem pela demanda de amor ao analista.

Com votos de uma muito boa semana, amanhã, provavelmente nos encontramos aqui. O muito provável nascimento do Pedro torna emocionante a semana.


28JUNHO2009

DOMINGO

¿A Internet veicula mentiras? ou exige que sejamos cada vez mais críticos!

Ano 3

#1060

Uma edição dominical com sol, mas com frio que merece lareira. A manhã de domingo é ainda impregnada no sábado. Em Estrela – onde ainda curti o desjejum com a Ana Lúcia que além de muito carinho, brindou-me com nozes pecan da produção farta de suas nogueiras. Em Lajeado, com a densa participação no Seminário do Instituto PalavrAções, na UNIVATES. 

É ancorado na segunda parte de minha fala “Blogues como artefatos culturais pós-modernos para fazer alfabetização científica” que trago um comentário hoje. A maior crítica que se faz hoje a internet é que ela veicula mentiras. Contraponho dizendo que o problema maior talvez seja a nossa falta de crítica.

Trago um exemplo muito atual. Circula por esses dias fotos e vídeos dos ‘momentos finais’ dos passageiros e tripulantes que morreram tragicamente no voo da Air France Rio de Janeiro/Paris. Eis duas destas fotos.


Eis a mensagem que acompanha as fotos.

Isto é surpreendente e triste: Eu sinto uma grande tristeza para todos os passageiros, incluindo o extraordinário fotógrafo, que manteve a calma mesmo nos últimos momentos de sua vida e tirou essas fotos. O mundo acompanhou o desaparecimento de um avião da Air France durante um vôo transatlântico entre Paris e Rio. As duas incríveis fotos tomadas no interior do avião antes de ele cair. As duas fotografias anexas foram aparentemente tomadas por um dos passageiros do avião, logo depois da colisão e antes de o avião cair. As fotos foram baixadas a partir do "Memory Stick" da câmera. Você jamais verá fotos como estas. Na primeira foto há um buraco na fuselagem através do qual você pode ver a cauda do avião com o seu leme vertical. Na segunda foto, um dos passageiros está para ser sugado para o exterior através do orifício. Estas imagens foram encontradas em uma câmara Casio Z750 entre os restos na Serra do Cachimbo. Embora a câmera estivesse destruída, a ‘Memory Stick’ da câmara foi recuperado. Investigando o número de série da câmera, o proprietário foi identificado como Paulo G. Muller, um ator conhecido do teatro para crianças da periferia de Porto Alegre. É possível imaginar que ele estava parado durante a turbulência, e conseguiu tomar estas fotos, segundos após a perda da cauda da aeronave que colidiu em espiral. A tração estrutural provavelmente desgarrou os motores diminuindo a velocidade de queda, protegendo os equipamentos eletrônicos, mas infelizmente não as vítimas. Paulo Muller deixa duas filhas, Bruna e Beatriz.

As inverdades que acompanham as fotos são tantas, que nos levam logo a desconfiar. Mas há outro dado que deveria fazer-nos críticos. Quando se acompanha busca e identificação das vítimas, ¿como não se soube do tal achado? 

Qual a consequência de mensagens como esta? Descrédito a tudo que veicula a internet. Claro que não podemos ser ingênuos. Todavia, também não apóstolos do apocalipse.

Respeito opiniões como as de Andrew Keen, um escritor britânico que se notabilizou por suas críticas aos “erros que poluem a rede”, especialmente às iniciativas, como a Wikipédia, administradas por amadores. No livro O culto ao amador, Keen (2009) apresenta argumentos contrários ao domínio das ferramentas internéticas por neófitos, além de apontar graves prejuízos ao pensamento preestabelecido e corrente à maioria da população. Para Keen, blogues, MySpace, YouTube e a pirataria digital estão destruindo nossa economia, cultura e valores. Num meio onde toda a gente tem uma voz, a verdade não se faz por discussão racional; mas, por consenso. Os motores de busca que todos usamos são a prova de que “verdade” é tudo aquilo que os internautas elegem como verdade. É assim que a Wikipédia tem mais sucesso e autoridade do que, por exemplo, a vetusta Encyclopaedia Britannica. E acrescenta em uma cultura on-line em que a propriedade intelectual é livremente trocada, baixada e recombinada, a proteção aos direitos autorais está em perigo: artistas, autores, jornalistas, músicos, editores e produtores têm os frutos de seu trabalho criativo usurpados. Além disso, o anonimato da rede cria um ambiente em que pedófilos e ladrões de identidade, por exemplo, podem agir livremente.

Repito, aceito estas análises. Todavia, elas lembram-me o luddismo – é o nome do movimento contrário à mecanização do trabalho trazida pela Revolução Industrial. Adaptado aos dias de hoje, o termo luddita (este nome deriva de Ned Ludd, um dos líderes do movimento) identifica toda a pessoa que se opõe à industrialização intensa ou a novas tecnologias. Os ludditas ficaram lembrados como “os quebradores de máquinas”. Não será Andrew Keen uma reencarnação de Ned Ludd?

Com votos de um bom saldo de fim de semana. Para mim ele se faz bi-podado. Começou na sua dimensão de descanso já quando sábado ia adiantado e termina antecipado, pois hoje meia tarde, a Gelsa viaja a Belo Horizonte para uma Banca na UFMG. Mas essa despedida junina deve ainda reservar as emoções fortes da chegada do Pedro, filho do André e da Tatiana. É a curtição do avonado em expansão.


090627 * Ediçã0 # 1059

27JUNHO2009

SÁBADO

Desde a casa da Ana Lúcia em Estrela

Ano 3

#1059

Estou desde o começo da noite de ontem na casa da Ana Lúcia, Eduardo e Guilherme. Foi muito bom passar com eles a fria noite do shabath. Cheguei à rodoviária Estrela, às 19h45min, depois de deixar Porto Alegre às 18h. Era amorosamente esperado por minha filha. Depois de uma circulada pela cidade, já pacatamente recolhida pelo frio, encontramos o Guilherme e o Eduardo curtindo uma lareira.  Foi bom conversar com o Eduardo enquanto a Ana e o Guilherme se esmeravam na cozinha. Daí resultou gostoso estrogonofe. Também assisti o Guilherme dar um sonoro e harmônico show em sua bateria. Mas o momento mais emocionante foi quando o Guilherme e eu jogamos pebolim, que eu conhecia por fla-flu. Não devia colocar o resultado, mas é preciso ser imparcial no relato: perdi pelo aplastante  placar de 17 X 3. Devo dizer que me esforcei, mas meu neto foi muito mais hábil que eu. Uma foto que registra minha vibração em um dos meus raros golos.

Ainda em termos familiares alegra-me dizer que o tradicional almoço das sextas-feiras com o trio ABC foi expandido. Estiveram, além do André, Bernardo e Clarissa, a Tatiana, a Carla, a Maria Antônia e a Gelsa. A razão foi a celebração do nascimento do Pedro, filho do André e da Tatiana, ainda nesse junho. Tenho chance de acertar a aposta que será depois de amanhã: dia de são Pedro. Foi muito bom estarmos juntos neste almoço de expectativa de uma nova vida.
Ainda um comentário de ontem: O ‘formador de opinião’ que proferiu a blasfêmia: ”O maior feito de Michael Jackson foi libertar-se de ser negro!”, senhor Paulo Santana é negro. Ele, que ainda nesta semana recebeu as maiores homenagens pelo seu aniversário de 70 anos, poderia ter poupado sua legião de admiradores desta preconceituosa afirmação.
Hoje é dia de São Cirilo, patriarca de Alexandria. Aqueles que leram meu livro ‘A Ciência é masculina’ ou assistiram-me falar sobre o assunto, hão de lembrar sua responsabilidade no assassinato de Hipácia.
Dentro de mais um pouco deixo a casa da Ana Lúcia e vou à Lajeado (do outro lado do rio Taquari) para na UNIVATES, numa promoção do Instituto PalavrAção durante a manhã discutir "A leitura e a escrita e desafios curriculares- Um compromisso de todas as áreas". Vou falar para professoras e professores da área de Ciências. Na primeira parte vou apresentar uma fala que tenho feito mais recentemente: ‘Das disciplinas à in-disciplina’. Na segunda parte, parto de artigo em vias de publicação pela revista Competência:  ‘Blogues como artefatos culturais pós-modernos para fazer alfabetização científica’ para tentar responder três perguntas: O que escrevo? Como escrevo? Por que escrevo?
Mas sábado é dia de dica de leitura. A de hoje é uma evocação a ter substituído um dos maiores pensadores da atualidade em Belém do Pará na fala de encerramento do Colóquio Brasil-França. Assim, a sugestão é Um ponto no holograma - A história de Vidal, meu pai um dos mais reconhecidos sociólogos pós-moderno faz uma admirável tessitura de mais de quatro séculos da historia de sua família, para nos narrar a densa história de Vidal, seu pai.
Eis os dados bibliográficos da obra: MORIN, Edgar. Um ponto no holograma - A história de Vidal, meu pai. São Paulo: A Girafa Editora, 2006, 448p. ISBN 85-89876-97-7
Não deve ser muito usual que um muito reconhecido sociólogo, antropólogo, historiador e filósofo se proponha a oferecer um livro acerca de sua família, mais especialmente de seu pai e também muito da sua, que não tem sempre as marcas da ortodoxia. Edgar Morin, nascido em Paris em 1921, é Diretor emérito de pesquisas do Centro Nacional de Pesquisa Científica e fundador do Centro de Estudos Transdisciplinares da Escola de Altos Estudos em Ciências Sociais, ambos situados em Paris, onde reside. Sua obra mais conhecida ‘O método’, teve seus seis volumes traduzidos e publicados no Brasil, pela editora Sulina de Porto Alegre. Esta obra tem sido referência para seminários em várias universidades brasileiras.
Talvez pudesse iniciar perguntando aos leitores deste blogue o que conhecem acerca de Salônica ou qual a identidade de salonicense. Se houve evocação às epístolas de Paulo aos tessalonicenses, a ligação está certa. Salônica (ou Tessalônica) hoje é a segunda maior cidade da Grécia; foi importante há pelo menos 20 séculos. Ela é central em A história de Vidal, meu pai a partir do século 15. Em 1492, depois da queda da Granada, o Islã é rechaçado da Europa ocidental e a Espanha, então governada pelos reis católicos, Isabel e Fernando, impõe a judeus e muçulmanos o exílio ou a conversão. As dezenas de milhares de judeus que recusam a conversão ao cristianismo se espalharam pelo mundo. Com a diáspora dos sefarditas os judeus da Espanha espalham-se em pequenas comunidades rumo à Holanda, à Provença, mais amplamente rumo à África do Norte e sobretudo ao Oriente, Império Otomano adentro. Alguns se instalam nas cidades portuárias de Istambul, de Izmir e, principalmente, de Salônica, onde 20 mil deles desembarcam.
Esses judeus formam uma pujante comunidade, que por mais de quatro séculos conserva não apenas a fé judaica, mas a o uso do ladino – língua ibérica semelhante ao castelhano falada por comunidades judaicas originárias da península Ibérica, também chamada de judeu-espanhol ou dijio –. Salônica foi, há um tempo turca, macedônia, italiana, grega e seus habitantes que usava como identidade ‘judeu salonicence’ ou ‘israelita do Levante’, e trocavam de nacionalidade com freqüência.
Em 1894, Vidal Nahoum – um judeu sefardita –, pai de Morin, nasceu em Salônica, e atravessou as guerras balcânicas, a derrocada do Império Otomano, e as duas guerras mundiais. E é a partir de Vidal Nahoum e de Salônica que o historiador traça um panorama dos judeus sefarditas.
Permito-me um parêntesis [Numa simplificação: entre nós (e me refiro ao Rio Grande do Sul) os judeus se dividem em a.- asquenazis – são judeus originados da Europa Central (o chamado judeu-alemão), cuja língua é o iídiche {já referido na resenha de “O Peregrino”} idioma baseado no alto-alemão do século 14, acrescido de elementos hebraicos e eslavos; e b.- sefarditas ou sefaradins – judeu descendentes dos primeiros israelitas de Portugal e da Espanha, que falam o ladino. No RS, a comunidade asquenazi é mais numerosa que a sefaradim]
Acompanhamos na trajetória do biografado a história da Europa do Século 20, onde as duas guerras, a holocausto dos judeus e as alterações de fronteiras dão o tom a uma narrativa emocionante. Acompanhar o pai em duas guerras e depois o filho como ativista na 2ª Guerra Mundial, quando a família já vive na França é muito envolvente.
O livro é uma primorosa edição de A Girafa Editora. Há pequenas imprecisões do tipo ‘31 de novembro’ que parecem não comprometer o texto. A leitura de A história de Vidal, meu pai é facilitada por árvores genealógicas de duas famílias judias salonicenses: Nahum (ramo paterno de Edgar Morin) e Beressi (materno) e de uma cronologia detalhada de seis séculos (1391-1986). Esses dois anexos são bons facilitadores para balizamentos da narrativa, especialmente quando não se tem a desejada condição de fazê-lo por muitas horas seguidas.
É com entusiasmo que recomendo às leitoras e aos leitores do deste blogue  essa obra mais recente de Edgar Morim. A oportunidade de conhecermos como se deu e como se dá construções de identidades – e as lutas de dos homens e das mulheres para consegui-las, escondê-las, mantê-las – é provavelmente um dos pontos mais significativos desse livro. Também por isso vale lê-lo.
Agora apenas votos de muito bons sábado e domingo. Na expectativa de lermos amanhã de Porto Alegre mais uma vez, pois retorno depois da fala direto de Lajeado.

090626 * Edição # 1058

 

26JUNHO2009

SEXTA-FEIRA

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Ano 3

#1058

Uma manhã muito fria no Rio Grande do Sul. Com várias cidades com temperaturas negativas. Aqui Porto Alegre há temperaturas de 4ºC. Não vou comentar a morte de Michael Jackson aos 50 anos, que desde a noite de ontem abala o ocidente. Todavia, não posso deixar comentar blasfêmia proferida por aquele que é tido como o mais lido cronista gaúcho:” O maior feito de Michael Jackson foi libertar-se de ser negro!”. Um horror. Sem comentários.

Parece-me natural que essa blogada ainda se marcada pelas intensas experiências vividas ontem no Instituto de Educação Josué de Castro no ITerra em Veranópolis. Deixei a ‘terra da longevidade’ toldada de espessa neblina, que me assustou ante a necessidade de descer a serra, às 13h45min; depois de uma circulada por Bento Gonçalves e Garibaldi, entremeadas de gostosas dormidas, às 17h estava em casa. 

Ontem, encerrei pela manhã um ciclo de quatro turnos para educandas e educandos do curso de Técnico de Saúde Comunitária. Este educador referiu neste blogue, na quarta-feira que no contexto do MST não é usual referir a alunas e alunos, pois se diz que etimologicamente aluno, significa sem luz. Quero dizer que, uma única vez, fui referido como professor, com imediata retificação para educador. E entre os estudantes as referências foram sempre a educanda e educando. Observei que, pelo menos três comentaristas distinguidos este blogue tenham aderido a essa maneira de referir-se corrente no grupo.

Retornado à Morada dos Afagos fiz uma busca da etimologia em dois dicionários. Não encontrei em nenhum a possível alusão de que aluno signifique: ‘sem luz’. Todavia etimologia encontrada confere ao Setor de Educação do MST, desrrecomendar o uso de alunas e alunos. Eis o que coloca o Houaiss: Etimologia latim alumnus,i 'criança de peito, lactente, menino, aluno, discípulo', derivado do verbo alère 'fazer aumentar, crescer, desenvolver, nutrir, alimentar, criar, sustentar, produzir, fortalecer etc.'; ver alt-; formação histórica: 1572 aluno, 1572 alumno;

Além dessa descrição etimológica há acepções que contra-indicam usar aluno: como esta do Houaiss: 3. pessoa de parco saber em determinada matéria, ciência ou arte e que precisa de orientação e ensino. O Aurélio tem uma acepção similar: 2. Aquele que tem escassos conhecimentos em certa matéria, ciência ou arte; aprendiz.

Lateralmente devo dizer que, ao concordar com o não uso de alunas e alunos, acredito que o abandono do termo ‘professor’ que para mim é muito grato, se deve, segundo infiro, apenas por uma isonomia entre Educador e Educando.

A manhã de quinta-feira, nas suas 4,5 horas foi pequena. Por problemas técnicos no hotel, só cheguei ao ITerra para as aulas. Deixei de assistir um dos momentos matinais que mais me encanta: a mística. Primeiro fizemos uma retomada do filme O Vento Será Tua Herança que víramos. Ouvi encantados alguns comentários bem postos. Em seguida retomamos o assunto combustão hoje aditado de estudos acerca da fotossíntese, na busca de entender do equilíbrio oxigênio gás carbônico. A discussão acerca do abandono do paradigma flogístico foi antecedida da olhada panorâmica de revoluções paradigmáticas anteriores e posteriores a revolução lavosierana. Nisso fomos coadjuvados por Thomas Kuhn e Paul Feyerabend. 

Ainda fizemos uma breve preparação do filme Marie Curie. Trata-se de um filme estadunidense de 1943 do gênero drama biográfico, dirigido por Mervyn LeRoy. A produção retrata a vida da célebre física franco-polonesa e ganhadora de dois Prêmios Nobel (Fisica 1903) e Química (1811). O produtor foi Sidney Franklin para o Estúdio MGM. Roteiro de Paul Osborn, Paul H. Rameau e Aldous Huxley (não creditado), adaptado da biografia escrita por Eve Curie, filha de Marie. Este filmes os estudantes vão assistir e remeter um trabalho, como atividade complementar, para completar 1,5 hora que deixei a descoberto.

Encerramos com a parte que eles mais esperavam. Um estudo da ‘Tabela Periódica'. Se organizaram nos três grupos de base, como estão usualmente organizados: Che Guevara, Antonio Gramsci e Irmã Doroti e manipularam tabelas periódicas que eu levara para distribuição. Fiquei encantado, quando a maioria, que jamais usura esse recurso, estava propondo combinações de elementos para formar substâncias.

Quando do encerramento fui agraciado com uma artística camiseta com o dístico: Reforma Agrária por Justiça Social e Soberania Popular e um produto da linha Reforma Agrária: um pote de geleia de uva. Eu ofereci exemplares de meus livros à Biblioteca do Instituto de Educação Josué de Castro. Ao final: estava cansado? Sim, mas muito feliz. Essa atividade que desenvolvi na quarta e quinta feira é, dentre todas, aquela mais me gratifica emocionalmente. Valeu parecer um Quixote.

Uma nota lateral, no atestar como cada vez a internet nos faz próximos. Ontem â noite, meu cunhado Antônio Otelo Cardoso, me chama pelo Skipe. O Imaginava em Curitiba ou na Foz do Iguaçu, onde é um dos diretores da Hidroelétrica de Itapu. Ledo engano. Ele chamava-me de Reykjavík (em português Reiquejavique ou Reiquiavique; Reykjavík = baía fumegante) é a capital da Islândia e, pela sua posição, é também a capital mais setentrional do mundo. Durante o inverno, os dias duram quatro horas e, agora quando é verão (ele me dizia que então era quase 23horas, as noites não existem. A cidade situa-se a 64° 04' de latitude norte, muito perto do círculo polar ártico. Otelo está na Islândia para participar de uma Conferência Mundial em defesa da sustentabilidade das hidroelétricas organizado pela International Hydropower Association. É algo fantástico de repente ‘viajar’ para um lugar, onde talvez nunca irei. Mas alem do papo, valeu conhecer um pouco Reykjavik.

Já que fiz uma tão distante incursão geográfica, um comentário acerca de uma cidade mais próxima e não tão exótica. Referi, nesses três dias aqui Veranópolis.

A aprazível cidade está no Nordeste do Rio Grande do Sul, na Microrregião Caxias do Sul. É considerada a capital brasileira da longevidade por ser a terceira cidade no mundo neste quesito. Também é conhecida como a Princesa dos Vales. O nome da cidade vem de "Cidade de veraneio". A maioria dos habitantes é descendente de imigrantes italianos, seguidos de poloneses e de outras etnias. Os primeiros imigrantes italianos chegaram a Veranópolis a partir de 1884. Até 31 de dezembro de 1943, tinha o nome de Alfredo Chaves, homenagem a Alfredo Rodrigues Fernandes Chaves. Este foi Ministro da Colonização e Ministro da Marinha no Império.

Não encontrei uma explicação de porque foi deserdado do patronato da bucólica cidade, que hoje acolhe, em parte das dependências de um antigo seminário dos freis capuchinhos, líderes ligados ao MST de todo o Brasil, em busca de formação para uma melhor militância. 

Amanhã a blogada sabatina, com apetitosa dica de leitura, será de Estrela ou Lajeado. Fala pela manhã a cerca de 150 professoras e professores na UNIVATES numa promoção do Instituto PalavrAção. No final da tarde de hoje vou à Estrela, para esta noite curtir a Ana Lúcia, Eduardo e Guilherme e na manhã de amanha sigo a Lajeado, retornando a Porto Alegre depois da palestra. Encerro com votos de uma boa sexta-feira e um acolhedor shabath. Lemo-nos amanhã.


 

090625 * Edição # 1057

 

 

25JUNHO2009

QUINTA-FEIRA

Desde a terra da longevidade: VERANÓPOLIS

Ano 3

#1057

Esta postagem é de Veranópolis onde ontem e hoje estive/estou no Instituto de Educação Josué de Castro – localizado no complexo do Instituto de Capacitação e Pesquisa da Reforma Agrária (ITerra), Aqui ministro 15 aulas para educandas e educandos [ontem, este educador, referiu aqui, porque neste contexto não usa alunas e alunos] do curso de Técnico de Saúde Comunitária. Deixei Porto Alegre às 05h e, depois de visitar as rodoviárias de São Leopoldo, São Sebastião do Caí, Bom Princípio, Farroupilha e Bento Gonçalves, subir a serra do vale das Antas, cheguei à terra da longevidade às 08h40min, com 4ºC. 

Antes das 10h já estava no ITerra para uma reunião com a comissão pedagógica. Então, preliminar anunciei que seria indisciplinado e não seguiria os conteúdos ‘clássico’ (e inúteis) de Química que me foram remetidos, mas faria discussões acerca da Ciência. Aceitaram minhas ponderações. Logo estava em sala de aulas para falar de Ciência para 24 homens e mulheres de idades entre 15 e 45 anos, vindos 10 do Rio Grande do Sul, 3 de Santa Catarina, 5 do Paraná, 1 de São Paulo, 1 do Distrito Federal, 2 do Ceará,1 do Pará e 1 do Paraguai. 

Houve por primeiro uma pequena vingança da tecnologia: o meu material não abria no computador local, que só opera com software livre. Salvou-me meu notebook. Depois das apresentações dos participantes, solicitei que individualmente, cada um colocasse em algumas linhas suas expectativas para as 15 aulas que viveríamos juntos. As mais de duas dezenas de anseio completariam o espaço desta edição. E, nem se fosse um mago poderia correspondê-los, mas muitos anelos já devem ter sido respondidos.

Em um segundo momento, solicitei que em duplas, respondessem a pergunta: ¿O que é Ciência, afinal? A leitura das produções ensejou excelentes discussões e desmistificações de algumas proposituras. Vencidas essas duas etapas, houve dois momentos preambulares ao inicio ‘formal das aulas’. Primeiro fiz uma homenagem ao Charles Darwin, na esteira do ano darwiniano. Isso exigiu uma discussão mais aprofundada discussão acerca de criacionismo versus evolucionismo, nem sempre trivial. O segundo momento foi a trazida de uma contextualização do ecossistema do encontro, ensejando que falasse sobre alerta 350 ppm, a Teoria Gaia de Sir James Lovelock, encerrando com uma charge que ofereço a seguir aos meus leitores.

Depois destas preambulares que se fizeram muito mais extensas que planejara iniciei com uma analise, onde descrevi a Ciência como uma construção humana, comparando-a com outros cinco mentefatos culturais. Ao considerá-la como uma linguagem, foi destacando exigências de uma alfabetização científica. Isso foi permeado de muitos exemplo de diferentes ‘disciplinas’ como vou contar a baixo. Isso consumiu a parte da manhã (10h30min às 12h30min) e a tarde (14h ás 18h30min).

Houve a sugestão que na parte da noite tivéssemos uma sessão de cinema, até para amenizar as exposições havidas antes, que mereceram muitos elogios na avaliação dos estudantes. Ofereci quatro opções para o terceiro turno: Guerra do Fogo, Vida de Charles Darwin, Marie Curie, O vento será a tua herança (estes dois últimos atenciosas doações de Geziel Moura, um querido belenense leitor desse blogue). Escolheram o quarto que assistimos a partir das 2030min e Marie Curie fica, para assistirem quando já não mais estou com eles, como trabalho suplementar, pois não conseguirei inteirar 15 horas relógio. 

O Vento Será Tua Herança [Inherit the Wind, Direção: Stanley Kramer Roteiro: Jerome Lawrence (peça), Robert E. Lee (peça), Nedrick Young (roteiro adaptado), Harold Jacob Smith (roteiro adaptado) Spencer Tracy, Fredric March, Gene Kelly, Claude Akins, Elliott Reid, Dick York,Donna Anderson, Harry Morgan, Paul Hartman, Philip Coolidge 1960, Estados Unidos. 128min, Drama histórico, P&B]. 

O filme é um clássico inspirado em um caso real, o "Processo do Macaco de Scopes", como foi chamado o caso do Estado do Tennessee contra o professor de biologia John Thomas Scopes, ocorrido em Dayton, 1925. O professor foi julgado por ensinar a teoria da Evolução em uma escola pública. Filme antigo, mas que não se perde no tempo, é para ser visto várias vezes, pois os diálogos são profundos e emocionantes. É a luta pelo direito que o indivíduo tem de ser e poder ser diferente, de pensar e expor seus pensamentos de modo pacífico e em liberdade. Como pano de fundo, o fanatismo religioso engessando a inteligência dos mais simples. Numa cidade marcada pela forte presença da comunidade religiosa, professor é preso por ensinar a Teoria da Evolução de Darwin. O caso vai para o tribunal, onde acontece uma série de inflamados debates ideológicos, que mexem com a localidade e com seus habitantes. Baseado em caso real ocorrido em 1925.

Já passava das 22h30m quando todos vimos emocionados as cenas finais. O adiantado da hora não permitiu que discutíssemos o filme. Mas os olhares já disseram muito. Talvez sintetizasse naquilo que me disse o Carlos – um dos decanos da turma e dos três que ainda estão no MS@ – quando com mais um colega me fez escolta em trecho na noite fria: “Aulas como as de hoje me farão pensar o resto da vida!”. Soava 23h, quando passava diante da igreja matriz, rumo ao hotel. O termômetro marcava 4ºC. Eu acelerava passo, pois não conseguira taxi. E a noite era sofrida para os gremistas. 

Vencido três dos quatro turnos devo solenemente dizer que tenho posto em prática com pertinência o que tenho teorizado nas últimas palestras. Não estou dando aulas de Química. Falei hoje de assuntos de Física, de Biologia, de Matemática, de História e Filosofia da Ciência, Geografia, Língua Portuguesa e, até de Química. Aqui trabalhei mais intensamente reações de combustão, especialmente o significada das mesmas no aproveitamento da glicose na alimentação humana, do GLP no fogão doméstico e das diferenças do heptano e do octano em um motor de automóvel e da consequências destas na alteração das taxas de carbono (gás carbônico) na atmosfera.

Houve algo lateral que merece ser contado. Meu telefone (e de outros) foi recolhido à portaria, mesmo que argumentasse o meu estava em modo silencioso. Disseram-me que mesmo desligado deveria ser recolhido e se eu o trouxesse amanhã (hoje) seria recolhido de novo. As razões para tal serviu para que eu exemplificasse como pensamento mágico: que a presença de telefones celulares em uma sala (mesmo desligados) permite que espiões distantes capturem informações do que está sendo dito. Ante meu argumento que tal deveria ser falacioso, fui contraposto com a afirmação: “Educador, não afirmastes que não existe a Verdade!”. Rendi-me.

Amanhã conto outros comentários das aulas aditando àqueles que serão produzidos na sessão desta manhã (das 08h às 14h30min). Completarei então o relato da jornada deste mestre-escola. Uma boa quinta-feira.


 

090624 * Edição 1056

24JUNHO2009

QUARTA-FEIRA

Com anúncios de frio partindo para a terra da longevidade: VERANÓPOLIS

Ano 3

#1056

Esta edição está sendo postada quando recém começa o dia de São João. Ocorre que às 05 h parto da rodoviária, rumo à Veranópolis onde hoje e amanhã, no Instituto de Educação Josué de Castro – Iterra, ministro 15 aulas para educandas e educandos [sei que não posso me referir a alunas e alunos, pois se diz que etimologicamente aluno, significa sem luz] do Curso de Técnico em Saúde Comunitária. Essas atividades junto ao MST são para mim muito gratificantes. Sobre as mesmas devo falar na edição de amanhã.

Não faz muito que voltei das aulas com a turma do 5º semestre do curso de licenciatura em Filosofia do Centro Universitário Metodista - IPA. Serei uma vez mais repetitivo. As noites de terças-feiras são os melhores momentos acadêmicos da semana. Hoje as aulas da Filosofia foram antecedidas com minha participação em banca de três trabalhos de conclusão do curso de Música, das 19h10min às 21h. Foi muito bom reencontrar-me com o ‘Curso de Música’ e, mesmo da área da Química não me sentir um alienígena. Participei como avaliador convidado de três excelentes Relatos de Estágio de Conclusão de Curso: Lauro Bellini, Ana Borba e Rafael Carneiro. Nas aulas da Filosofia na hora da rodinha pontificaram: a situação do Irã – e a maneira não formal de dar conhecimento ao mundo do que lá acontece – e os escândalos do senado – com Sarney, aquele de família bem constituída –. No tema de pesquisa e na micro-aula a estrela foi a Sheila Lisandra Nunes. No primeiro tópico, ela fez uma panorâmica apresentação da trajetória da Escola desde os egípcios até os dias atuais e sua micro-aula foi acerca da ‘Teoria dos sentimentos morais’ de Adam Smith. Foi uma noite muito rica.

Há alguns dias queria contar algo acerca de uma mensagem que recebi de Ana Maria Botelho de Lima, uma atenta leitora de Porto Velho, Rondônia. A cidade me evoca o mês que lá vivi como professor em 1973 (se a memória não me trai quanto ao ano) no Campus Avançado do então Território de Rondônia. Esta é experiência precisa, ainda, ser resgatada para o livro que sonho escrever acerca de minha história de professor.

Mas Ana Maria me remete a outra muito gostosa experiência acadêmica mais recente. Em 1998, o Renato José de Oliveira, doutor em Educação e experto em Bachalerd e eu organizamos “Ciência, ética e cultura na educação”. Foi um livro que teve bastante sucesso, tanto que a Editora Unisinos fez mais tiragens até 2001. Há na obra algumas originalidades editoriais, sem falar na preciosidade dos textos. Renato e eu convidamos mais 10 renomados colegas para escrever um capítulo que poderia ser enfeixado dentro do título. Com 12 textos amealhados, escolhemos para cada um, um mestrando ou um doutorando da área de ensino de Ciências para, como pré-leitor, fazer um comentário crítico de apresentação de duas páginas para anteceder o texto. Outro detalhe original da obra é que cada um dos 12 autores faz uma auto-apresentação. O livro teve ainda primorosa apresentação geral do filósofo Leandro Konder. Há outro um detalhe precioso: para a capa elegi a reprodução de um cartaz que há na Universidade de Salamanca, onde se imputa excomunhão, reservada a remissão papal, a quem subtrair livro daquela biblioteca. Lateralmente devo contar que tenho um mosaico com esta mesma reprodução em minha biblioteca.

Mas a pergunta: onde entra a colega Ana Maria na história? Meu texto no livro é: “Inserindo a História da Ciência no fazer Educação” e ela escreveu-me perguntando o que eu queria dizer, naquele texto, com ‘contemplar a espada de Dâmocles’ em uma frase que agora transcrevo: “Quando vejo meus alunos e alunas de cursos do Centro de Ciências Econômicas, no meu trabalho em uma disciplina de Introdução à Filosofia da Ciência, o que mais me angustia é contemplar a espada de Dâmocles, chamada desemprego, que está sob suas cabeças. Eles e elas vivem as transformações dos cenários de trabalho, onde este dragão chamado de mundialização faz desaparecer cada vez mais o emprego e até profissões. Há pessoas cujo trabalho é subitamente modificado”.

Para esclarecer minha leitora transcrevi uma historieta que colhida na rede, que se diz ser uma adaptação de original de James Baldwin. Vale ler:

A Espada de Dâmocles: Era uma vez, um rei chamado Dionísio, monarca de Siracusa, a cidade mais rica da Sicília. Vivia num palácio cheio de requintes e de coisas bonitas, atendido por uma criadagem sempre disposta a fazer-lhe às vontades.

Naturalmente, por ser rico e poderoso, muitos siracusanos invejavam-lhe a sorte. Dâmocles estava entre eles. Era dos melhores amigos de Dionísio e dizia-lhe frequentemente;

– Que sorte a sua! Você tem tudo que se pode desejar. Só pode ser o homem mais feliz do mundo!

Dionísio foi ficando cansado de ouvir esse tipo de conversa.

– Ora essa! Você acha mesmo que eu sou mais feliz do que todo mundo?

O amigo respondeu:

– Mas é claro! Olhe só o seu tesouro e todo o seu poder! Você não tem absolutamente nada com que se preocupar. Poderia sua vida ser melhor do que isso?

–Talvez você queira trocar de lugar comigo - disse Dionísio.

– Ora, eu nem sonharia com uma coisa dessas! Mas se eu pudesse ter sua riqueza e desfrutar de todos esses prazeres por um dia apenas, não desejaria felicidade maior.

– Pois bem! Troque de lugar comigo por um dia apenas e desfrute disso tudo. E então, no dia seguinte, Dâmocles foi levado ao palácio e todos os criados reais lhe puseram na cabeça as coroas de ouro. Ele sentou-se à mesa na sala de banquetes e foi-lhe servida lauta refeição. Nada lhe faltou a seu bel-prazer. Havia vinhos requintados, raros perfumes, lindas flores e música maravilhosa. Recostou-se em almofadas macias. Sentiu-se o homem mais feliz do mundo.

– Ah, isso é que é vida! Nunca me diverti tanto! confessou a Dionísio, que se encontrava sentado à mesa, na outra extremidade. 

Dâmocles enrijeceu-se todo. O sorriso fugiu-lhe dos lábios e o rosto empalideceu. Suas mãos estremeceram. Esqueceu-se da comida, do vinho, da música. Só quis saber de ir embora dali, para bem longe do palácio, para onde quer que fosse. Pois pendia bem acima de sua cabeça uma espada, presa ao teto por um único fio de crina de cavalo. A lâmina brilhava, apontando diretamente para seus olhos. Ele foi se levantando, pronto para sair correndo, mas deteve-se tremendo que um movimento brusco pudesse arrebentar aquele fiozinho fino e fizesse com a espada lhe caísse em cima. Ficou paralisado, preso ao assento.

– O que foi, meu amigo? - perguntou Dionísio - Parece que você perdeu o apetite.

– Essa espada! Essa espada! Você não está vendo? disse o outro, num sussurro. 

– É claro que estou. Vejo-a todos os dias. Está sempre pendendo sobre minha cabeça e há sempre a possibilidade de alguém ou alguma coisa partir o fio. Um dos meus conselheiros pode ficar enciumado do meu poder e tentar me matar. As pessoas podem espalhar mentiras a meu respeito, para jogar o povo contra mim. Pode ser que um reino vizinho envie um exército para tomar-me o trono. Ou então, posso tomar uma decisão errônea que leve à minha derrocada. Quem quer ser líder precisa estar disposto a aceitar esses riscos. Eles vêm 

junto com o poder, percebe?

– É claro que percebo! Vejo agora que eu estava enganado e que você tem muitas coisas no que pensar além de sua riqueza e fama. Por favor, assuma o seu lugar e deixe-me voltar para a minha casa! disse Dâmocles.

Até o fim de seus dias, Dâmocles não voltou a querer trocar de lugar com o rei, nem por um momento sequer. 

Com votos de que a quarta-feira seja preciosa, agradeço torcidas pelo meu êxito em Veranópolis, de onde pretendo escrever, amanhã.


090623 * Edição # 1055

 

23JUNHO2009

TERÇA-FEIRA

Conheças meus livros em www.attticochassot.com.br

Ano 3

#1055

Uma manhã chuviscosa. Era noite fechada quando antes das 07h chegava a Academia Treinar. Estamos no dia da noite maior do ano no Hemisfério Sul. Uma data que na minha infância era sempre esperada: a vigília de São João. A noite das fogueiras. Quisera trazer aqui evocações de minha infância misturadas como os rituais de fertilidade, que marcavam os solstícios de inverno e de verão, presentes em cultura como dos incas e assimiladas sincreticamente pela Igreja cristã para assinalar as festas natalinas e juninas. Talvez mais bem posto seria dizer apropriadas pela Igreja. Deveria louvar aqui o quase abandono da prática anti-ecológica de se fazer fogueiras. Sempre recordo quando há não muito, estive em junho em Jequié, na Bahia, e me surpreendeu ver a venda de pirâmides de lenha, como fogueiras pré-prontas, como aqui se vende pinheirinhos naturais. As duas situações deveriam ser abandonadas.

Não há condições para diletantismos, por mais que isso me agrada, às vezes. Há uma manchete crucial, que diz como o Poeta; Cessa tudo que a musa antiga canta, pois assunto mais alto se alevanta.

Vejam-se estas duas cruentas manchetes: “Com a crise, fome atingirá 1 bilhão de pessoas, diz ONU” e  “Contingente de subnutridos no mundo deve crescer em 100 milhões neste ano” 

Estimativa é que o total de subnutridos cresça mais nos países desenvolvidos, com alta de 15%; diretor da FAO vê "crise silenciosa da fome"  O número de pessoas que passam fome no mundo deve ultrapassar, neste ano, pela primeira vez a marca de 1 bilhão -ou quase 1 em cada 6 pessoas-, resultado da crise que aumentou o desemprego e reduziu o poder de compra da população (especialmente dos mais pobres), segundo a FAO (organismo da ONU para a agricultura e a alimentação).

Isso significa que mais 100 milhões de pessoas entrarão na zona da fome neste ano, encerrando período de mais de 20 anos em que vinha caindo a proporção da população mundial subnutrida -resultado dos projetos contra a pobreza e do crescimento nos últimos anos de economias como Índia, China e Brasil. Agora, o número deve ficar em torno de 16% da população mundial, retornando ao nível do período de 1990-92 -entre 2003 e 2005, a população subnutrida era de 13%.

Para a FAO, são subnutridas pessoas que consomem menos de 1.800 calorias ao dia, mas esse número varia de país para país – no Brasil, a exigência é um pouco maior. Essa quantidade de calorias é a necessária para que a maioria dos adultos mantenha seu peso.

O aumento nos preços dos alimentos, especialmente nos últimos dois anos, também foi uma das causas. Apesar de terem recuado em relação aos níveis recorde da metade de 2008, os preços dos alimentos básicos estavam 24% mais altos no fim do ano passado do que dois anos antes. E a alta na cotação não é resultado de colheitas menores, já que a produção de alimentos esperada para este ano é levemente inferior ao recorde atingido no ano passado, de acordo com estimativa da FAO.

"A crise silenciosa da fome, que afeta um sexto de toda a humanidade, constitui um sério risco para a segurança e a paz mundial", disse o diretor-geral da FAO, Jacques Diouf. "Hoje, o aumento da fome é um fenômeno global. Todas as regiões foram afetadas."

Segundo as projeções da FAO, o menor aumento no número de subnutridos, 10,5% mais que em 2008, ocorrerá na região da Ásia e do Pacífico (países como Tailândia, Vietnã e Papua Nova Guiné), que é o local que já abriga o maior número de subnutridos, pouco mais de 600 milhões -sinalizando que a pobreza tem menos espaço para avançar e também consequência do crescimento de economias como China, Índia e Indonésia, que estão entre as que melhor absorvem o impacto da crise.

Em contraste, é nos países desenvolvidos, que foram o epicentro da crise, que a fome deve avançar mais: alta de 15%. O total, porém, é bastante inferior ao das demais regiões: 15 milhões de pessoas.

Na América Latina e no Caribe, o número de subnutridos deve chegar a 53 milhões, 8 milhões a mais do que no período de 2004 a 2006 (13% de alta), voltando ao nível dos anos 90.

Marcado pelo realismo acabrunhante destes dados desejo a cada uma e cada um uma muito boa terça, que eu viverei muito imerso na preparação das 15 aulas de Química que darei amanhã e quinta-feira no ITerra, em Veranópolis, no Curso de Técnico em Saúde Comunitária. Mas, antes esta noite tenho as sempre esperadas aulas na Filosofia no Centro Universitário Metodista - IPAEstas serão antecedida de participação em banca de três trabalhos de conclusão do curso de Música, das 19h10min às 21h,


 

090622* Edição 1054

22JUNHO2009

SEGUNDA-FEIRA

Conheças meus livros em www.attticochassot.com.br

Ano 3

#1054

De novo em Porto Alegre. Chegamos no horário aprazado. Essa ida e volta a Belém teve a marca da pontualidade nos quatro voos de quase 8.500 quilômetros. Mesmo tendo referido, ontem, na abertura o início do inverno de 2009, não fiz formalmente meus votos a meus queridos ledores. Faço-o, agora com desejo do melhor nesta estação. É justificado meu olvido. Estando por quatro dias na Amazônia vivia sob os presságios do inicio do verão. Os comerciais dos jornais festejavam o inicio do período de praia. Na região em torno da Linha do Equador a característica do Verão (e mesmo estando legalmente no Hemisfério Sul, as referências são ao Verão) é a estação da ausência de chuvas.

Assim, ter estado nesse início de verão em Belém, me fez evocar que há um ano finalizava a blogada: “Encerro com votos de um muito bom inverno, e, para meus eventuais leitores do hemisfério Norte, desejo um muito bom verão. Não sei que votos expressar a leitores como os de Belém, que parecem não ter, pela proximidade do Equador, definidas estações como quem vive no Paralelo 30. A todos adito votos de um bom fim de semana. A referência àqueles próximos da linha do Equador devia-se ao fato de ter uma querida comunidade de amigos leitores em Belém do Pará – isso ratificado nesses dias belenitas –, logo não desfrutam daquilo que chamamos, por exemplo, de primavera ou inverno”.

Então, no dia seguinte fora encantado com a presença de uma leitora que vive próximo da linha do Equador e que faz uma sugestão para os votos aos residentes em paralelos próximos ao zero. Vejam este arencioso comentário: “Debería desearnos vientos frescos para apaciguar el sol que calienta el año todo. Mis felicitaciones, Profesor Chassot, me encanta su manera ligera y a la vez profunda de expresar sus ideas. Saludos desde el siempre cálido Guayaquil, justo en el Ecuador, Matilde Kalil”.

Dias depois, em resposta a uma pergunta: “Soy del área Psicología Social y trabajo en Investigación de Mercados desde hace más de veinte años. La alegría por leerlo es grande, por haber encontrado un espacio de aprendizaje y pensamiento crítico valioso”. Esta resposta, um dos mais significativos retornos ao meu fazer pedagógico com artefato cultural pós-moderno, parece traduzir o êxito do trabalho na proposta de fazer do blogue um espaço privilegiado para produzir alfabetização científica. Permito-me registrar, passado um ano, a continuada presença desta leitora, com usuais argutos comentários. Talvez seja ela a pessoa que confira estatuto internacional a este blogue. Desejo que em sua Guayaquil e em toda região equatorial, nesse verão/inverno soprem “vientos frescos para apaciguar el sol que calienta el año todo!”

Vale um breve comentário ainda acerca de consequências do clima amazônico. Neste sábado, quando ao final da conferência de encerramento, a voz ameaçou-me faltar depois de uma fala continuada de 100 minutos disse, como brincadeira, ao responder a uma bem posta colocação: “Pedira aos meus santos protetores, que me garantissem a voz durante a palestras. Eles o fizeram, pois desde que aqui cheguei minha garganta protesta contra o choque térmico entre as salas super-refrigeradas e calor exterior. Ocorrem que não disse eles que haveria perguntas ao final. Eles me atenderam, mas negam-me voz às perguntas!” Era uma sinalização discreta para se fazer o encerramento, pois já passava das 13h.

Mas não merece que eu vitupere o clima. Para mim pior que o clima é o uso exagerado do ar condicionado. Mas houve boas compensações para vencer as adversidades climáticas. Nos oito almoços/jantas belenenses comi peixes ou assemelhados obtidos dos rios que fazem Belém uma cidade cerca de 80% insular. Também já referi aqui os ‘desayunos’ com sopa de caranguejo e mingau de milho.

É muito impressionante esse retorno. Mesmo viajando com frequência, desta vez parecia que fazia semanas que estava ausente da Morada dos Afagos. Não quero ser evocado como a raposa que desdenhou as uvas que não alcançava. Agradeço ao burocrata que me impediu conhecer desta vez Marajó. Já tenho convites para voltar mais extensamente a Belém. Por ora o melhor foi voltar um dia antes. Isso se deve, talvez, pela distância e pela intensidade do evento. Claro que no entardecer de domingo cevar um chimarrão para sorvê-lo com o Bernardo foi um bom ‘matar saudades’: do filho querido e daquilo que Glaucus Saraiva poetou assim: Amargo doce que eu sorvo / Num beijo em lábios de prata. /Tens o perfume da mata / Molhada pelo sereno. / E a cuia, seio moreno, / Que passa de mão em mão / Traduz, no meu chimarrão, / Em sua simplicidade, / A velha hospitalidade / Da gente do meu rincão.

Com votos de uma muito boa semana junina, onde além de uma fala em Lajeado no sábado, tenho quinze aulas de Química no ITerra, em Veranópolis, na quarta e quinta feiras. Agora, a promessa de um reencontro amanhã aqui.


090621 * Edição 1053

21JUNHO2009

DOMINGO

Na inauguração do INVERNO de Belém rumo à Brasília e daí à Porto Alegre.

Ano 3

#1053

Estamos quase deixando Belém. Às 5h devemos estar no aeroporto. Fazemos apenas um rápido lanche antes de deixar o hotel. Não há nesse horário aqueles atrativos da culinária do Norte que nos encantaram em outros três dias que estivemos aqui como sopa de caranguejo, canjica com canela, torta de macaxeira etc. Seremos carinhosamente levados ao aeroporto pelo Geziel, um Mestre em Ensino de Ciências pela UFPA, de quem já fiz referência nesse blogue quando há uns anos me presenteou cópia do filme Marie Curie.

Minha fala de ontem esteve concorridíssima. Falei das 11h30min até as 13h15min com auditório lotado. De todos os mais diferentes elogios recebi dos por minha fala neste domingo no encerramento do Colóquio Educação em Ciências e Matemáticas: Perspectivas Interdisciplinares, 2009: ano Brasil-França (e foram muitos) aquele que disse mais a minha alma foi ouvir a Gelsa, embargada às lágrimas, dizer, que de todas as vezes que me ouviu falar esta havia sido a melhor. A manhã ainda teve muita tietagem com tirada de fotos e outorga de autógrafos. 

Ter substituído uma parte da palestra para acrescentar o quanto ‘a Enciclopédia francesa pode ser reconhecido como um ícone da disciplinarização no Século das luzes’ e em um outro movimento: mostrar como na França, no começo do Século 20 a figura de Marie Curie passa representar uma quebra de paradigma da Ciência masculina vigente, foi muito significativo dado o cenário da fala.

O almoço foi no Marulho em companhia de colegas da UFPA que dirigem o recém crio Instituto Educação Matemática e Cientifica. A Gelsa à tarde foi trabalhar com mestrandos e doutorandos da Professora Isabel Lucena. A reencontrei às 18h no Mangal das Garças para onde fui em companhia da Conceição e José Carneiro. No local nos encontramos com a Isabel, Arno e Leila irmã, cunhado e sobrinha da Conceição.

Nesse lindo Parque assistimos a um magnífico por do sol sob o Guamá. Vale trazer algo sobre esse lugar, recém integrado à Belém. Minha fonte para as linhas que seguem é www.mangal.com.br A beleza natural da Amazônia pousou na orla de Belém. As cores, as fragrâncias e os encantos da paisagem nortista se transformaram em asa ao olhar. O ninho onde se guardam essas impressões é um lugar chamado Mangal das Garças. Criado às margens do rio Guamá, em pleno centro histórico da capital paraense, o parque ecológico é resultado da revitalização de uma área de 40.000m2, no entorno do Arsenal da Marinha.

Plenamente integrado ao cotidiano da cidade, o Mangal reproduz num espaço naturalístico as diferentes macro-regiões da flora paraense: as matas de terra firme, as matas de várzea e os campos. Uma poética síntese do ambiente amazônico no coração urbano. Um exemplo de como se relacionar conscientemente com a natureza. Reunindo idéias de recuperação, pedagogia e lazer, o projeto teve como principal ponto de partida a preservação do Aningal, vegetação nativa predominante na área onde o complexo foi construído.

O parque harmoniza aspectos de prazer e comodidade. Os visitantes têm a chance de fazer seu olhar sobrevoar pontos especiais como o grande lago central, os caminhos sinuosos, os canteiros coloridos, as áreas de estar e os equipamentos de lazer e serviços. Os lagos artificiais do complexo receberam aves pernaltas, marrecos e quelônios criteriosamente selecionados. Recantos com caramanchões em madeira criam oásis de sombra perfeitos para o descanso. 

Hoje, é do Mangal das Garças que o encanto bate asas e se lança pelo horizonte do eco-turismo amazônico. Ave de vôo elegante, o parque leva em cada asa a modernidade, a originalidade e o conforto.

Depois de contar acerca de um lugar tão bonito que me encantou pela primeira em mais essa vinda à Belém desejo a cada uma e cada um o melhor domingo. A expectativa e estar por volta das 13 horas na Morada dos Afagos para começar uma semana plena de fazeres.


090620 * Edição 1052

 

20JUNHO2009

SÁBADO

Quase no ocaso do Colóquio Educação em Ciências e Matemáticas em Belém

Ano 3

#1052

Nesta manhã se encerra o Colóquio Educação em Ciências e Matemáticas: Perspectivas Interdisciplinares, que faz parte das diferentes celebrações de “2009: ano Brasil-França na Universidade Federal do Pará, Campus Universitário do Guamá. As atividades se iniciam com a Mesa-Redonda 4: “Linguagem e Comunicação em Ciências e Matemáticas” (Marisa Silveira / UFPA, Fátima Vilhena, Erasmo Borges. Mediador: Roberto Barros, todos da UFPA) e após isso a conferência de encerramento “Educação em Ciências e Matemáticas: Perspectivas Interdisciplinares” que ficou sob minha responsabilidade.

Devo dizer, ao terminar as atividades de ontem, que me convenci, pela percepção  do evento nestes dois dias, que deveria mudar 2/3 da palestra que preparara. Não foi algo fácil. Duas situações foram facilitadoras. Primeira, estar em aqui em companhia da Gelsa, com quem, na janta de ontem, discuti minha nova proposta teórica, onde ela interviu decisivamente; depois de minha reelaboração, fez significativas e oportunas podas. Ainda depois fez muito elaborada editoração da apresentação. Segunda, trazer o notebook junto è mais que trazer a escrivaninha, è trazer parte da biblioteca. Uma das inserções que fiz foi ‘A Enciclopédia Francesa como ícone da disciplinarização’ será inédita esta manhã, foi todo produzido aqui em Belém. Agora só resta torcer para receber eflúvios dentro de mais algumas horas.

Ainda relativo à minha estada em Belém um registro fotográfico. Apareço com José Carneiro jornalista e sociólogo, leitor muito assíduo deste blogue. Aqui sorvemos ‘cerpinhas’ – diminutivo carinhoso de CERPA (Cerveja do Pará).

A dica de leitura desta blogada sabatina tem uma natural contextualização. Como escrevo quase da Linha do Equador minha recomendação é Equador um romance com bem tramadas tessituras de ficção e realidade que nos levam a mergulhar na geografia e na história de Portugal, no começo do Século 20, quando a monarquia vive o seu ocaso. O cenário principal são as ilhas de São Tomé e Príncipe, onde acompanhamos as (des)venturas de um recém nomeado Governador Geral.

Claro que esta escolha traz um leve ressaibo de frustração. Esta tarde era para estarmos partindo para ilha de Marajó. E a ligação desta ilha com aquelas que são cenários de grande parte do romance são apenas as localizações próximo a linha do Equador. Pois aquela que nos acolheria é a maior ilha hidrofluvial do mundo, enquanto São Tomé e Príncipe [um estado insular, independente desde 1975, localizado no Golfo da Guiné, composto por duas ilhas principais (São Tomé e Príncipe) e várias ilhotas, num total de 964 km², com cerca de 160 mil habitantes. Estado insular, não tem fronteiras terrestres, mas situa-se relativamente próximo das costas do Gabão, Guiné Equatorial, Camarões e Nigéria] são ilhas no Atlântico. Nosso passeio foi abortado por exigência burocrática, pois se disse que não poderia ser emitido o passagem a maior de 24 horas do término do evento. Acreditando entrave burocrático, vimos que para rebilhetar a passagem teríamos que pagar mais R$ 560,00. Nossa frustração com a não ida está compensada com a estar algumas horas de domingo em Porto Alegre, numa semana que será densa.

Mas a eis a ficha técnica do livros escolhido repartir um pouco minha desilusão: TAVARES, Souza Miguel. Equador, Rio de Janeiro: Nova Fronteira, 2004, 528 p, ISBN 85-299-1636-8. 

Provavelmente a maioria dos leitores brasileiros pouco conhece o romancista, Miguel Souza Tavares, autor de um sumarento romance lançado no Brasil já há cinco anos, mas que em Portugal, quando do lançamento brasileiro, já havia vendido mais 140 mil exemplares. Equador é o romance de estréia do muito premiado jornalista português, conhecido por seus programas de televisão, colunas diárias em jornais e, já 1983, ganhador do primeiro prêmio no festival de Cinema e Televisão do Rio de Janeiro com filme sobre a ilha do Corvo nos Açores e a caça à baleia.

Equador, que já tem traduções nas línguas holandesas, grega, italiana, alemã, francesa e espanhola, é um texto escrito cuidadosamente e que temos o privilégio de ler no original, sentindo nos diálogos o sotaque de uma de nossas matrizes culturais. Pode-se classificar esta obra na categoria dos romances históricos, até porque as maiores interrogações que nos passam é o quanto estamos lendo ficção ou a história de Portugal do começo do século 20 e do ocaso de sua monarquia. Nossa viajada se dá em três continentes. Primeiro passeamos no Alentejo para conhecer uma das residências de verão de Carlos I, o quase-último rei português (pois seu filho que o sucede como D. Manuel II, governa poucos meses), depois vamos com Luís Bernardo Valença, o personagem principal para São Tomé e Príncipe, que vai assumir o cargo de Governador Geral da então colônia portuguesas, produtoras de café e cacau sobre a qual pesa, não sem razão, a acusação de existência de trabalho escravo. Por isso entra em cena um cônsul inglês, cujas venturas e desventuras conhecemos antes no vice-reino inglês na Índia. 

Ao lado de tessituras que fazem incursões na história e geografia há os amores e as paixões do Governador geral, por quem torcemos o livro inteiro e que no final o desfecho quase imprevisível, evidentemente, um resenha não deve apresentar. Cabe-me apenas entusiasmar aos freqüentadores deste blogue a se abeberarem de um texto muito agradável.

Com votos de um muito bom sábado a expectativa de nos lermos amanhã. Pretendo fazer uma postagem deste blogue, antes de partirmos às 6h da manhã rumo a Brasília e depois a Porto Alegre.


 

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