Blog de Attico Chassot


BIENAL: duas leituras e dois tempos

   23NOVEMBRO2009

SEGUNDA-FEIRA

Faltam 13 dias para a COP-15: Conferência do Clima de Copenhague

Porto Alegre

Ano 4 # 1208

Por primeiro uma nota operacional. Há uma semana alterara a forma do blogue. Recebi manifestações de agrado de alguns leitores. Todavia outros manifestaram sua dificuldade com a leitura. Lamento. Na tentativa de solucionar o problema, alterei mais uma vez a formatação. Espero – com um imenso desejo – que o problema tenha sido solucionado.

Inauguramos aquela que é a última semana de novembro. Para mim essa será uma das semanas mais densa do ano, pois ao lado dos compromissos de rotinas tenho uma viagem amanhã, para à noite fazer uma palestra em Londrina e ao retornar vou a Santa Cruz do Sul para 8 horas de curso na noite de quinta-feira e na manhã de sexta-feira e no sábado tenho uma palestra em atividade promovida pelo curso de História do Centro Universitário Metodista - IPA.

Para a edição de hoje, retomo aqui algo que assuntei aqui na última quarta-feira: a 7ª Bienal do Mercosul, que nesta edição tem como tema ‘Grito e Escuta’. Neste domingo o evento que está no seu ocaso teve para mim duas leituras e dois tempos. Vou falar primeiro nas duas leituras, para depois trazer as emoções de ter estado no mesmo espaço pela manhã e pela tarde.

Já reconheci aqui, que mesmo a um crítico de arte é difícil trazer a visão de uma Bienal. A dificuldade é marcada pela diversidade de obras numa gama muito variada formas de expressão. A tarefa se torna mais difícil para um leigo como eu, para quem afloram emoções diversas, muitas delas catalisadas por mediações, que são oferecidas por pessoas que conhecem muito mais de arte que eu.

Marcada por emoções entusiasmadas, quase conclamava assim minha blogada de quarta-feira: “Encerro essa edição estimulando, uma vez mais. meus leitores aos quais sou ligado por vizinhança, que aproveitem essa 7ª edição da Bienal do Mercosul. Quando estamos no exterior gastamos, além de passagens e estadias, alguns dólares ou euros com ingresso. A Bienal – que faz Porto Alegre mais cultural – está aqui e é de graça. 

Pois meu entusiasmo foi surpreendido, quase agredido, por um artigo da lavra de conceituado jornalista, na página de ‘opinião’ do jornal mais importante de do Rio Grande do Sul. Trago excertos:

“A mistificação está em todos os lugares, não apenas na política, mesmo que aí viceje e floresça em forma ilimitada, quase infinita. Tanta é a mistificação institucionalizada, que já nos habituamos a tomar a falsidade como algo natural. Percebemos que nos enganam e mentem, mas somos incapazes de reagir ou sequer questionar, pois o engano e a mentira surgem em torrente e a enxurrada nos imobiliza.

Visitei, agora, a Bienal do Mercosul nos antigos armazéns do cais de Porto Alegre e me espantei com aquelas pobres extravagâncias ali depositadas sob a pomposa denominação de ‘arte conceitual’. Nenhum conceito e nenhuma arte havia ali naqueles objetos empilhados ou esparramados pelo chão. Os solícitos funcionários-mediadores (na maioria, moças de excelente formação em artes plásticas) discorriam sobre as teorias da “arte conceitual”, ampliando os textos dos imensos painéis impressos. Nada, porém, tinha a ver com as “obras” expostas.

[...] Esse tipo de coisas chama-se ‘instalação’. Em teoria, surgiu como revide às exigentes regras da arte clássica. Como expressão, é algo subjetivo, ou inventado, em que só o autor conhece o significado que pretendeu dar. No fundo, uma ilusão. Ou uma brincalhona falcatrua em nome da arte.”

No vou fazer comentários. Cumpro agora o prometido. E falo de duas estadas, uma pela manhã e outra pela tarde ao Museu de Arte do Rio Grande do Sul. No MARGS está um dos temas mais intrigantes da 7ª Bienal: Desenho das Ideias. Pela manhã a Gelsa e eu estivemos ali com a Liba, de que recebemos preciosas orientações daquela que é, dentre as pessoas que conheço, a maior conhecedor de Arte. À tarde estivemos no mesmo espaço com nossos netos Maria Clara e Antônio. Um e outro foram momentos quase indizíveis.

Nesse espaço o desenho como a disciplina revela o pensamento do artista com mais transparência: este é o foco da exposição que ocupa o Margs nesta Bienal do Mercosul. Organizado como uma caixa de ressonância a mostra estabelece diálogos com diversas outras exposições da Bienal por meio de seus conteúdos, poéticas e metodologias. 

Obras de artistas da América Latina e de outros lugares do mundo integram Desenho das Ideias. Elas estabelecem um diálogo com desenhos de artistas historicamente reconhecidos. Isso ocorre com o objetivo de ampliar o olhar sobre a profundidade dos processos artísticos contemporâneos. A forma de articulação do desenho com outras formas de manifestação artística e outras áreas de conhecimento também são questões colocadas como pontos reflexivos da mostra. Há muitas obras vou destacar três que mais me impressionaram, não necessariamente em ordem de preferência.

O trabalho mais impactante, para mim, é de Iran do Espírito Santo, uma parede que parece um buraco negro, para onde é difícil deixar de olhar. Na mesma sala nesse segmento algumas outras obras, provocando interessantes interações com o imenso painel que parece em terceira dimensão, nos seus 53 tons de cinza, que provocam ilusões.

meu segundo destaque vai para a ficção que propõe Walmor Corrêa nos seus desenhos aparentemente naturalistas, resultantes de sua projeção imaginária. Corrêa apela tanto à estética da ilustração naturalista, própria das ilustrações de pintores viajantes dos séculos XVII a XIX, como à da ilustração de manuais científicos de biologia, anatomia e medicina, para revelar um outro mundo, completamente ficcional, articulado a partir de seres impossíveis ou improváveis. Para a Bienal, os 25 livros do artista apresentam desenhos dos mamíferos e seres exóticos descritos por Hermanm vom Ihering, naturalista alemão que chegou ao Rio Grande do Sul em 1880 para depois criar, em 1892, o Museu Paulista e contribuir com o Museo de Ciencias Naturales de La Plata, Argentina.

O meu terceiro destaque é para os trabalhos de Yun-Fei Ji. Estes de referem a importantes tradições da história da arte: o paisagismo e a caligrafia chineses. Oriundo de Beijing, o artista insere-se nessa tradição para subvertê-la. Assim, critica as políticas do poder que ela mesma representa, entre as quais a erradicação de uma memória que permitiria preservar costumes e modos de pensamento milenares ameaçados, anos atrás, pela revolução cultural e hoje pelo acelerado crescimento econômico. E, fundamentalmente, critica as políticas que levaram à construção da enorme represa das Três Gargantas, que provocou a retirada de mais de um milhão de pessoas.

À tarde, envolto com essas obras, a Maria Clara e o Antônio, receberam pranchetas para usar o desenho e manifestarem suas emoções. Os dois curtiram desenhar sob os olhares de seus avós.

Depois desse avonar vale apenas dizer: uma boa segunda-feira para abrir uma semana de muitos fazeres.



Escrito por Chassot às 06h50
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Uns rogam para as chuvas cessar! Outros pedem chuva!

  22NOVEMBRO2009

DOMINGO

Faltam 14 dias para a COP-15: Conferência do Clima de Copenhague

Porto Alegre

Ano 4 # 1207

A noite de sábado para domingo que teima em terminar– pois o sol está inibido – é chuvosa. Imagino a desperança dos flagelados pelas enchentes que aumentam no Rio Grande do Sul. O Planeta parece mostrar a sua desregulação, quando em nossa América Latina, há países que vivem calamitosas secas, que demandam a seus habitantes racionamentos de energia elétrica de várias horas diárias. Nesses a desperança se manifesta com sonhos antípodas dos nossos: pedem chuva.

Ontem, chamou-me a atenção de uma queda significativa de visitas a este blogue. Nos 20 primeiros dias de novembro a média foi superior a 117, para no dia 21 passar para 85. Faço um cálculo; se havia cerca de 100 mil residências sem energia elétrica desde a tarde de quinta-feira, isso significa em torno de 300 mil pessoas. Se destas 0,001% forem leitores desse blogue, terei cerca de 30 leitores que bruscamente se ausentaram. São elucubrações feitas quando uma chuviscada me expulsou da rede, sob a parreira, onde lia um livro de memórias de Josué Guimarães.

Em dia desta semana, entre os muitos alertas de leitura que recebi – e se atendesse a todos não me sobraria tempo para outras leituras – um trouxe interesse muito especial. Imediatamente escrevi a sua autora: 

Estimada Matilde, li encantado o texto: ‘Lilith y Eva’ publicado na página da Q-Analysis. Receba meus cumprimentos pela maneira preciosa com traz um tema de interpretações tão discutíveis ao longo da Historia. Desejo que autorize regalá-lo aos leitores de meu blogue por duas razões: a) há uma semana o livro “Caim” de Saramago – onde Lilith é a figura feminina quase exclusiva – foi assunto no mesmo, recebendo então seu comentário; b) por sua presença como eventual comentarista, alguns de meus leitores a conhecem e teriam então a oportunidade de fruir um texto seu. Com expectativa ac

Recebi atenta resposta da autora: Muy querido Profesor Chassot, me hace enormemente feliz saber que le ha gustado mi artículo. Me siento muy honrada con la deferencia que haría al publicarlo. ¡Que tenga un lindo fin de semana! Matilde 

Assim, para degustar o domingo ofereço a versão em português do texto:

Lilith y Eva                                 Matilde Kalil*

Estar no terceiro milênio da era cristã não nos faz imunes aos mitos antigos, em cuja sombra se tecem fantasias, lendas e inclusive cosmogonias com sabor atual. 

No já mencionado Caim, Saramago destaca a figura de Lilith - esposa de Noah, das terras de Nod –, a quem destina o papel de iniciar a Caim na arte amorosa e com quem teria um filho: Enoc, bisavô de Matusalém.

Todavia, há outra Lilith, uma que permaneceu quase desconhecida e que forma parte dos mitos antropogônicos. 

Segundo a Cabala judaica, Lilith foi a primeira mulher, criada igual como Adão. Eva seria uma criação posterior, produto de uma costela do varão.

No sexto dia do primeiro relato da criação, Deus cria o homem a sua imagem e semelhança “Macho e fêmea os criou” (Gn 1:27). Esta narração refere ao primeiro casal humano que teve origem similar.

No segundo relato da criação, Deus forma o homem com pó da terra e lhe infunde alento de vida. Para que não esteja só e o ajude, faz um ser semelhante a ele de sua costela e forma a uma mulher, de quem o homem diz: “Esta é agora osso dos meus ossos, e carne da minha carne; ela será chamada varoa (virago), porquanto do varão foi tomada.” (Gn 2:23).

Enquanto no primeiro relato a fêmea (mulher) é reflexo de Deus, no segundo, é reflexo do homem.

Por que o Gênesis refere duas criações? Alguns consideram que os versículos são reiterativos e dão a conhecer um mesmo feito de uma maneira diferente.

Outros, diferentemente, aduzem que no primeiro relato alude à criação de uma primeira mulher: Lilith, cujo nome se relaciona com a palavra hebraica lailah, que significa noite.

Lilith se torna o par de Adão, com quem comparte um mesmo gérmen ontológico. Teria uma personalidade forte e emancipada que faz com que se associasse com lado escuro e com a malignidade.

Segundo a tradição judaica, Lilith se opõem a aceitar a postura amorosa que Adão desejava – deitada e por baixo – por se considerar igual. Como Adão quis obrigar-lhe a obedecer, ela o abandona, deixando o Jardim do Édem.

Eva, em troca, assume uma atitude mais submissa, menos crítica. Por originar-se da costela de Adão, está sujeita a seu domínio. “... e o teu desejo será para o teu marido, e ele te dominará. (Gn 3,16)”

Lilith e Eva poderiam ser os arquétipos de um duplo feminino: a maldade versus a bondade, a obscuridade versus a luz, a dureza versus a doçura, a mulher-demônio que se opõe à mulher-mãe. 

A primeira se orienta ao egoísmo, a auto-gratificação, ao prazer sensual; a segunda ao sacrifício, à união espiritual e à procriação. Extremos dos opostos demônio/santa, rameira/virgem, que tem categorizado e estigmatizado o mundo feminino.

Sem dúvida, uma e outra compartem de ter desorientado ao homem e até poderíamos pensar, serem mais potentes que ele. Potência ligada em parte à falta de compreensão que o homem tem do feminino. 

Lilith enfrenta a Adão e o abandona como uma forma de emancipar-se; não se submete, o desafia. Eva o faz transgredir: é a autora intelectual do pecado original, sua força reside ma sedução passiva.

Aos olhos masculinos, a mulher é em si mesma a caixa de Pandora: enigma indecifrável e fonte do mal.

Se a mulher foi melhorada - produto de um upgrade ou turbinada –, o homem não? Poderíamos pensar que assim como se deduz ter havido uma Lilith do primeiro relato possa ter havido outro primeiro homem?

Seguindo a Cabala judaica, Jacó representa a versão do homem superior porque retifica o pecado de Adão. Por ele, recebe o nome de Israel e procria filhos bons que formam a base das doze tribos do povo eleito pelo Deus bíblico.

Devido à maior agudeza da psicologia feminina, o crítico literário Harold Bloom formula a hipótese que alguma parte inicial da Bíblia foi escrita por uma mão de mulher.

Se bem que os desígnios de Deus são inescrutáveis, nós, suas criaturas, nos encarregamos de interpretar-los. 

*Matilde Kalil de Bohórquez, psicóloga social, graduada en Lovaina, trabalha em Investigação de Mercados desde 1986 e é Diretora da Q-ANALYSIS em Guayaquil, no Equador www.q-analysis.com desde 1989

Com votos de curtição do domingo com sol aqui e chuva na região equatorial, um convite para nos lermos aqui, na abertura da última semana de novembro.




Escrito por Chassot às 06h15
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Seguimos com as consequências do ciclone extra-tropical

  21NOVEMBRO2009

SÁBADO

Faltam 15 dias para a COP-15: Conferência do Clima de Copenhague

Porto Alegre

Ano 4 # 1206

Foi uma sexta-feira onde se contabilizou prejuízos do ciclone extra-tropical – já disse que me parece um nome muito poético para algo tão devastador. O de ontem arrancou-me uma persiana da biblioteca e a jogou a distância como se esparzisse confetes. Minhas perdas foram mínimas se comparadas co as de outros, que inclusive sepultaram seus mortos. Esta manhã havia cerca de 100 mil residências sem energia elétrica há mais de 40 horas (desde o começo da tarde de quinta-feira). O tempo chuvoso deste sábado dificulta o restabelecimento da energia.

Confirma-se o que escrevi nesse blogue em 6 de outubro: “Não é sem razão que o perímetro compreendido pelos Estados do Rio Grande do Sul, Santa Catarina, oeste do Paraná e pelo norte da Argentina e Paraguai é a segunda maior área em incidência de tornados do mundo. Apenas a planície central dos Estados Unidos oferece condições mais propícias para o fenômeno’. Repito o que muitos estão alertando, O Planeta está nos enviando sinal. 

O Marcos Bastos escreveu ontem aqui: “Meu avô paterno, aos seus 79 anos de idade, disse-me ontem, olhando para o céu escuro: ‘Em toda a minha vida eu nunca vi tantas tormentas em tão pouco tempo. Isso é Deus mostrando que a natureza é mais forte que a gente.’ Discordo da parte de Deus, mas concordo que a natureza tem mostrado que pode até ser atacada pelo homem, mas o revide dela é por demais poderoso para ser controlado. A única coisa que podemos fazer é esperar que os líderes das nações se comprometam a prezar pelo meio ambiente, mesmo que a participação efetiva dos EUA e da China na COP-15, daqui a 16 dias, seja algo quase utópico. Repasse minhas felicitações a Gelsa pelo aniversário dela.” Vale fazermos algo pelo Planeta.

Na blogada de ontem retomei as emoções de ter jantado na segunda-feira feira com Michael Ruse, Hoje quero falar de um de seus livros: Levando Darwin a sério. Uma abordagem naturalista da filosofia. [RUSE, Michael Belo Horizonte: Ed. Itatiaia, 1995]

Vou pinçar um dos três excertos da quarta capa, que a meu juízo, justificam a escolha deste livro para a blogada sabatina: “Este, atrevo-me a dizer, é o melhor livro escrito até hoje sobre a concepção filosófica de Biologia Evolucionista. Num estilo eminentemente claro e incisivo, Ruse empurra a seleção natural para a linha de frente da Filosofia, conferindo-lhe doravante a condição de elemento inevitável do processo de análise, Ao mesmo tempo, demonstra por que a Filosofia constitui um tema essencial para o futuro da Biologia.” [Edward O. Wilson, Professor de Ciências, Universidade de Harvard].

Para que meus leitores confiram as palavras acima, eis uma breve sinopse – construída com excertos do autor na apresentação – de ‘Levando Darwin a sério. Uma abordagem naturalista da filosofia’. 

O primeiro capítulo trata de uma maneira geral do pensamento científico com relação às origens, concentrando-se particularmente no moderno pensamento evolucionista. Ruse distingue três postulados: sobre o fato da evolução, sobre o curso da evolução e sobre os mecanismos da evolução.

O segundo e o terceiro capítulos são essencialmente críticos e abrem caminho para a apresentação da argumentação central. Ruse examina, primeiramente, a forma usual como a epistemologia é relacionada com a evolução, concentrando-se (com outros autores) na maneira como os postulados científicos se relacionam com a evolução. Argumenta que essas formas são, na melhor das hipóteses, apenas ilustrativas e, no pior dos casos, inteiramente enganosas. 

No quarto capítulo, como preparação para um novo embate filosófico, Ruse aborda a questão da natureza biológica do homem e sua evolução. A evolução da linguagem é tomada como modelo para o perfeito entendimento de nossa natureza biológica. 

No capítulo cinco – que com o sexto forma o cerne do livro – Ruse discorre sobre o fato de ter nosso atual conhecimento biológico de Homo sapiens significativas implicações quanto o que afirmamos saber, e a respeito de como chegamos a saber o que sabemos. O argumento central: o conhecimento é formado e transmitido pelo nosso passado evolucionista. A mente não é uma tabula rasa. As questões discutidas nesse capítulo incluem as relativas ao ceticismo e ao realismo. 

O sexto capítulo traz-nos de volta à moralidade. Ruse afirma que podemos juntar a evolução e a ética. Verificamos que a nossa natureza simiesca não nos faz mergulhar em mundo em que vigore ainda a “crua natureza das garras e dentes”. O autor argumenta que essa ética baseada no evolucionismo é capaz de resistir aos ataques dos que se opõem a toda abordagem naturalística da moralidade, e na verdade poderá incorporar muito dos importantes ‘insight’ da moderna filosofia moral.

Finalmente numa breve conclusão Ruse diz: “Procuro diminuir as dúvidas dos que receiam que nenhuma nova abordagem da filosofia poderá ser tão esplendida quanto eu afirmo que é. No mínimo posso garantir que não me cabe nenhum mérito especial. Quanto muito sou apenas uma pessoa de sorte, no lugar certo, no momento certo, apanhada entre uma ciência biológica e rápido desenvolvimento e uma fase da filosofia pronta para uma nova arrancada”.

Penso que eu não precise acrescentar mais nada para destacar a importância deste ‘Levando Darwin a sério. Uma abordagem naturalista da filosofia’. Assim meus votos de um bom sábado curtido na expectativa de um domingo com momentos para gostosas elucubrações sobre nossa evolução enquanto humanos.




Escrito por Chassot às 08h07
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20 de novembro: uma data nacional e pessoal

 20NOVEMBRO2009

SEXTA-FEIRA

Uma data densa em comemorações nacional e pessoal

Porto Alegre

Ano 4 # 1205

A abertura da edição de hoje por primeiro faz uma homenagem a duas aniversariantes muito especiais: a Gelsa e Júlia. Mãe e filha aniversariam numa data que no calendário das comemorações nacionais evoca o Dia da Consciência Negra no Brasil. O ’20 de novembro’ é feriado municipal em algumas cidades do país. A data foi escolhida por coincidir com o dia da morte de Zumbi dos Palmares, em 1695 pelas tropas do bandeirante Domingos Jorge Velho. No Dia da Consciência Negra se evoca a resistência do negro à escravidão de forma geral, desde o primeiro transporte forçado de africanos para o solo brasileiro (1594).

Assim a esse dia histórico para a brasilidade associo a densidade de significados pessoais que o mesmo tem para mim e para os meus. Às duas muito queridas aniversariantes uma manifestação pública de meu carinho e da sempre continuada admiração.

Um breve comentário do dia de ontem relativo a minha participação no XVII Encontro de Química da Região Sul. Vivi tensões antes de minha fala. Desde as 9 horas faltava energia elétrica, que só foi restabelecida às 10h45min, exato momento marcado para o início da fala. Éramos reféns da tecnologia. Mas dirão alguns que o pensamento mágico (ou a devoção a N. Sra. das Candeias!) funcionou. A palestra foi muito boa, com sala lotada que exigiu a trazida de mais cadeiras. Terminou com emocionante ovação, muitas posadas para fotos e alguns livros autografados. Antes da palestra, sob luz emergencial participei da avaliação de 10 dos 70 trabalhos da área de Educação Química. Também me reencontrei com minha ex-doutoranda Paula Henning, hoje professora da FURG. Almocei com colegas do evento e quase 14 horas o Moacir me embarca no ônibus. Meia viagem, recebo telefonema dando-me conta de temporal que deixava o Centro Universitário Metodista - IPA às escuras com cancelamento das aulas noturnas em várias universidades. Mesmo lamentando os estragos trazidos a milhares de pessoas com cinco mortes e calamidade pública em varias regiões do Rio Grande do Sul por um ciclone extra-tropical com velocidade de mais de 133 km/h foi bom não precisar ter um turno noturno de aulas, depois de uma intensa jornada matutina e uma tarde de morosa viagem. 

Contei aqui que na blogada de terça-feira que tive o privilégio de jantar com Michael Ruse. Queria trazer algo mais sobre o distinguido cientista.

Michael Ruse, nascido em Birmingham, em 21 de junho de 1940, é um filósofo inglês da biologia, um dos mais influentes da atualidade. Participou ativamente no congresso americano no debate contra os criacionistas. Escreve também sobre controvérsias envolvendo a sociobiologia e a psicologia evolucionista. Ainda fundou o jornal Biology and Philosophy, tendo publicado numerosos livros e artigos. Ruse pertence a International Society for Science and Religion

Foi testemunha especializado da União para as Liberdades Civis Norte-americanas quando da discussão judicial com os criacionistas de Arkansas de 1981 (McLean v. Arkansas), conseguindo a inconstitucionalidade da lei estadual que permitia o ensino da “ciência da criação” no sistema escolar de Arkansas.

Ruse toma a posição de que é possível reconciliar a religião cristã com a teoria evolutiva, enfrentando, por exemplo, Richard Dawkins, Phillip E. Johnson, Edward O. Wilson o William A. Dembski. Michael Ruse, em lugar de pregar o ateísmo e o desenho inteligente, defende a possibilidade de refletir acerca do modo de conciliar ciência e religião.

Inimigo intelectual dos neo-darwinistas “radicais”, opina acerca de seus detratores: “Eu creio que são um absoluto desastre na luta contra a teoria do desenho inteligente [adiante comento acerca disso]. Nenhum deles estudou a fé cristã seriamente para poder opinar sobre suas ideias. Resulta grosseiro e largamente imoral assegurar que o cristianismo é somente uma força do mal.” Ruse é especialmente crítico do último livro de Richard Dawkins, “O espelhismo de Deus”, declara: “[o livro] me sentir vergonha de ser ateu”. Dou-me conta agora, que não foi diferente o que senti, quando li o livro Caim, de Saramago, que assuntei aqui no sábado. 

O Design inteligente (ou projeto inteligente ou Intelligent Design) é a aceitação de que "certas características do universo e dos seres vivos são melhor explicadas por uma causa inteligente, e não por um processo não-direcionado como a seleção natural". Ele é uma forma moderna do tradicional argumento teleológico para a existência de Deus, modificado para evitar especificações sobre a natureza ou identidade do designer. A idéia foi desenvolvida por um grupo de criacionistas americanos que reformularam o argumento em face à controvérsia da criação vs. evolução para contornar uma decisão judicial americana proibindo o ensino de criacionismo como ciência

Defensores do design inteligente alegam que o design inteligente seja uma teoria científica, e buscam fundamentalmente redefinir a ciência para que a mesma aceite explicações sobrenaturais.

O consenso inequívoco da comunidade científica é de que o design inteligente não é ciência, mas na verdade pseudociência. A Academia Nacional de Ciências dos Estados Unidos já declarou que o "criacionismo, design inteligente, e outras alegações de intervenção sobrenatural na origem da vida" não são ciências porque elas não podem ser testadas por métodos científicos. A Associação de Professores de Ciências dos Estados Unidos e a Associação Americana para o Avanço da Ciência a classificaram como pseudociência. Outros na comunidade científica concordaram com a classificação, e alguns já a classificaram como ciência-lixo

 Vale ver a riqueza de informações que há acerca do assunto na Wikipédia em diferentes idiomas, inclusive em Português o tema está densamente discutido.

 Para amanhã tenho a intenção de trazer – dentro do propósito sabatino de trazer dicas de leitura, comentar o livro de Michael Ruse “Levando Darwin a sério”. Assim, com essa sedução, na expectativa de uma boa sexta-feira, o convite para, amanhã, curtirem a blogada sabatina. Assim aos votos de uma muito boa sexta-feira adito, uma vez a minha homenagem à Gelsa e â Júlia – duas muito queridas aniversariantes.


 



Escrito por Chassot às 06h23
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Uma edição desde a Praia do Cassino


 19NOVEMBRO2009

QUINTA-FEIRA

Faltam 17 dias para a COP-15: Conferência do Clima de Copenhague

Porto Alegre

Ano 4 # 1204

Nesta quinta-feira – como anunciei ontem – esta blogada é feita de Rio Grande. Mais precisamente de um hotel na praia do Cassino, em um quase ermo chuvoso, que traz para a paisagem um ar hibernal.

Devo dizer que não amealho mais um local de blogadas, pois em setembro do ano passado, estive aqui para falar na FURG na Escola de Química e Alimentos na 4ª Semana Acadêmica de Química. Recordo que então postei o blogue do aeroporto da cidade (ou campo de aviação), pois à época as postagens do blogue eram vespertinas.

Rio Grande é a cidade mais antiga do Rio Grande do Sul, tendo sido por muito tempo a capital do Estado. Foi fundada em 1737 pelo Brigadeiro José da Silva Pais, e elevada à condição de cidade em 1835. Esta tarde quando chegava de ônibus lia em um dos acessos à cidade: “Aqui começou o Rio Grande do Sul!” A “Noiva do Mar’ – como é chamada Rio Grande –, tem cerca de 200 mil habitantes, construiu sua riqueza ao longo de sua história devido à forte movimentação industrial.

A cidade é sede de uma das mais importantes universidades federais do Estado, a FURG – Universidade Federal do Rio Grande – fundada em 1953, hoje com mais de 6 mil alunos, que se orgulha em fazer aquilo que está no seu lema: uma universidade voltada para o ecossistema costeiro, não é sem razão que esta universidade tem o primeiro curso de oceanologia do país. 

Já estivera nesta Universidade, além desta estada do ano passado recém evocada, em outras oportunidades, enquanto ela era parceira do Sumecim – um programa de ensino de Ciências que me envolveu nos anos ’80, enquanto representante da UFRGS no mesmo. Também aqui ajudei organizar dois EDEQs, se não me falha a memória em 1983 (onde fiquei em um quartel, experiência única em minha história) e em 1995, lembrado também por uma tainha na taquara no almoço de encerramento. 

Deixei ontem Porto Alegre às 14h em ônibus que em quase 4,5 horas percorreu 320 quilômetros, com trecho em meia pista, pois houve desmoronamentos provocados pelas chuvas. No ano passado, de avião, a mesma distância foi em 50 minutos.

 Da rodoviária fui direto ao Campus do Carreiro. Ali assisti a abertura do XVII Encontro de Química da Região Sul. A cada ano desde 1993 os três Estados do Sul – Paraná, Santa Catarina e Rio Grande do Sul – se alternam para realizar em uma de suas universidades o encontro regional. Mais recentemente eu estive nas SBQ-Sul de 2006 na URI de Erechim e de 2007 na UEPG em Ponta Grossa. Este ano é em Rio Grande a 17ª edição tem como tema os “Desafios em Química Tecnológica e Ambiental”. 

A palestra de abertura foi proferida pelo meu ex-colega do Instituto de Química da UFRGS Prof. Dr. Jaírton Dupont, eminente pesquisador recentemente agraciado com o Prêmio Thomson Reuters de Produtividade e Impacto Científico, na categoria Ciências Puras. Este prêmio é uma parceria entre a CAPES e a Divisão Científica da Thomson Reuters e se destina ao pesquisador que tenha sido autor do artigo mais citado nos últimos cinco anos, segundo a análise bibliométrica do Thomson Reuters High Impact Papers. Titulo da palestra (¿ou foi uma aula para alguns iniciados?): De Sais a Líquido Iônicos: Uma Epopeia Gaúcha. Para mim serviu para mostrar o quanto alguns conceitos de Química ainda me são muito familiares, mesmo que há um tempo essa ‘disciplina’ se faça cada vez mais distante.

Depois da palestra participei de um coquetel de confraternização onde reencontrei muitos conhecidos, mesmo sendo um quase estranho no meio da tribo da Química hard. Foi muito bom estar mais próximo da Maria do Carmo Galiazzi e do Moacir Langoni, ambos da FURG.  Penso que nós três, na foto de Caroline Dal Ros, éramos os quase os únicos da área de Educação Química, entre cerca de um milhar de participantes. Mais uma vez sou fraudado pela impossibilidade de editar foto

Esta manhã, faço a palestra: “Os Cada Vez Mais Tênues Limites Entre o Humano/não Humano” uma das cinco palestras paralelas. Olho os títulos das outras quatro: Desafios em Química: Desenvolvimento de Catalisadores; Triazenos e Triazenido Complexos Metálicos; Síntese, Propriedades e Tendências Atuais de Investigação; Síntese Orgânica Facilitada: Eficiência Química Versus "o Bom, o Mau e o Feio"; e Cromatografia Bidimensional e tenho porque em me sentir um alienígena no evento, que usualmente prestigia a Química hard. 

Isso pode ser visto na mirada dos títulos as cinco palestras de amanhã: Desenvolvimento de produtos nanotecnológicos para aplicação tópica de fármacos e ativos cosméticos; A pesquisa na área de Química e a Proteção do Conhecimento; Estratégias analíticas modernas para a determinação multirresíduo de pesticidas e drogas veterinárias em alimentos; Desenvolvimento de Novos Catalisadores para a Produção de Biodiesel; Tratamento de Efluente Hospitalar com Processos Avançados de Oxidação & Identificação e Quantificação de Fármacos e Subprodutos.

Já é uma vitória para a área de Educação Química conseguir uma palestra entre as dez. Claro que isso aumenta minha responsabilidade.

Em minha fala darei destaque a vivermos (In)decisões/(in)definições de novos limites. Isso pode ser visto no cotejo entre a Era do impossível versus Era do possível. Nesta já é possível, por exemplo: Filhos de pais mortos há vários anos: Gêmeos com diferenças de idades de mais de 10 anos; Homens produzirem óvulos; Mulheres produzirem espermatozóides. etc, etc 

Acenarei para o quanto nos assemelhamos a Ciborgues*? entendidos como qualquer forma de acoplamento entre ser humano e máquina (Implantes / cadeira de rodas / telefone celular) *Esse termo é da década de 60, do século 20, foi criado pela junção das palavras cybernetic organism, usado para designar uma criatura na qual há uma mistura de partes orgânicas e mecânicas 

Farei algumas especulações: uma discussão quase bizantina: batizar ou não robôs. E os Direitos para os robôs: Robô= gente Se um robô autônomo mata alguém: de quem é a culpa?

Há uma pergunta crucial? Para aonde vamos: As discussões levam a constatações de que talvez essa ‘nova’ sociedade de indivíduos caminha para individualismos, cada vez mais enclausurados em fortins domésticos. 

Vou concluir mostrando que o nosso grande desafio nesta aurora trimilenar é onde encontrar, ou melhor, como construir ferramentas eficazes e estratégias para transformar os sentimentos humanos de compaixão em ações efetivas

Após o almoço, às 14h tomo o ônibus para Porto Alegre. Da rodoviária vou direto ao Centro Universitário Metodista - IPA, pois tenho aula à noite no Mestrado Profissional de Reabilitação e Inclusão de História e Filosofia da Ciência.

Convido já meus queridos leitores para amanhã aqui uma blogada muito especial. Vai ser algo muito significativo. 


 



Escrito por Chassot às 00h55
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Decepção para COP 15 - 2009

  17NOVEMBRO2009

TERÇA-FEIRA

Faltam 19 dias para a COP-15: Conferência do Clima de Copenhague

Porto Alegre

Ano 4 # 1202

A edição abre com registro de um dia que se anuncia com ensolarado com temperatura agradável. Ontem à noite, depois das aulas do curso no curso de Filosofia participei da recepção oferecida pela minha colega Anna C. Regner e Lucio. Eles receberam Michael Ruse (Florida State Univ, USA) e Vassiliki B. Smocovitis (Univ. Florida, USA) que participam em Porto Alegre do Biological Evolution Workshop que caracteriza o estado da arte na Biologia Evolutiva. Estavam ainda Francisco Salzano, Aldo Melender Araujo, Maria Lúcia Wortmann, Russel Teresinha Dutra da Rosa, Daniel Hoffmann, Gelsa Knijnik e eu. Na foto  estou com a anfitriã e com os dois cientistas estadunidenses

Desde o dia 4 deste mês esta blogue vem sinalizando quantos dias faltam para a COP 15 – 2009 United Nations Climate Conference at Copenhagen que será em dezembro deste ano (7-18 de Dezembro). Cerca de 190 países irão se reunir na capital dinamarquesa para um desejado grande acordo internacional relacionado às alterações climáticas será decidido, antes do fim do atual Protocolo de Kyoto em 2012. 

Agora, países ricos, que se julgam donos do Planeta freiam propostas. Eis as decepções.

Ontem, foram recebidas noticias desanimadoras: Líderes políticos da região asiática, dos Estados Unidos e da Europa descartaram no domingo a possibilidade de assinar um novo tratado climático internacional em Copenhague, no mês que vem. No linguajar diplomático, fala-se agora em um acordo "politicamente vinculante", em vez de "legalmente vinculante", o que ficaria para uma próxima conferência, em 2010.

Na prática, isso significa que as metas obrigatórias de redução de emissões de gases do efeito estufa para a segunda fase do Protocolo de Kyoto seriam definidas só no ano que vem.

"Dado o fator de tempo e a situação de alguns países específicos, deveríamos, nas próximas semanas, focar esforços no que é possível fazer, sem nos deixar distrair por aquilo que não é possível", disse o primeiro-ministro da Dinamarca, Lars Lokke Rasmussen. Anfitrião do encontro do próximo mês, Rasmussen fez ontem uma viagem não programada a Cingapura, para conversar com os governantes das 21 nações que compõem a Cooperação Econômica Ásia-Pacífico (Apec) - grupo que inclui os Estados Unidos e a China, os dois maiores emissores de gases do efeito estufa.

O possível, segundo Rasmussen, seria um acordo político em Copenhague que estabelecesse diretrizes básicas e um novo prazo para negociação de metas específicas de redução de emissões. O impossível seria fechar essas metas já no mês que vem, antes que o projeto de lei sobre mudança climática dos Estados Unidos possa ser votado no Congresso americano.

"Mesmo que não consigamos definir todos os detalhes de um instrumento legalmente vinculante, eu acredito que um acordo político de caráter obrigatório, com compromissos específicos de mitigação e financiamento, fornecerá bases sólidas para ação imediata nos próximos anos", disse Rasmussen.

Esse documento político, que poderia ter de cinco a oito páginas, criaria mecanismos para o enfrentamento imediato do problema, "antes mesmo que uma nova estrutura legal seja acordada, assinada, ratificada e efetivada", completou o primeiro-ministro dinamarquês.

A opinião dos governantes que se reuniram sábado e domingo em Cingapura foi transmitida pelo vice-conselheiro de Segurança Nacional dos Estados Unidos, Mike Froman. "Os líderes avaliaram que seria irrealista esperar um amplo acordo internacional legalmente vinculante entre agora e o início de Copenhagen (no dia 7)", disse o norte-americano, segundo as agências internacionais.

Na verdade, as negociações começaram há dois anos, após a conferência de Bali, na Indonésia, que estabeleceu 2009 como prazo legal para renovação das metas do Protocolo de Kyoto. Vários países industrializados, porém, condicionam a definição de suas metas à participação dos Estados Unidos - algo que depende da votação da lei americana no Congresso.

A disposição internacional de aprovar metas ambiciosas e obrigatórias de corte de emissões diminuiu depois da crise econômica de 2008. Os países ricos estão preocupados com a situação econômica e resistem a assumir compromissos que possam prejudicar a retomada do crescimento.

O tema está na agenda do presidente americano Barack Obama, que desembarcou domingo em Pequim para um encontro com o presidente chinês, Hu Jintao. Anteontem, os presidentes do Brasil, Luiz Inácio Lula da Silva, e da França, Nicolas Sarkozy, criticaram uma suposta estratégia dos colegas estadunidenses e chinês de negociar um acordo climático bilateral, em detrimento de um tratado internacional em Copenhague.

Com votos de uma muito produtiva terça-feira, um convite para um reencontro aqui amanhã. Até então.




Escrito por Chassot às 07h55
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Livros, um bom assunto para inaugurar a semana

   16NOVEMBRO2009

SEGUNDA-FEIRA

Faltam 20 dias para a COP-15: Conferência do Clima de Copenhague

Porto Alegre

Ano 4 # 1201

A madrugada de segunda-feira dá inicio a segunda quinzena do penúltimo mês do ano. O período já sabe a natal e com ele as associações a fim de ano e depois a férias. No sábado e domingo o assunto aqui foi livros e feira do livro. Fico no mesmo tema.

Em outro momento comentei o quanto não sei se os leitores, usualmente, lêem os comentários, especialmente aquela maioria que não deixa rastros de sua passagem por este blogue. Há um texto, que parece estar no evangelho de Lucas que diz ‘Ninguém acende uma lâmpada e a cobre com um vaso ou a põe debaixo da cama; mas a põe sobre um castiçal, para iluminar os que entram’. Assim hoje queria dar visibilidades a comentários de quatro leitores muito especiais, que se manifestaram a propósito de minhas críticas a “Caim” – último livro de José Saramago –, no sábado que passou.

(1) Attico, o assunto de hoje, como sabes é sempre de meu interesse. Pensando no que disseste sobre o livro, de Saramago, concordo que e o tom agressivo é desnecessário e chateia. Talvez o autor saiba em seu inconsciente que hoje para ser um produto global é imprescindível a polemica... Não sou especialista em literatura, muito menos em Saramago, mas acho que qualquer critica ao Deus do outro é desnecessária, agressiva e gera ódio. Claro que Saramago ou qualquer outro pode fazer a análise que bem entender, mas concordo contigo quanto a ofensa ao Deus de nossos pais. Por outro lado, a visão do professor Indiano, me parece mais imparcial e concreta. Talvez Saramago esteja antecipando, uma previsão astrológica do fim da Era Cristã! Difícil sabermos quais os próximos Deuses da humanidade, a certeza é apenas que existirão. Beijos de tua aluna experimental Carla [carla.scandar@gmail.com] 

(2) Realmente polêmico o escritor português. Concordo em parte com a colega Carla, ao referir a necessidade de uma polêmica para torná-lo um pouco mais vendável. Mas aqui o que me chamou a atenção foi tua referência à palestra sobre combustíveis de segunda geração. Nas próximas semanas estarei envolvido numa palestra sobre Produção mais Limpa e gostaria de saber onde posso encontrar material pertinente. Se souberes agradeço. Bom final de semana, agora em Porto Alegre. Jairo Brasil [jairobras@msn.com] 

(3) Mestre Chassot, que bom que o retorno à Morada dos Afagos foi reconfortante, mesmo com os transtornos no aeroporto. Quanto à dica de leitura, Saramargo é brilhante, mas, quando o brilhantismo passa a tomar conta do ego de alguém, não é difícil que o brilhante se torne pedante. Saramago tem total liberdade de escrever o que ele quiser, mas, em um mundo globalizado, ele deveria, sim, preocupar-se se está ofendendo alguém com o que escreve. Ótimo dia. Marcos Bastos [marcosrpgviamaocity@gmail.com] 

(4) Muy querido Profesor Chassot, ¡Gracias mil por el honor de citarme en su blog! Mi modesto comentario en la página web de la empresa no se compara en nada al suyo. Coincido con usted: los cinco primeros capítulos son los mejores. Los otros me parecen repeticiones forzadas para justificar un único argumento: Dios ~aquel de la Biblia~ es intrínsecamente malvado. Cuestionable quien irrespeta las creencias ajenas. Sin embargo, debo reconocer que tiene un estilo que atrapa y, al leerlo, concuerdo con los críticos que asemejan algunos de sus rasgos al realismo mágico Latinoamericano –como aquel de Juan Rulfo o García Márquez-. Por otra parte, ojalá que llueva menos allá y que comience a llover acá. Que tenga un lindo fin de semana, con un más que merecido descanso, Matilde Kalil [mkalil@q-analysis.com] 

Eis minha resposta: Muito queridas Carla e Matilde y muito queridos Jairo e Marcos, primeiro celebro reunir quatro leitores tão especiais em uma mesma resposta a comentários tão pertinentes que cada uma e cada um fez. Aqui pertinentes não apenas por coincidirem com minha despretensiosa análise do texto saramaguenho, mas por trazerem novas leituras ao meu texto.

A Carla trazendo algo original de um ‘possível fim da era cristã’’ que desconheço. O Jairo ~~ que por primeiro deu notícia acerca deste livro ~~ entendendo o quanto a crítica a Deus é o ingrediente vendável. O Marcos que tem uma leitura apanhada no direito que têm os ‘gênios’ (e JS é genial e genioso) de dizerem o que quiserem e inclusive quando fazem baixa literatura serem elogiado. A Matilde, que com seu texto Caín y el desasosiego, que recomendo com entusiasmo, me instigou a escrever sobre este livro, ratifica em seu comentário o respeito às crenças alheias. Tenham os quatro e cada uma e cada um de meus queridos leitores um muito bom saldo de fim de semana. Com cada vez maior admiração. achassot 

Adito, sobre o mesmo livro, dois tópicos colhidos do jornal ‘O Público” de Lisboa.

O porta-voz da Conferência Episcopal Portuguesa, Manuel Marujão, chamou o livro de "operação publicitária". "Um escritor da dimensão de José Saramago deveria tomar um caminho mais sério. Pode fazer críticas, mas entrar em um gênero de ofensas não fica bem a ninguém, e muito menos a um Prêmio Nobel", afirmou.

O rabino Elieze du Martino, representante da comunidade judaica de Lisboa, afirmou que "o mundo judeu não vai se escandalizar com os escritos de Saramago nem de ninguém". "Saramago desconhece a Bíblia e sua exegese. Faz leituras superficiais da Bíblia", disse.

Para encerrar ainda um comentário da 55º Feira do Livro que foi assunto da blogada de ontem. Entre as andanças de sábado, visitei as barracas de quatro das editoras universitárias que editam meus livros. 

Em cada uma delas algo que tem a ver com notícias dos meus livros que é bom compartir aqui. Na EDUNISC, soube que os últimos exemplares disponíveis de “Educação conSciência” tiveram boa vendagem e que preciso penar em uma 3ª edição. Na Editora da ULBRA havia três exemplares do “Para que(m) é útil o ensino?” no balaio dos saldos e a funcionária disse que era por que não havia mais nada em estoque. Aguardo contato para talvez uma 3ª edição. Na Editora da UNISINOS a Rosângela informou que “A Ciência é Masculina?” vendera poucos exemplares na feira. A surpresa melhor veio da Editora da UNIJUI quando o Carlos Feltrin me informou que o “Alfabetização científica: questões e desafios para Educação” está com sua 4ª edição esgotada. Não tive notícias de “Ciência através dos tempos” e de “Sete escritos sobre Educação e Ciência” que são de editoras comerciais que não vi na feira.

Encerro esta blogada com uma doçura do avonado ocorrida na noite de ontem. A Maria Clara passou aqui junto com a Clarissa e o Carlos trazendo aquele que foi seu primeiro bilhete: “Vovô Attico, te amo. Quero colo, Maria Clara.” Foi muito gostoso atender seu pedido. Esse relato não poderia ser melhor prelúdio para desejar uma boa semana, com uma maravilhosa segunda-feira para inaugurá-la.




Escrito por Chassot às 05h40
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Feira do livro: memórias de um saudosista...

    15NOVEMBRO2009

DOMINGO

Faltam 21 dias para a COP-15: Conferência do Clima de Copenhague

Porto Alegre

Ano 4 # 1200

O sábado foi ressacoso. Talvez muito marcado pelos dias de ausência. O dia foi nublado, mesmo que ao entardecer, quase inexplicavelmente, nos oferecesse um muito lindo pôr-do-sol. O domingo, nessa antemanhã que escrevo essa blogada em meio a um chimarrear com a Gelsa, não se faz diferente: céu plúmbeo. Adjetivo que sempre me remete a meu ser professor de Química; pesado como o chumbo.

Ontem, à meia tarde, a fomos a 55ª Feira do Livro de Porto Alegre. Faço cálculos. A minha primeira foi a 3ª em 1957, há 52 anos. Eu era da comissão de formatura da minha turma no ginásio. Havia proposto que nos convites houvesse uma etiqueta metalizada com o monograma do Ginásio São João Batista com o eme Marista. Coube-me vir a Porto Alegre para fazer a encomenda. Afinal, no verão anterior, eu trabalhara no Bar Caçula e isso me dava, entre meus colegas, o status de conhecedor da Capital. Não sei de onde conseguíramos o endereço do fabricante das etiquetas, mas recordo que as encomendei nas mediações onde hoje é Shopping Total e então ali funcionava a cervejaria Brahma. Recordo que depois os convites foram expedidos com a etiqueta que apensava uma ‘fitinha mimosa verde dobrada’.

À tarde, com a missão que me trouxera à Porto Alegre cumprida fui a Feira do Livro. Vim e voltei de trem, pois como filho de ferroviário tinha 75% de desconto. Não imaginava, então, que a feira do livre, na qual debutava – para usar uma palavra de então – iria me capturar a cada novembro. 

A Feira do Livro de Porto Alegre é uma das mais antigas do País. Sua primeira edição ocorreu em 1955 e seu idealizador foi o jornalista Say Marques. Inspirado por uma feira que visitara na Cinelândia no Rio de Janeiro, Marques convenceu livreiros e editores da cidade a participarem do evento. O objetivo era popularizar o livro, movimentando o mercado e oferecendo descontos atrativos. Na época, as livrarias eram consideradas elitistas. Por esse motivo, o lema dos fundadores da primeira Feira do Livro foi: Se o povo não vem à livraria, vamos levar a livraria ao povo. A Praça da Alfândega era um local muito movimentado na Porto Alegre dos anos 50 e de 400 mil habitantes. E, no dia 16 de novembro de 1955, era inaugurada a 1ª Feira do Livro, com 14 barracas de madeira instaladas em torno do monumento ao General Osório. Na segunda edição do evento, iniciaram as sessões de autógrafos. Na terceira, passaram a ser vendidas coleções pelo sistema de crediário.

Desde a minha primeira [aquela terceira edição, em 1957] talvez se possa contar nos dedos de uma mão aquelas que não participei. As três seguintes a minha primeira (1958/59/60) foram talvez as mais esperadas de todas. Elas ocorreram enquanto eu era aluno do curso científico do colégio Júlio de Castilhos. Recordo que então guardava mensalmente das economias do que recebia enquanto trabalhador do Restaurante da Reitoria. E quando chegava novembro escarafunchava os ‘balaios’ na buscas dos saldos. 

Nos anos 70, a Feira assumiu o status de evento popular, com o início da programação cultural. A partir de 1980, foi admitida a venda de livros usados. E, na década de 90, conquistou grandes patrocinadores, estimulados pelas leis nacional e estadual de incentivo à cultura.

Lembro, das feiras mais recente, uma muito especial. A de 1999. Naquele novembro, ainda não tinham fenecido as flores que adornaram a festa de meus sessenta anos, recebo a notícia que tinha um câncer. No dia 13 fomos a um dos acontecimentos anuais que Porto Alegre mais espera, a Gelsa e eu procurávamos, por primeiro, nas muitas barracas da movimentada 45ª Feira do Livro, um mesmo livro: “Câncer tem cura”. Retornávamos com mais de 20 títulos, mas sofregamente devoramos juntos, na mesma noite, por primeiro, o livro do frei Romano Zago, OFM (1999). Lendo as suas descrições simplórias, recordava-me do franciscano que conhecera nos anos 70, quando de minha militância, na paróquia São Francisco. Tomei religiosamente a poção miraculosa de babosa com mel e vinho. Sentia que remédio seqüestrava o maligno caranguejo, ícone da maldita doença. O pensamento mágico funcionaria? Fiz, ante a dúvida, uma cirurgia radical. Sou há 10 anos um câncer free.

Essa remexida no baú de saudades que tem o rótulo ‘feiras do livro’ me remete a um texto que escrevi há 13 anos. “Um convite para a Feira do Livro. Publicado no Imagem Moderna, p.7, ano III, n.9 Inverno de 96”. Transcrevo-o, ipsis verbis, numa querida ajuda da Gelsa, pois não encontrar versão eletrônica e ela amorosamente se propôs a digitá-lo enquanto eu escrevia essa blogada.

UM CONVITE DIFERENTE (por um gaúcho igualzinho aos outros...) ATTICO CHASSOT

 Gaúchos, nossas semelhanças nos fazem brasileiros, mas temos, aqui, coisas gostosas, além do chimarrão, do churrasco e das prendas bonitas que nos fazem diferentes e é sobre uma de nossas coisas diferentes que quero contar-lhes, neste espaço: nossa feira do livro.

Já há 40 anos, a cada última sexta-feira de outubro, quando os jacarandás tingem de roxo as praças e calçadas, a nossa praça da Alfândega se transforma. Os sonolentos aposentados, as chamativas prostitutas e os ruidosos engraxates que a povoam o ano inteiro cedem seus lugares para coloridas barracas que oferecem uma mercadoria que há séculos encanta a nossa civilização: livros.

Nossa feira do livro não é maior que a bienal do livro de São Paulo, nem tão movimentada como a bienal do Rio de Janeiro ou tão internacional como a feira do livro de Frankfurt, mas é diferente de todas: ela é ao ar livro – isto também é terror dos livreiros, pois as chuvaradas primaveris são impiedosas com os livros e há uma tradição, poucas vezes quebrada, de sempre chover no dia da inauguração.

Muitas barracas vão disputar as preferências de milhares de visitantes atraídos pelos 20% de desconto que têm os livros então. Há ainda a atratividade das caixas e balaios de saldo onde muitas preciosidades são encontradas com preços vantajosos. Quando terminam as três semanas de feira, sempre temos um problema: damo-nos conta que para o outubro seguinte deve ser providenciada uma extensão em nossas prateleiras domésticas para os nossos livros. 

Mas a feira do livro é um lócus privilegiado de gostosos encontros. Pode parecer incrível, mas há muitas pessoas que só encontramos anualmente com o testemunho dos livros na praça colorida. Como geralmente quando há feira é também véspera de pleitos eleitorais, elas também são o grande palanque onde se faz o mais fantástico corpo-a-corpo na caça de votos. É muito bonito de se ver adultos e crianças empunhando as bandeiras partidárias junto com sacolas que se estufam de livros.

Enquanto não vem uma eleição, podemos anunciar que neste 28 de outrubro, quando os jacarandás estiverem florindo, estará havendo a 41ª Feira do Livro. Nela haverá lugar para encontros... Venha!

 Essa feira que conto acima não existe mais. Nos últimos anos ela se transmutou. Pode-se dizer que ela se popularizou mais. Talvez. Mas agora ela não é mais cenário de encontros. Ela se tornou intransitável.

A Câmara Riograndense do Livro, talvez ávida de maiores compensações financeiras enxotou as pequenas livrarias para achar lugar a mega-instituições, que nada têm a ver com o livro. Assim, as simples barracas de livreiros foram substituídas por elaboradas instalações de veículos de comunicação, bancos, supermercados, indústrias. A Feira do Livro agora se parece uma Babel. Quando lá estamos, ante a impossibilidade de chegar aos livros, de conversar com pessoas, de curtir uma leitura de orelhas e contra capa, desejamos nos evadir.

Releio o meu texto velho com seus 13 anos. Vejo que as chuvas continuam fazendo estragos, mesmo que agora as barracas sejam cobertas. Ontem dezenas de barracas estavam interditadas pela chuvarada da madrugada. Leio-me e vejo meus preconceitos aflorando: com 57 anos rotulava aposentados de sonolentos. 

Surge perguntas: sou um saudosista? Não tenho mais a Feira do Livro que me encantava? Ou sou eu que quero o conforto de escolher meus livros sentado em uma livraria climatizada? Prefiro, talvez, navegar por sebos na internet? Por que estou insatisfeito?

Não sei. Fico por aqui. Voltamos a chimarrear. Com essas miradas respondi, um pouco a meu amigo belenita José Carneiro que me escreveu perguntando pela feira do livro de Porto Alegre. É mais fácil para ele imaginar o cenário do chimarrão. É aonde ele já foi hóspede. Desejo um bom resto de domingo aos meus queridos leitores. O dia merece ser curtido em dose dupla, pois também é feriado. Recorda um golpe militar que hoje faz 120 anos. Deixamos de ser Império. Tornaram-nos República.




Escrito por Chassot às 08h38
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Caim: ¿Um livro blasfemo?

     14NOVEMBRO2009

SÁBADO

Faltam 22 dias para a COP-15: Conferência do Clima de Copenhague

Porto Alegre

Ano 4 # 1199

É muito bom estar postando esse blogue da Morada dos Afagos, depois de três dias de ausência (que pareceram semanas!) mais uma vez. Minha manhã de sexta-feira foi envolvida ainda no II EnCaQui, onde houve a terceira e última sessão do mini-curso “A História e Filosofia da Ciência como catalisadora de ações transdisciplinares”, onde fizemos uma muito panorâmica mirada nas revoluções que marcam a disciplinarização nas Ciências: a revolução copernicana; a revolução lavosierana; e a revolução darwiniana. Ainda houve autógrafo de livros e muito pedido de fotos e homenagens com oferta de mimos por parte da Coordenação do evento.

Assisti ainda à palestra acerca de Biocombustíveis de 2ª geração, pelo Prof. Dr. Pedro Ramos da Costa Neto (UTF PR). Confesso que não conhecia aquilo que caracteriza a 2ª geração: não competir com alimentos. Foi bastante interessantes as perspectivas trazidas especialmente aquelas relacionadas com resíduos como podas e também a energia que pode ser produzidas a partir de algas.

Passava do meio-dia quando me despedia do IF-ES com carinhos daqueles que me convidaram e também dos que se envolveram para facilitar minha estada em Vitória. Fui então com o Prof. Sidnei conhecer duas das mais importantes ilhas de da capital capixaba. A Ilha do Boi, de onde se tem magníficas vistas da paisagem da grande Vitória e a Ilha do Frade, onde estão as lindas mansões dos muito ricos. Após almoçarmos na zona central, o Sidnei deixou-me no aeroporto obsequiando-me com um artístico móbile que envolve o artesanato da região. 

A partida foi no horário (15h15min) e depois de um voo de cerca de 40 minutos estava no Galeão para uma espera de mais cinco horas. Deixei o Rio quase 22h para chegar à Porto Alegre um pouco antes da meia-noite. A Gelsa me aguardava. Pro problemas de desinformação teve estendidas suas horas de espera no aeroporto. O sábado já era adiantado quando chegamos à Morada dos Afagos.

Nesta viagem (em voos e nas esperas) li o último livro do Saramago. Queria trazer algo desse livro nessa blogada sabatina, para observar a direção de ser sábado dia de dica de leituras. Dou-me conta como, de uma maneira genérica, é difícil trazer algo original acerca de certos textos. Na espera no Galeão, coloquei no Google – Caim Saramago –. A resposta a esse pedido foi mais 1,2 milhão de páginas. No caso em tela há um cardápio multivariado: este vai desde aqueles que condenam o Nobel português aos quintos dos infernos até os que o louvam como o Messias que vem livrar-nos do obscurantismo.

Mesmo ante a dificuldade em trazer algo original, meus leitores certamente hão de perguntar a minha opinião, até para ver se coincide com a de alguns.

Ensaio uma resenha clássica, começando, como usualmente faço, trazendo um breve comentário, ajudado pela Wikipédia, sobre aquele que nesta segunda-feira faz 87 anos. 

José de Sousa Saramago (Azinhaga, 16 de Novembro de 1922) é um escritor, roteirista, jornalista, dramaturgo e poeta português.

Foi galardoado com o Nobel de Literatura de 1998. Também ganhou o Prêmio Camões, o mais importante prêmio literário da língua portuguesa. Saramago é considerado o responsável pelo efetivo reconhecimento internacional da prosa em língua portuguesa. 

Saramago, conhecido pelo seu ateísmo e seu atavismo à Península Ibérica, é membro do Partido Comunista Português e foi diretor do Diário de Notícias. Casado com a espanhola jornalista e tradutora espanhola María del Pilar del Río Sánchez, Saramago vive atualmente em Lanzarote, nas Ilhas Canárias, território espanhol. Essa saída de Portugal, segundo alguns está relacionada com a repercussão (= tentativa de censura) que teve em 1991 o ‘Evangelho’.

Caim [São Paulo: Companhia das letras, 2009, 172p, ISBN 978-85-359-1539-6] é realmente um livro que veio para polemizar, como foi ‘O Evangelho Segundo Jesus Cristo’ (1991) - onde Saramago reescreve o livro sagrado sob a óptica de um Cristo humanizado (sendo esta a sua obra mais controvertida). Nesse livro o autor mostra um Jesus que perdeu sua virgindade com Maria Madalena e que era utilizado por Deus para ampliar seu poder no mundo. 

Quanto à forma, ‘Caim’ segue a peculiar tradição saramaguenha conhecida por utilizar frases e períodos longos, usando a pontuação de uma maneira não convencional. Os diálogos das personagens são inseridos nos próprios parágrafos que os antecedem, de modo que não existem travessões nos seus livros: este tipo de marcação das falas propicia  que  o leitor chegue a confundir-se se um certo diálogo foi real ou apenas um pensamento. Muitas das suas frases ocupam mais de uma página, usando vírgulas onde a maioria dos escritores usaria pontos finais. Da mesma forma, muitos dos seus parágrafos ocupariam capítulos inteiros de outros autores. Apesar disso o seu estilo não torna a leitura mais difícil, se os seus leitores se habituarem facilmente ao seu ritmo próprio.

O novo livro narra em tom irônico a história bíblica de Caim, filho de Adão e Eva que matou o irmão Abel. "A Bíblia é um manual de maus costumes, um catálogo de crueldade e do pior da natureza humana", declarou Saramago. "Sem a Bíblia, um livro que teve muita influência em nossa cultura e até em nossa maneira de ser, os seres humanos seriam provavelmente melhores", completou.

O romancista denunciou "um Deus cruel, invejoso e insuportável, que existe apenas em nossas mentes", e afirmou que sua obra não causará problemas com a Igreja Católica "porque os católicos não lêem a Bíblia". "Admito que o livro pode irritar os judeus, mas pouco me importa".

Gostei do livro nos seus capítulos iniciais, talvez os quatro ou cinco primeiros, depois se torna repetitivo e cansativo. Outra crítica que me parece que cabe é dizer que não se trata de um romance histórico – e é claro que o autor não pretendeu isso – algo que usualmente desejamos encontrar em romances desse gênero. Salvo o mote de abertura: o assassinato de Abel por Caim, tudo mais são voadas do autor, sem qualquer rastro na narrativa bíblica.

Lembrei-me na leitura de uma entrevista da recente no IHU-on line pelo indiano Felix Wilfred – professor na Universidade de Madras, em Chenai, na Índia – acerca do monoteísmo. Ele considera que o mesmo funciona como aniquilador do pluralismo e da diversidade. Para ele, “a concepção de Deus como único tem grande influência na forma de governar. Como há somente um único Deus, torna-se fácil concluir que toda a verdade e poder estão outorgados a uma única pessoa – um imperador, um papa, um bispo etc., excluindo-se práticas democráticas e formas participativas. Então, o monoteísmo poderia servir como uma base ideológica para o autoritarismo e a centralização”. 

Pois é esse Deus todo poderoso que no livro de Saramago persegue de uma maneira continuada Caim, de quem não acolhera o sacrifício. Esse é um primeiro comentário. Dois leitores desse blogue já escreveram em suas páginas sobre o livro. Jairo Brasil:~~ www.profjairobrasil.blogspot.com ~~ e Matilde Kalil: ~~ www.q-analysis.com ~~.Acredito que há ainda muitas outras leituras. 

Penso que a qualquer um de nós, patriota ou não, incomodaria ver um símbolo nacional, a bandeira, por exemplo, transformada em sumário e erótico biquíni ou em uma fantasia de carnaval. A mim, mesmo que não crente, indignou o que Saramago diz, especialmente nas páginas 79 e seguintes, quando descreve a atroz prova que Deus submete Abraão, quando lhe pede o sacrifício do único filho. Chamar o Deus de minha mãe e o de meu pai de ‘filho da puta’ me violenta. Sim! O livro não precisava ser blasfemo.

Mas com esses discretos comentários espero colher aqui outras opiniões. A singeleza do que trago aqui pode ser creditado a um cumprimento da proposta de aos sábado falar em livros. Fiz isso numa espera no Rio de Janeiro. 

Que o sábado seja agradável a cada uma e cada um e prenuncie um domingo de alegrias. Desejo que os milhares de gaúchos atingidos pelas fortes chuvas de ontem e dessa madrugada possam ter um sábado de sol – e isso não parece indicar essa antemanhã – para minimizar estragos.


 



Escrito por Chassot às 09h27
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Numa sexta 13 > Vitória / Rio de Janeiro / Porto Alegte

  13NOVEMBRO2009

SEXTA-FEIRA

Faltam 23 dias para a COP-15: Conferência do Clima de Copenhague

Porto Alegre

Ano 4 # 1198

POR UM INEXPLICÁVEL PROBLEMA TÉCNICO NÃO CONSEGUI, DEPOIS DE MUITAS TENTATIVAS, ADITAR AQUELAS QUE SERIAM MINHAS MELHORES FOTOS. LAMENTO MUITO

Pois já vivo o esperado dia de retornar a Porto Alegre, em uma viagem que por motivo de conexões deverá levar 6 horas, pois saio pelas 15 horas para chegar depois das 21h. Afortunadamente não temo a coincidência de ser hoje uma sexta 13. Esta manhã, tenho a terceira e última sessão do mini-curso, que ontem teve a presença dos 14 quase dobrada, em decorrência da sedução havida com a palestra do dia anterior. Depois da aula autografei dezenas de exemplares de Educação conSciência e de A Ciência é Masculina? Registro dois destes autógrafos: Foto1 ** Foto2 sempre momento de encantamento para um autor.

Assisti pela manhã a interessante palestra “Empreendedorismo e inovação” proferida pela Profa. Dra. Liana Almeida de Figueiredo. Participei também da apresentação oral de três trabalhos, dos quais um de Educação Química.

Para o almoço, junto com o Prof. Sidnei, reuni-me para discutir proposta de Ensino de Ciências nas escolas da rede da Secretaria Estadual de Educação do Espírito Santo com as professoras Elizabete (da Química) e Patrícia (da Biologia). Saboreamos os quatros uma gostosa moqueca capixaba. Eis um registro do encontro Foto3 e a receita do prato mais típico do Espírito Santo. 600g de peixe (robalo ou badejo) coentro, cebola, alho, tomate, urucum, sal (a gosto), azeite, limão. Tudo numa panela de barro. A propósito recebi ontem na palestra um conjunto de produtos típicos do Espírito Santo, entre os quais uma miniatura de uma panela de barro;

Após o encontro com a SEDUC o Professor Sidnei e eu fomos a Vila Velha. A meta primeira era fazer uma visita ao Santuário da Penha. 

Num penhasco que ostenta no seu entorno imponente fragmento da mata atlântica, está edificado o Santuário de Nossa Senhora da Penha, fundado por Frei Pedro Palácios que aqui chegou em 1558. Edificado no cume do penhasco, de 154 metros de altitude, e localização privilegiada, a 500 metros do mar e no centro da cidade de Vila Velha está o conjunto religioso com um mosteiro franciscano também. Foto4 *** Foto5 O local oferece aos visitantes a mais bela vista panorâmica de parte das cidades da Grande Vitória, além do esplendor do pôr-do-sol. Quando chegamos ao portão de entrada. Portão Encontramos esta notícia: ACESSO DE CAROS FECHADO POR UM ANO.

Tínhamos duas opções, ante a impossibilidade de vencer os 1.300 m de carro: desistir da visitação ou subir a pé, a íngreme ladeira com um aclive que sobe cerca de 150 metros. Optamos por subir a pé. E valeu a pena. FOTO ***  FOTO **  FOTO ***  FOTO*** FOTO ***  FOTO.

Mais algumas cenas no mosteiro da Penha:  FOTO**  FOTO*** FOTO** FOTO

Descemos pela Ladeira da Penitência" que é uma via exclusiva de pedestre. O nome de Ladeira da Penitência é devido à sua declividade acentuada e disformidade de calçamento feito de pé-de-moleque, o que exige esforço para descer pelo escorregadio das pedras, uma caminhada de 457 metros, cheia de encantos pelas pedras seculares do calçamento, pelo verde da árvores seculares. Foi uma linda atividade esta subida, estada na Penha e descida.

Depois de uma circulada por Vila Velha passamos pela fábrica de Chocolates Garoto, que apesar de ser uma atração na cidade, não mereceu minha visita. Fomos ao museu da Vale, que uma das mais importantes mega-empresa do Espírito Santo.

Esta visita teve dois momentos distintos. Primeiro a exposição temporária exposição “Salas e abismos”, do artista Waltercio Caldas. Natural do Rio de Janeiro, Waltercio é considerado um dos artistas brasileiros de maior renome internacional, tendo exposto em instituições consagradas de diversos países. No Brasil participou como convidado de edições das bienais de São Paulo em 1983, 1987 e 1996, e representou o país na Bienal de Veneza de 1997.

Foi muito significativo ver Salas e abismos que reúne pela primeira vez nove instalações, ou ambientes, como Waltercio prefere descrever, em um mesmo espaço, criando uma nova visão de sua obra através de um universo singular. Não sendo uma retrospectiva – há uma sala inédita, Silêncio do mundo, concebida especialmente para a mostra –, essa seleção de trabalhos do artista possui uma característica: o desejo específico de fazer com que as obras se relacionem, dialoguem umas com as outras, com o espaço, criem uma tensão e uma união próprias. As obras foram desenvolvidas ao longo da carreira do artista, projetadas para ocupar lugares específicos, onde o espaço é tratado com ênfase em cada uma delas. Daí a designação de ambientes para os trabalhos, que pela primeira vez são exibidos em conjunto. A seleção feita por Waltercio considera o espaço de exposições do Museu como linguagem, propõe novos e surpreendentes lugares para o olhar e apresenta – mais uma vez – os princípios poéticos da obra do artista. Claro que nesta visita lembrei muito da Liba, que tem Waltercio em seu acervo.

O segundo momento foi a visitação da parte permanente: O museu ferroviário. A antiga Estação Pedro Nolasco, construída em 1927, reúne um rico acervo no qual sobressaem a velha Maria Fumaça, o vagão de madeira, o trólei, o telégrafo, o quepe do agente, fotografias, entre outros. Aqui o filho do ferroviário de Jacuí matou saudades dos trens.  FOTO ** FOTO**  FOTO **  FOTO Vimos ainda Centro de Memória da Estrada de Ferro Vitória a Minas. Esse acervo é composto dos documentos originais da ferrovia, fotos, mapas, plantas, filmes, livros, periódicos, dentre outros, resgatados na época da montagem do Museu Vale. 

Às 18h30min chegava ao hotel, ou seja, 11 hora depois de deixá-lo pela manhã. Uma hora depois com a Profa. Dra. Maria Tereza, encontrava-me com o Prof. Dr. Pedro Ramos da Costa Neto (UTF PR) e com a Profa. Ana Brígida Soares, que ontem, em duas oportunidades percorreu comigo idas e vindas Hotel / IF-ES / Hotel, para jantarmos. O prato foi mais uma vez moqueca capixaba, só que desta vez foi de siri, que não superou aquela do meio-dia, mesmo que a da noite tivesse acompanhamento de bananas.  FOTO Aqui uma cena, na orla marítima, próximo ao hotel.

Como ontem, antecipo a postagem para antes de dormir neste dia, pois pela manhã, às 07h30min já deixo o hotel, para depois da terceira sessão do mini-curso começar gradativamente a partir. Faço votos de uma excelente sexta-feira 13 para cada uma e cada um. Tenho a expectativa de editar a blogada sabatina desde a Morada dos Afagos. Até lá.




Escrito por Chassot às 02h12
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Uma segunda blogada capixaba

     12NOVEMBRO2009

QUINTA-FEIRA

Faltam 24 dias para a COP-15: Conferência do Clima de Copenhague

Porto Alegre

Ano 4 # 1197

Foi uma quarta-feira na qual ainda se falou muito do súbito blackout. Ministério de Minas e Energia confirmou que 18 Estados foram afetados pelo apagão que atingiu o país entre a noite de terça-feira (10) e a madrugada de ontem. Foram cerca de 90 milhões de brasileiro e mais um grande número de paraguaios. Ainda não se tem uma explicação convincente. Ontem milhões de pessoas continuaram sem água, pois com o apagão houve desestabilização de estações de tratamento de água que servem muitas cidades. Muitos têm histórias mais exóticas que a minha: não conhecia a geografia do apartamento onde está hospedado. A Maria Teresa Carneiro Lima, que coordena o evento que me traz a Vitória, dentre as pessoas que conheço, foi a campeã em número de andares por subir depois de um dia de trabalho: 16 andares.

Ontem envolvi muito de meu dia em atividades no II Encontro Mineiro de Química. Uma nota lateral. Não encontrei entre meus anfitriões uma boa explicação para ‘capixaba’. Há inclusive uma confusão da referência do gentílico. É da capital ou do estado? Vejam-se os dicionários. O Houaiss registra: relativo à Vitória ES ou o que é seu natural ou habitante; espírito-santense, vitoriense. Já o Aurélio diz: Espírito-santense e informa que é desusado significar: vitoriense.

Um dos dicionários diz ser: ‘Local de plantação; pequeno sítio ou roça’ enquanto o outro refere ser ‘Pequeno estabelecimento agrícola’. Como no Nordeste também pode ser cangaceiro, ouvi ontem alguém referir que aqui esse gentílico pode ser considerado pejorativo. 

O Houaiss explica a etimologia dizendo ser do tupi kapi'xawa 'terra de plantação, roça, sítio'; e comenta que a alteração do elemento inicial co- para ca-, se documenta em inúmeros vocábulos portugueses de procedência indígena, deve-se à influência do tupi ka'a 'mato'; segundo dicionaristas "em épocas remotas, no lugar onde se construiu mais tarde o mercado da cidade de Vitória, fizeram os índios uma plantação a que chamavam por este nome"; a cidade cresceu, e o nome generalizou-se aos habitantes da cidade e depois aos do estado.

A nota lateral ficou extensa e volto ao texto que referia o meu dia no II EnCaQui. Pela manhã dei o primeiro dos três encontros mini-curso “História e Filosofia da Ciência catalisando propostas in-disciplinares”. O grupo é reduzido: 14 participantes, com professores universitários e alunos recém chegados na graduação. Houve muito interesse dos participantes, se considerarmos que esse evento é um encontro de Química ‘hard’ e não de Educação Química. 

Ainda na parte da manhã assisti à palestra “Cenário e perspectiva do setor petrolífero nacional e capixaba” pelo geólogo Luiz Otávio da Cruz de Oliveira Castro. Desta destaco primeiro o meu desconhecimento do quanto é significativa a bacia petrolífera capixaba e quanto a Petrobrás investe na UFES em construção e equipamento de laboratórios. Também me surpreendi de estudos da área de petróleos, que incluem a determinação ‘quase do genoma’ dos mesmos. Ainda assisti a apresentação oral de três trabalhos.

Após o almoço que foi em uma cantina no próprio IF-ES vim para o hotel para uma descansadinha antes de minha palestra. Deleitei-me também na contemplação do mar desde o hotel: Este já vira na chegada do avião Agora da sacada de meu apartamento portaria do hotel. 

À tarde, voltei ao IF-ES para a palestra: “A Ciência como instrumento de leitura para explicar a natureza”.  Não gostei muito de minha fala por duas razões: a primeira porque sendo Linux o sistema operacional, não só muitas de minhas laminas foram desconfiguradas como várias foram simplesmente desapareceram. Outra razão: rígidos controles improrrogáveis de tempos me atrapalham. Todavia foi gratificante receber intensos aplausos de cerca de 300 pessoas e várias manifestações de agrado.

À noite jantei com o Prof. Dr. Sidnei Quezada Meireles Leite , conhecido já de muito tempo e isso ensejou uma muito boa conversação acerca do ensino de Ciências e também externei algumas críticas às propostas dos Institutos Federais, mais especialmente acerca das licenciaturas. Ele ainda me ensejou um lindo passeio até Vila Velha, cruzando a magnífica ponte que está no cartaz do evento e que coloco abaixo desta edição.

Como já é quinta-feira, mesmo que ainda não tenha cumprido o ritual de passagem de ter dormido, vou postar esta edição no inicio do novo dia. Assim, ao acordar terei facilitada minhas ações, quando quero dar uma revisada na segunda sessão do curso, pois a proposta é discutir a “busca de suportes teóricos em Kuhn e Feyerabend para mostra a paralisia na Ciência e aprender a trabalhar com a incerteza. Discutir as quebras de paradigma e as origens da disciplinarização. Entre as certezas na virada dos séculos 19/20 e as incertezas na virada do 20/11: o século da tecnologia”. Assim, uma muito boa quinta-feira a cada uma e cada um e amanhã ainda uma edição com sabor capixaba neste blogue.




Escrito por Chassot às 01h42
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Desde Vitória, também vítima do apagão

    11NOVEMBRO2009

QUARTA-FEIRA

Faltam 25 dias para a COP-15: Conferência do Clima de Copenhague

Porto Alegre

Ano 4 # 1196

Estou pela primeira vez em Vitória, a capital do estado do Espírito Santo. É uma das três ilhas-capitais do Brasil (as outras são Florianópolis e São Luís). Vitória limita-se ao norte com o município da Serra, ao sul com Vila Velha, a leste com o Oceano Atlântico e a oeste com Cariacica. A cidade é uma das menores do território Brasileiro, com área de apenas 93,381 km² distribuídos ilha principal de tipo fluviomarinho, Vitória e outras 34 ilhas (inclusive algumas a mais de 1100 km da costa) e uma porção continental. Originalmente eram 50 ilhas, muitas das quais foram agregadas por meio de aterro à ilha maior.

Tem uma população de cerca de 320 mil habitantes e a quarta mais populosa do estado (atrás dos municípios limítrofes de sua região metropolitana: Vila Velha, Serra e Cariacica) e integra uma área geográfica de grande nível de urbanização denominada Região Metropolitana da Grande Vitória, compreendida pelos municípios de Vitória, Cariacica, Fundão, Guarapari, Serra, Viana e Vila Velha. Vitória possui dois grandes portos, o porto de Vitória e o Porto de Tubarão. 

Entre as capitais do Brasil, Vitória possui o 3° melhor IDH e o maior PIB per capita.

Minha viagem à Vitória correu como o previsto, com uma escala no Rio de Janeiro. Do Galeão, mesmo abordo, graças ao 3G pude acessara internet e inclusive responder a comentários neste blogue. Nos dois trechos em meio a recuperadoras dormidinhas entremeei leituras dos 4 primeiros capítulos de ‘Caim’, o último livro de José Saramago; um dos presentes que ganhei de aniversário da Liba. Teria comentários para fazer aqui, mas minha agenda se desorganizou pois também eu fui um dos milhões de vítimas do apagão que conto aqui. Só antecipo que que o texto no estilo crítico de Saramago confirmo o significado dominador ditatorial da figura divina nas religiões monoteísta. Tenho assuntado isso talvez para o próximo sábado em dicas de leitura.

Cheguei a Vitória, às 16h30min, contemplando um pouco as maravilhas insulares que descrevo acima. Ra aguardado pelo Prof. Dr. Valdemar Lacerda Junior, que no trecho ao Hotel ofereceu-me informações da geografia da cidade. Cheguei ao hotel às 17h e uma hora depois saia para a inauguração do II Encontro Capixaba de Química. Para os menos informados um detalhe: capixaba é o gentílico que corresponde a espírito-santense, cuja origem parece ser do nome indígena de uma planta.

A cerimônia de abertura foi marcada pela presença de autoridades da Universidade Federal do Espírito Santo (UFES) e do Instituto Federal do Espírito Santo (IFES- ex CEFET-ES) que realizam o evento em parceria. Depois de linda apresentação do coral camerata da UFES houve a palestra de abertura “Um panorama da Química brasileira: passado e futuro” pelo Prof. Dr. Ângelo da Cunha Pinto da UFRJ. Foi muito agradável conhecer 200 anos de Química no Brasil que se iniciam com a chegada da Familia Real ao Brasil em 1808 até a situação atual com a consolidação da pós-graduação.

À palestras seguiu-se um coquetel de confraternização onde por um tempo pude conversar mais como Ângelo. Durante o coquetel fomos surpreendidos pela sinalização da notícia que depois se confirmaria em maior extensão: Vitória e o Espírito Santo estiveram imersas no apagão que afetou cidades em 15 Estados do país. 

A pane foi gerada por uma pane no sistema elétrico interligado brasileiro. Por efeito dominó, inclusive o sistema paraguaio teve o fornecimento de energia interrompido. A hipótese mais provável é que tenha havido algum acidente que afetou um ou mais pontos do sistema de transmissão, inclusive o de Furnas, responsável por levar a energia de Itaipu para o Sul e Sudeste, acidente este que provocou outros, fenômeno que se costuma chamar de efeito dominó. 

Ao lado dos problemas macro que isso gerou, há situações micro como a que vivi até a madrugada, como estar em um apartamento escuro (sem uma vela) do qual não sabes nem direito onde é o banheiro, acrescido de não teres internet e ar condicionado em uma noite muito quente. Mas na madrugada a energia elétrica voltou. Usso também nos permite ser empáticos à situação de países como o Equador e a Venezuela que vivem racionamentos diários.

Esta manhã tenho a primeira das três sessões do mini-curso “História e Filosofia da Ciência catalisando propostas in-disciplinares”. As duas outras serão nas manhãs de amanhã e sexta-feira. À tarde tenho uma palestra plenária: “ A Ciência como instrumento de leitura para explicar a natureza”. 

Desejo a cada uma e cada um a melhor quarta-feira. Que o convencimento de nossa dependência à energia elétrica nos permita entender as sinalizações que o Planeta dá quanto a sua (também) debilidade.




Escrito por Chassot às 06h49
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Lévi-Strauss: também um precursor do ambientalismo

    10NOVEMBRO2009

TERÇA-FEIRA

Faltam 26 dias para a COP-15: Conferência do Clima de Copenhague

Porto Alegre

Ano 4 # 1195

Cheguei a não muito de minha hora de Academia. Houve hoje grande sedução para ‘enforcar’ os exercícios. Uma madrugada chuvosa ~~ 11 ml/m2 aqui na Morada dos Afagos ~~ aliado a um sobrecansaço de uma noite onde ontem, após as aulas para a turma da Filosofia falei ‘Algo mais sobre a vida e obra de Charles Darwin’ na Semana Acadêmica do Curso de Biologia do Centro Universitário Metodista - IPA. Era 23h e ainda não havia conseguido condução para retornar.

A manhã aqui será curta. Às 11h já vou ao aeroporto. Inicio a terceira das oito viagens pós-Colômbia neste 2009. Viajo, entorno do meio-dia à Vitória, no Espírito Santo. Há dois detalhes significativos neste destino. O primeiro: das 27 unidades federativas do Brasil, não estive (para palestra, cursos ou assemelhados) em cinco: Acre, Amapá, Roraima, Tocantins e.....Espírito Santo. Se considerarmos que destas cinco apenas o Espírito Santo não é dos ‘novos’ Estados, passa a ser muito bom cumprir a reabilitação de uma histórica a minha postergação de conhecer uma das mais importantes unidades da Federação. Outra, não fosse a Gripe A H1N1, que determinou cancelamentos em agendas, ainda na primeira semana de dezembro estaria uma vez mais em Vitória. Assim estou muito contente por de amanhã até sexta-feira participar do II Encontro Capixaba de Química e pela primeira vez estar no Espírito Santo.

Na quarta feira que passou comecei homenageando aqui o etnólogo e antropólogo estruturalista Claude Lévi-Strauss que morrera aos 100 anos na noite de sábado para domingo. Desde então lemos nos jornais muitos textos acerca do emérito morto. Alguns indigestos, pois há intelectuais que ao se fazerem difíceis pensam em consagrar-se. Outros primorosos.

Um destes é o aquele Manuela Carneiro da Cunha antropóloga, professora aposentada da Universidade de Chicago (EUA) publicou no Caderno Mais da Folha de S. Paulo deste dia 08 de novembro. Admitindo que nem todos meus leitores tenham acesso a esse texto, ele se faz a blogada de hoje, pois vale ser saboreado, inclusive pelas dimensões inéditas para mim de um Lévis-Strauss precursor do ambientalismo e da defesa dos animais.

 Há pelo menos 20 anos me pedem para deixar escrito e preparado um obituário de Claude Lévi-Strauss e há 20 anos tenho recusado. Hoje [quarta-feira, 4/11] li o obituário dele publicado no "New York Times" e fiquei indignada com sua lista de inanidades: quase todas as leituras equivocadas de sua obra estão lá, quase todas as distorções do seu pensamento e do seu estilo também, quase todos os preconceitos de quem não se deu ao prazer de o ler.

Achei que pelo menos no Brasil, se não nos EUA, tínhamos o dever de assinalar a grandeza desse homem. Lévi-Strauss não foi só um antropólogo -o maior dos antropólogos, como bem disse Steve Hugh Jones, professor na Universidade de Cambridge, no ano passado-, ele foi um pensador originalíssimo e um escritor admirável.

Um homem sintonizado com a ciência e a arte, cujos interesses iam da matemática à cosmologia, às ciências da vida, à filosofia, à música. Descrito como cerebral por quem não vê mais longe do que o próprio nariz, ao contrário Lévi-Strauss tinha uma sensibilidade rara para o mundo material.

As descrições que faz em "Tristes Trópicos" [Cia. das Letras], a minúcia com que conhece bichos, plantas e constelações e os faz figurar nas suas análises de mitologia, sua recuperação da lógica do sensível no livro "O Pensamento Selvagem" [Papirus], tudo isso atesta, para quem o sabe ler, a convergência rara da inteligência e da sensibilidade.

Lévi-Strauss, contrariamente ao que estupidamente se publicou no "New York Times", era tudo menos pedante. Tinha um pensamento límpido, sintético, e plena consciência das implicações do que estava afirmando.

Tinha também o dom extraordinário de falar exatamente como escrevia. Era como se sua prosa elegante fosse o fruto espontâneo de seu pensamento. Impunha um respeito imediato. Por mais que ele sempre tivesse sido amigável comigo, por mais que me tivesse apoiado, escrito e encorajado, nunca deixei de ficar intimidada na sua presença.

Ainda no "New York Times", se faz referência à famosa frase que abre "Tristes Trópicos" -"Odeio viagens e exploradores"- para apoiar as críticas absurdas de que Lévi-Strauss não tinha apreço pela etnografia e pelo trabalho de campo.

Difícil ter maior apreço do que ele, que, contrariamente a Edmund Leach, que o difundiu na Inglaterra (sem jamais o ter bem compreendido), nunca autorizou a análise de mitos sem o conhecimento profundo da etnografia e do ambiente.

Era, sem dúvida, e confessadamente, um cientista que gostava de seu gabinete -gabinete [em Paris] que aliás conservou e frequentou quase até o fim e que, após a mudança de endereço do Laboratório de Antropologia Social para a antiga Escola Politécnica, tinha-se tornado um ninho de águia dominando o Laboratório.

Mas as viagens que fez no Brasil dos anos 1930 foram excepcionais não somente pela sua dificuldade e extensão mas também pelas análises que geraram. Recolocando a frase de "Tristes Trópicos" em seu contexto, e vendo o uso que ele faz dos cronistas do Brasil do século 16, entende-se do que ele está falando. Basta ler.

A voga do estruturalismo nos anos 1960 foi um desserviço para Lévi-Strauss.

Se por um lado o tornou mundialmente famoso, também o assimilou de modo espúrio a outros autores como Althusser e Lacan- com quem não tinha, na realidade, afinidade intelectual.

De Lacan, seu amigo pessoal, ele dizia que nunca o tinha entendido. E não há nada mais diferente de Lévi-Strauss do que Althusser. E, sobretudo, exatamente porque foi moda, foi substituída por outras modas que lhe sucederam.

Talvez por isso, Lévi-Strauss dizia que tinha vivido demais, que tinha presenciado seu próprio esquecimento. Mas viveu afinal o bastante para perceber que seu pensamento estava sendo redescoberto, dessa vez por filósofos ainda mais do que por antropólogos.

Reparem que escrever, no auge de sua glória, os quatro volumes das (grandes) "Mitológicas" [Cosac Naify] foi uma empresa espantosa.

Ele já tinha dado o programa e os alicerces da obra em artigos e um livro. Mas resolveu empreender sozinho e com meios artesanais a análise detalhada de centenas de mitos das Américas, reconstituir -usando a própria prodigiosa intuição- as lógicas que presidem esse conjunto e usar declaradamente seu próprio pensamento como revelador do pensamento ameríndio e do pensamento mítico em geral.

Um grande homem. Um homem também à frente de seu tempo, precursor do ambientalismo e da defesa dos direitos dos animais.

Lévi-Strauss não proclamou só a unidade dos mecanismos do pensamento na espécie humana, ele também denunciou a crueldade absurda de um mundo ordenado para servir a humanidade e destruído a seu bel-prazer.

Dito claramente: Lévi-Strauss foi um grande homem e um grande pensador, e as futuras gerações terão ainda o prazer de o descobrir.

Com a expectativa de lermos amanhã, meus votos de uma muito boa terça-feira. Então, até Vitória.




Escrito por Chassot às 08h32
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Há 20 anos, também, o socialismo real se esboroava

  09NOVEMBRO2009

SEGUNDA-FEIRA

Faltam 27 dias para a COP-15: Conferência do Clima de Copenhague

Porto Alegre

Ano 4 # 1194

Prometi me policiar na edição da blogada de hoje. Já fartei meus leitores, desde sexta-feira, falando de meu aniversário. Estou um pouco criança deslumbrada. Posso até me absolver dizendo que fazer 70 anos merece certa badalação. Mas há limites. Assim antecipadamente prometo que ficarei em um resumido relato de ontem acerca do encerramento das comemorações jubilares e para depois trazer outro assunto.

Como contei na edição de sábado e domingo, resolvemos comemorar o meu passar ao rol dos 70tinhas em um hotel no Vale dos Vinhedos. Éramos 18 pessoas: Filhos, filhas, noras, genros e cinco netos, a Liba, a Gelsa e eu. Sobre o sábado já contei aqui ontem. Na manhã de ontem retomamos o festejo com um ‘desayuno’ em conjunto. Nunca havíamos nos reunidos para um café da manhã com esta configuração. Nesse encontro, entre muitas fotos recuperei aquela que faltara na edição de ontem uma com o trio Ana Lúcia, Eduardo e Guilherme, que ocorrera sem a presença do neto que o segundo na sequência dos cinco, pois este dormia ao jantar: . Certamente nas nossas evocações essas quase duas horas juntos em torno de uma mesa poderá ser inesquecível. Seguiu-se programação livre para nos reencontramos no hotel às 13 horas. Fomos então a um restaurante para um almoço que já tinha sabor de despedida. Eu tive mais uma vez parabéns com direito a apagar velinhas. Eram apenas sete, pois para 70 talvez não houvesse fôlego.  Emocionei-me uma vez. Às 16 horas cada um dos seis caros começou, por caminhos diferentes, a se dispersar. Foram 27 horas maravilhosas. A sensação que eu tive ao retornar foi de que estivera pelo menos uma semana ausente de casa, pois descera a serra inundado de acarinhamentos.

Virando o disco. Como se dizia na era do LP que se extinguiu com o advento do Cd, na segunda metade da década de 1980. Isso é: mudando de assunto, ou numa expressão mais vulgar, mudando de saco para mala. Os jornais têm feito assunto, nos últimos dias, os 20 anos da queda de muro de Berlin, que é especialmente recordada nesta segunda-feira. Sem ter a pretensão de fazer análises sociológicas, muito menos interpretações históricas, pois para isso não sou competente, quero trazer um pequeno comentário pessoal.

Em julho de 1989 fui pela primeira vez a Europa. Era na verdade a minha primeira viagem internacional, se não contabilizasse incursões fronteiriças à Argentina (Paso de Libres), ao Uruguai (Rivera) ao Paraguai (Puerto Stroessner) e à Bolívia (Guayaramirin). 

Presenteava-me, em companhia da Gelsa, no segundo ano de nossa história, com uma primeira viagem pela celebração de meus 50 anos. Fazia em julho e agosto uma antecipação de novembro. Preciso dizer que tomei tanto gosto por viajar ao exterior, que hoje já amealho cerca de duas dezenas de viagens internacionais para Europa, Ásia, África e Américas. Mesmo que aquela primeira viagem fosse do tipo 12 países em seis semanas, hoje, na evocação do Muro, ela ainda aflora prenhe de recordações e nesses últimos dias se faz muito presente e por isso assuntada aqui. 

O Muro de Berlim foi uma barreira física, construída pela República Democrática Alemã (Alemanha Oriental) durante a Guerra Fria, que circundava toda a Berlim Ocidental, separando-a da Alemanha Oriental, incluindo Berlim Oriental. Este muro, além de dividir a cidade de Berlim ao meio, simbolizava a divisão do mundo em dois blocos ou partes: República Federal da Alemanha (RFA), que era constituído pelos países capitalistas encabeçados pelos Estados Unidos; e República Democrática Alemã (RDA). Construído na madrugada de 13 de agosto de 1961, dele faziam parte 66,5 km de gradeamento metálico, 302 torres de observação, 127 redes metálicas eletrificadas com alarme e 255 pistas de corrida para ferozes cães de guarda. 

Consulto um volumoso registro que fiz daquela memorável viagem de 1989, que se iniciara em Paris, quando das comemorações do bicentenanário da Revolução Francesa. O tempo amareleceu mais de uma centena de folhas, prenhes de recortes e fotografias, muitas das quais se transformaram de coloridas em monocolor.

 Vou ao dia 10 de julho. Às 07h02min estamos deixando de trem Amsterdam rumo a Hannover então na RFA. Nessa cidade, trocamos de trem e às 13h partimos a Berlin, sendo que às 14h20min chegávamos a Marieborn, a primeira estação da RDA, onde um rígido ritual de controle de passaporte marcou nosso ingresso ‘no outro lado da cortina de ferro.’ Chegamos a Berlin, às 17h15min. Estávamos na Berlin Ocidental vitrine do capitalismo, nas bordas de Berlin Ocidental, separados pelo Muro. No mesmo dia da *chegada estamos juntos ao divisor quase intransponível, que separava uma cidade e um país em duas partes* . Realmente há diferença entre o turista encantado de então e o 70tinha que ontem ainda soprou velinhas.

Por várias vezes estivemos em pontos ‘onde se podia ver o outro lado’ onde ouvíamos pais, seduzidos pelo capitalismo, mostrar aos filhos quanto do lado de lá tudo era triste e as construções eram feias e descoloridas. No dia 13 fizemos nossa sonhada travessia. Encantamos-nos com os museus e com os parques em nossas fugazes 4 horas no ‘temível mundo comunista’.

Ainda nessa viagem, em 22 de julho, atravessamos mais uma vez a ‘cortina de ferro’ quando fomos à Praga que ficava então no Tchecoslováquia. Recordo o quanto uma vez mais fomos submetidos a rigorosas inspeções. Afortunadamente essas são histórias que pertence ao passado. Os muros estão hoje em outros locais como na fronteira dos Estados Unidos com o México ou separando a África da Europa ou até em nossas grandes cidades separando a zona controlada pela droga.

Há 20 anos o muro se esboroava. Terminava simbolicamente o socialismo real. As utopias de um mundo mais igual não terminaram.

Não é sem razão que para o britânico Eric Hobsbawm, talvez o maior historiador vivo,, o principal efeito da queda do Muro de Berlim, em 1989, foi a desestabilização da geopolítica mundial em prol da única superpotência remanescente: os EUA.

Para ele, como consequência, o mundo se tornou mais perigoso. Em "A Era dos Extremos", ele já defendera os desdobramentos da queda do muro como cruciais para o século 20. Ele diz que o que ‘nosso século’ terminou em 9 de novembro de 1989. Daí o termo que cunhou: "breve século 20".

Eu estive em Berlin, dez anos depois da queda do Muro. Claro que encontrei outra cidade. Tenho um pedaço do Muro como um souvenir que me interroga: Como será o Planeta com este capitalismo vitorioso, mas fracassado e belicoso?

Procurando uma resposta, meus votos de uma segunda-feira e uma excelente semana a cada uma e cada um. Amanhã, se tu correr como o planejado, nos leremos, também, aqui. Até então.


 



Escrito por Chassot às 09h07
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Relato de uma celebração familiar de um fazer-se 70tinha

      08NOVEMBRO2009

DOMINGO

Faltam 28 dias para a COP-15: Conferência do Clima de Copenhague

Porto Alegre

Ano 4 # 1193

Esta edição dominical do blogue é postada uma vez mais do Vale dos Vinhedos. Esta é uma região que ocupa uma área de 82 quilômetros quadrados na região serrana, a 130 quilômetros de Porto Alegre. O Vale dos Vinhedos compreende parte dos municípios de Bento Gonçalves, Garibaldi e Monte Belo do Sul, sendo sua maior parte formada pelo distrito de mesmo nome, no município de Bento Gonçalves. Os vinhos do Vale são os únicos do país a apresentar o Selo de Indicação de Procedência, sendo garantida pela APROVALE a origem dos vinhos finos ali produzidos.

A área, de suaves colinas cobertas por parreirais, plátanos e araucárias, atualmente é conhecida como região que produz os melhores vinhos brasileiros. O Vale dos Vinhedos representa o legado cultural e histórico deixado pelos imigrantes italianos, chegados ao Brasil em 1875 em Bento Gonçalves. A construção de capelas e capitéis, a devoção aos santos, o dialeto vêneto e, principalmente, o cultivo da videira e a produção do vinho são marcas da imigração italiana.O Vale dos Vinhedos é hoje visitado por quem aprecia o enoturismo. São pequenas propriedades rurais dividindo espaço com vinícolas renomadas, que ao longo dos últimos anos conquistaram destaque nacional e internacional pela qualidade e personalidade dos seus vinhos.

Lamentavelmente, é preciso registrar que na região, também devido a desigualdades sociais, a violência está presente. Ainda nessa quinta-feira, o Rio Grande do Sul assistiu conturbado a notícia de que duas semanas depois de ser sede de uma reunião para debater a segurança e o policiamento comunitário na localidade de São Valentim, distrito de Tuiuty, interior de Bento Gonçalves, o mercado Maito foi alvo de uma assalto que resultou na morte da sócia-proprietária do estabelecimento.

Dois homens atacaram o mercado e balearam Patrícia Anderle Maito. Atingida com um tiro no peito, ela morreu 40 minutos depois, no hospital. Ela era casada havia oito anos com Adilso Maito. A comerciante deixa os filhos Lorenzo, cinco anos, e os gêmeos Vicenzo e Fabrizio, um ano. O casal e as crianças moravam na parte superior do estabelecimento. Patrícia completaria 33 anos no dia 14 de dezembro. 

Sei que esse registro não se faz palatável num domingo em que essa blogada era para registrar apenas alegrias de uma festa familiar em uma das mais prósperas regiões do estado. Quero desfrutar agora a oportunidade de fazer um pequeno relato das fortes emoções que vivo nas horas desta minha estada, mais uma vez, no Vale dos Vinhedos.

A Gelsa e eu deixáramos Porto Alegre pelas 9h com a Liba e o Antônio. Depois de por um tempo estar em Carlos Barbosa, como combináramos, por volta do meio-dia começamos a receber nossos filhos, filhas, genros, noras, netos, netas no Sbornea's, restaurante, previamente combinado. Iniciava-se então a comemoração do meu fazer-me 70tinha, já badalado aqui ontem e na sexta-feira. 

Fizemos então um almoço muito gostoso e depois nos instalamos no Villa Michellon, um muito um lindo hotel, em sete apartamentos. Em cinco deles estão hospedados os meus cinco queridos trios: 1) Bernardo, Carla e Maria Antônia; 2) André, Tatiana e Pedro; 3) Laura, Gabriel e Antônio; 4) Ana Lúcia, Eduardo e Guilherme; 5) Clarissa, Carlos e Maria Clara. Em um sexto a Liba e no sétimo: a Gelsa e eu. A continuada chuva fez que confraternização entre os meus convidados fosse na parte interna do hotel, onde a piscina foi atração de adultos e crianças. Vi emocionado alguns dos meus em momentos juntos muito inéditos.

Houve momentos em que fui presenteado com lindos mimos por meus filhos e netos, a foto  com a Maria Antônia e o Bernardo é um exemplo. E também pelos amigos João e Janice Milani, da Cantina Milantino, aos quais sou ligado há muitos anos por uma relação de amizade. A Janice já referi em textos acerca de suas explicações sobre videiras e João, é filho do Sr. Olívio Milani, falecido recentemente, de quem conto no ‘Sete Escrito sobre Ciências e Educação’ como os italianos na região aprenderam a técnica da poda nos parreirais. Recebi mesmo um vinho de sua produção.

À noite a celebração prosseguiu com a participação em lindo jantar no hotel onde o cardápio era comida típica da colonização italiana. Do jantar trago cenas onde pousei com Bernardo, Carla e Maria Antônia, a primogênita dos netos . Com André, Tatiana e Pedro, o caçulinha dos cinco netos ; Com a Laura, Gabriel e Antônio, que desfrutava na festa o privilégio de ter sua bisavó Liba; Com Ana Lúcia, Eduardo, quando Guilherme na aparece, pois as horas de piscina o fizeram dormir mais cedo  Com a Clarissa, Carlos e Maria Clara, queridamente grudada no seu avô . Ainda apareço em foto com a Liba e a Gelsa  e com o meu quarteto .

A presença de um grupo coral da região animou o ‘canto do parabéns’, trazido de momentos da história da região, cantos e danças. Destas um exemplo estão em duas cenas onde a Carla e eu nos integramos ao coral para cantar ‘Como se mangia la bela polenta’; *

Um dos momentos mais emocionantes da celebração foram as falas. Iniciadas pela Liba e prosseguidas pelo Bernardo, pelo André, pela Carla, pelo Gabriel e pela Gelsa e ao final por mim. Quisera poder trazer uma síntese das belezas generosas que ouvi de cada uma e cada um numa noite memorável. É impossível.

Nossa celebração prossegue nesse domingo. Temos combinado fazermos jutos ‘o café da manhã’ no hotel. O almoço será mais tarde já em operação retorno. É muito bom estar podendo compartir com meus leitores esse tríduo de comemorações de meu tornar-me 70tinha com tantos acarinhamentos. Um bom domingo a cada uma e cada um e amanhã nos encontramos aqui para abrir mais uma semana que será prenhe de atividades.


 



Escrito por Chassot às 05h50
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